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Estados Unidos
São Francisco, Califórnia
Conjunto habitacional Parkers
Todos os ex-detentos, eram encaminhados a um abrigo coletivo. Eles tinham direito a liberdade condicional, porém eram monitorados constantemente. Seu agente de condicional, garantiria que eles se mantivessem na linha. Era também responsabilidade do agente os introduzir de volta à sociedade. Ele o instalava nos centros habitacionais e lhes oferecia um emprego, suficiente para que eles pudessem se manter, mas os ex-presidiários, tinham atribuições que deveriam ser cumpridas à risca. Não podiam se envolver com drogas, prostitutas ou confusão. Tinham que chegar nas suas casas antes das 22:00 horas, se por acaso se atrasasse por algum motivo, deveriam informar ao agente da condicional, caso contrário, eles perdiam o direito a sua condicional e acabavam voltando para a cadeia. Todos os ex-detentos, também eram obrigados a fazer acompanhamento psicológico para garantir que eles permanecessem “sociáveis”.
Gabriel nesse exato momento tinha descido do ônibus e seguia rumo ao endereço que foi dado por Anthony, estava diante do conjunto habitacional. Era um complexo com prédios de três andares, um total de quatro. Cada andar era composto por quatro apartamentos, nele só viviam ex-presidiários.
Ele pôde enxergar no pequeno papel que o dele era o bloco B , então se dirigiu até o seu bloco. Na parte de baixo tinha um enorme balcão e se encontrava um rapaz com a face meio tediosa, Gabriel se aproximou devagar e disse:
— Olá, boa tarde. Onde encontro Thomas Hoody? — o homem o fitou de cima a baixo e suspirou antes de responder :
— Você deve ser o novato? — deu um sorrisinho para Gabriel que o fitou sem expressão. — espere um minuto.
O homem se levantou e foi até o telefone que estava ao seu lado ligando para alguém. Gabriel apenas o observava calado. Alguns minutos após, pode perceber que uma porta se abriu e por ela saiu um homem alto, com os cabelos pretos cumpridos e o rosto sério. O homem ficou diante de Gabriel e o encarou nos olhos dizendo:
— Você deve ser Gabriel Parsons? — perguntou o homem. Gabriel apenas concordou com a cabeça.
— Me chamo Thomas, Thomas Hoody, sou seu agente de condicional. Irei lhe mostrar o seu apartamento e lhe dar algumas instruções, queira me acompanhar. — Thomas saiu andando e Gabriel saiu logo atrás do mesmo.
Ambos caminharam em silêncio, e subiram até o segundo andar. Ficaram diante da porta 203 B e logo em seguida a mesma foi aberta. O apartamento era simples, estilo Kitnet. Possuía um único quarto , dentro dele uma pequena cama e um guarda roupa. Na sala, uma pequena mesa com duas cadeiras. A cozinha era estilo americana, tinha uma geladeira, um pequeno fogão e um armário, todos velhos mas ainda com bom funcionamento. Era um lugar aconchegante e simples, um lugar para se chamar de lar.
Thomas sentou na cadeira e fez sinal para que Gabriel sentasse à sua frente. Após ambos sentados começou a falar:
— Bem, Parsons, a sua vida aqui será boa dependendo de você. Não sei se Antony lhe falou sobre as condições de sua liberdade. Gabriel concordou com a cabeça. Thomas sorriu e continuou: — ótimo. Eu ficarei responsável por você durante esses dois longos anos, e caso você saia novamente da linha você retornará para a prisão, então se você não quer voltar para o inferno é bom seguir todas as exigências.
Gabriel ouvia tudo atentamente, Thomas, continuou:
— Nada de drogas, bebidas, prostitutas e festas. Você sai pela manhã para trabalhar e o horário de recolhimento é às 22:00 horas. Caso você se atrase por qualquer motivo, você deverá me telefonar informando. — Thomas retirou um telefone celular do bolso do seu casaco e o entregou. — o número um da discagem rápida é o meu número pessoal. Esse dinheiro é para você se manter até receber o seu primeiro salário. Amanhã pela manhã, virei lhe buscar para lhe levar até o seu local de trabalho, agora descanse.
Thomas se levantou e se dirigiu até a porta, mas antes de sair virou para Gabriel e disse:
— Não jogue essa nova chance no lixo. Anthony é meu amigo e me pediu muito para ficar de olho em você. Ele me disse que você era o tipo de cara que valia a pena! — completou sorrindo — Acho que posso esperar grandes coisas vindas de você. Não me decepcione.
O moreno saiu do apartamento de Gabriel o deixando sozinho perdido em seus pensamentos. Uma nova vida que se iniciava e com ela a esperança que dias melhores virão.
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Gabriel se levantou e dentro de sua pequena bolsa pegou uma muda de roupas e uma toalha e seguiu até o pequeno banheiro que tinha no apartamento. Se despiu e por um momento ficou fitando sua imagem diante do grande espelho do banheiro. Seu corpo repleto de tatuagens e algumas cicatrizes, essas que foram adquiridas durante os longos anos na prisão, quando ainda tentava controlar o seu demônio interior. Caminhou até o box e ligou o chuveiro, deixando a água fria percorrer por todo o seu corpo. Era a primeira vez que ele desfrutava desse sentimento de liberdade. Naquele pequeno momento, pôde sentir como se estivesse lavando a sua alma. Após o banho, vestiu seu moletom preto e deitou na cama. O cansaço permitiu que ele se entregasse ao sono, Gabriel dormiu como há muito não fazia.
“— Eu vou matar você seu desgraçado, você me tirou tudo!
Gabriel estava diante do homem e o socava com toda a força do seu corpo. Estava furioso, não pensava em mais nada, apenas em se vingar. O corpo diante de si já se encontrava sem vida, mesmo assim, ele não parava de bater. Ouvia-se os gritos de pessoas ao seu redor, mas ele não se importava. O que importava naquele momento era matar aquele que tinha acabado com sua vida.”
— Não!
Gabriel despertou do pesadelo ofegante. Todas as noites que dormia, ele sonhava com o dia em que sua vida desmororou. Lembrar do seu crime, era sempre doloroso para si, por causa de seus atos, ele viveu encarcerado por longos cinco anos. Por causa de suas escolhas, ele perdeu tudo o que tinha, inclusive sua dignidade.
Abriu os olhos ainda ofegante e por um momento não reconheceu o lugar que estava. Quando conseguiu controlar sua respiração, se sentou na cama, passando a mão pelos cabelos e respirando fundo disse a si mesmo:
— Calma Gabriel. Já passou, foi apenas um pesadelo!
Se levantou e foi até a cozinha. Pegou um copo com água e tomou. Por um momento pensou: — Será que algum dia iria superar? Se aproximou da pequena janela e olhou para a lua, e por uma fração de segundos se permitiu chorar, algo que ele não fazia há cinco anos. E ali naquele quarto sozinho, diante da lua, ele deixou a sua máscara da vulnerabilidade cair só para ela, que brilhava no céu estrelado apenas para ele.
E Gabriel chorou depois de muito tempo.