“ Na escuridão se percebe a luz no fim do túnel. Acostume o olhar. Às vezes precisamos estar em situações conflitantes para observar melhor que nos rodeia. Muitas das vezes só precisamos disso para encontrar soluções que o tempo todo estavam ao nosso alcance “
Amanheceu e iniciou um novo dia. Gabriel já tinha se levantado, tomado o seu banho e feito seu desjejum. Já estava pronto à espera de Thomas. Não podia mentir que estava ansioso pelo dia que se iniciaria, queria tentar virar essa página de sua vida e começar do zero.
Toc
Toc
Toc
Gabriel levantou e foi até a porta. Ao abrir se deparou com Thomas e o mesmo sorriu para ele.
— Bom dia, Parsons, então… conseguiu dormir? Já tomou café? Perguntou o agente.
Gabriel sorriu para o homem e respondeu retribuindo o sorriso:
— Sim, Thomas, obrigado.
O moreno sorriu e disse:
— Então vamos, vou te levar até o seu trabalho.
Ambos saem da porta do apartamento rumo ao seu destino. Gabriel observava o caminho e quando percebeu estava diante de uma escola municipal. Desceram do carro e entraram na escola. Sorriu ao escutar os gritos das crianças e ver a euforia delas, correndo de um lado para o outro, fez seu coração bater acelerado e seu peito ser invadido por um sentimento misto: Alegria e tristeza. Por um momento pensou que se não estivesse acontecido aquela fatalidade, ele já estaria com cinco anos, e talvez, pudesse estar ali, no meio daquelas crianças. Gabriel ficou com um olhar vazio e disperso e só voltou a si quando Thomas o chamou.
— Gabriel?
Desviou os olhos azuis para o agente da condicional que o encarava preocupado.
— Tudo bem?
— Sim Thomas. me desculpe, foram apenas lembranças dolorosas. — suspirou fundo e deu um pequeno sorriso. Talvez trabalhar rodeado de crianças o ajude a curar as suas feridas ainda abertas na sua alma.
Thomas entrou pelos portões da escola e se dirigiu até a diretoria. Chegando lá ele se deparou com o seu amigo de longas datas. O ruivo sorriu ao ver a figura conhecida parada do lado de fora e disse:
— Olha só quem resolveu dar o ar da graça. — falou se levantando e indo ao encontro do velho amigo e o envolveu num abraço apertado. — Entre meu caro amigo, seja bem vindo! — Thomas se afastou do abraço e disse:
— Esse é o rapaz do qual lhe falei. — apontou para Gabriel que observava tudo calado. — O seu nome é Gabriel Parsons, ele está sob meus cuidados, e precisa de um bom emprego. Será que temos algo para ele por aqui?
Sebastian olhou para a figura ao lado do amigo. Um homem bem alto, apesar das tatuagens, parecia uma boa pessoa. Se estava ali, disposto a trabalhar, era porque queria mudar e ser alguém na vida. O ruivo sorriu e disse:
— Seja bem vindo Gabriel, espero que você goste de trabalhar por aqui, sente-se, deixe-me ver sua ficha pessoal.
Gabriel acompanha Thomas se sentando diante de Sebastian. O loiro estava nervoso, o futuro de sua vida dependia daquele homem diante de si. Não tinha muito a ser feito, era apenas esperar. O ruivo passou a folhear os arquivos e com um sorriso no rosto respondeu:
— Bem… vejo aqui que antes de ser preso você fazia faculdade de administração. Nossa, fluente em três línguas, bom em contabilidade e cálculo… sinceramente acho que vou demitir meu contador e contratar você . — falou sorrindo. Gabriel e Thomas sorriram juntos com o ruivo. Gabriel então, resolveu perguntar:
— Bem… qual seria o meu trabalho, senhor Sebastian?
O ruivo arregalou os olhos, balançando as mãos e de maneira divertida falou:
— Por favor, sem senhor, afinal acho que temos quase a mesma idade, não é? — Perguntou fazendo uma careta. Gabriel sorriu e concordou. Sebastian continuou: — Não tenho muitas opções de trabalho por aqui , mas você vai fazer de tudo um pouco, desde pequenos trabalhos no jardim, como também serviços mais pesados na limpeza e organização das salas, tudo bem para você ?
Gabriel sorriu largo e disse empolgado:
— Posso fazer qualquer coisa, só quero a oportunidade para seguir com o restante da minha vida.
Sebastian sorriu para o loiro e disse:
— Temos um grupo de professores que trabalham aqui todos os dias nos dois turnos, de segunda a sexta. Você deve chegar antes das 07:00 e sair às 17:00. Suas refeições serão feitas aqui mesmo, temos uma pequena copa e uma cozinheira que cozinha para nós. Gabriel ouvia tudo encantado. Não deixaria que nada estragasse essa oportunidade, iria cumprir a promessa que havia feito a Antony, um passo de cada vez. Sebastian continuou:
— Algumas professoras nossas podem ser um tanto ousadas…— disse sussurrando e Gabriel apenas ouviu calado. — Pois você é jovem, boa pinta, acho melhor tomar cuidado com cantadas indesejadas que possam prejudicar o seu trabalho. Isso é problema para você? — perguntou com seriedade.
— Como disse senhor Sebastian, eu apenas desejo uma oportunidade para mudar de vida. Já vivi no inferno por tempo demais e não quero nunca ter que voltar para lá. Não irei desonrar sua escola acatando cantadas de mulheres, até porque não estou a procura desse tipo de diversão no momento. — respondeu sério.
O ruivo sorriu largo e logo retrucou:
— Calma rapaz! Você fala como se tivesse morrido para o mundo, você ainda é jovem e tem muito a viver ainda, o fato de ter cometido um erro na sua vida, não significa que você deve pagar por isso pelo resto dela. Sua dívida já foi paga, agora você tem que se permitir viver novamente, não seja tão duro com você. — respondeu sorrindo.
Gabriel ouvia aquelas palavras com atenção. Fazia tempo que não se permitia escutar e absorver nada de alguém. Sebastian era um homem sábio, apesar de ser novo ele demonstrava ter muita experiência e vivência. Abaixou a cabeça e respondeu:
— Agradeço pelas palavras, não quis ser rude, só quero que o senhor compreenda o quanto essa oportunidade é importante para mim. Prometo que honrarei a sua escola e esse emprego, quanto a minha vida, prefiro mantê-la como ela está. Relacionamentos são algo para mim que quero manter distante, é o momento de pensar apenas em mim, e não pretendo deixar isso passar.
Sebastian ouvia tudo que Gabriel falava, e não sabia explicar o porque que aquelas palavras mexeram tanto com ele. De alguma forma ele sentia-se ligado aquele rapaz, e ajudá-lo deveria ser sua missão.
— Gabriel… não é porque cometemos um erro na nossa vida que devemos viver presos a ele. Todos temos direito a uma segunda chance, basta querermos mudar. — declarou Sebastian.
Gabriel concordou com a cabeça e não disse mais nada. Thomas analisava o rapaz calado, era perceptível que ele estava apenas em busca de viver novamente em paz, ao mesmo tempo, era doloroso ver como ele limitava a vida apenas a viver um dia de cada vez, ver um homem jovem, sem esperanças era algo que há muito, Thomas não tinha se deparado. Sebastian se levantou, caminhou pela sala e abriu uma pequena porta e disse:
— Bem… aqui estão suas coisas pessoais e suas ferramentas de trabalho. Tem um pequeno quarto atrás da biblioteca, você pode se acomodar lá. Se trocar e começar a trabalhar. – falou Sebastian animado.
Thomas aproveitou e disse:
— Gabriel, sua consulta com a psicóloga está marcada para sexta à tarde, às 15:00 horas, eu lhe acompanharei.
Gabriel se despediu dos homens, e foi até o local onde Sebastian tinha falado. Estava empolgado, iria trabalhar e fazer algo útil para si. Sebastian apenas observava o loiro indo embora, virou para o amigo e perguntou:
— Thomas… o que ele fez?
O moreno suspirou fundo e com pesar respondeu:
— Ele matou um homem.
Sebastian arregalou os olhos surpresos. Ficou em silêncio por alguns minutos e em seguida respondeu:
— Sei que nada justifica o que ele fez, mas acredito que tem uma história por trás desse crime. Ele não me parece ser alguém que tira a vida de uma pessoa por prazer.
— É verdade meu amigo. Existe sim uma história, muito triste por sinal, com um tempo você irá descobrir. – respondeu Thomas.
— Só espero que ele consiga encontrar a paz interior e o desejo de seguir adiante. — concluiu Sebastian sorrindo para o amigo.