Parte I - Luana

1502 Words
Três anos depois Minha vida nunca foi fácil. Mesmo quando meus pais eram vivos, o dinheiro era a conta certa das obrigações da casa, mas éramos felizes. Não faltava amor, que é o mais importante. E justo quando meu pai conseguiu juntar dinheiro suficiente para nossa primeira viagem, o que era pra ser um sonho deu início a um pesadelo. Com a morte de meus pais, eu com quatorze anos e meu irmão com três, fomos morar na casa da minha avó paterna. Ela era pensionista, e quando adoeceu um ano depois, o dinheiro era pouco para sustentar a casa e comprar seus remédios. Então comecei a trabalhar na parte da manhã como repositora em um mercadinho na minha cidade. Moramos em uma cidadezinha pequena do interior do Rio de Janeiro, todo mundo conhece todo mundo, e por saber de nossa necessidade, o proprietário do mercadinho me deu o emprego de meio período para que eu pudesse continuar os estudos. Um pouco antes de meu aniversário de dezoito anos, minha avó veio a falecer e eu precisei deixar meu último ano escolar para trabalhar em período integral no mercadinho. O vazio da ausência de meus pais só aumentou com a ausência de minha vó. Agora a única família que havia me restado era meu irmão de seis anos, pois depois da morte de meu tio João, Ana e minha tia se fecharam para o mundo e há alguns meses se mudaram para o interior se São Paulo, já que elas não suportavam mais viver com as lembranças da casa. Erik fica em uma creche para que eu possa trabalhar, no final de meu expediente eu o busco, faço a janta e cuido da casa. Eu choro sozinha em minha cama quase toda noite, mas não imaginava que o pior da minha vida ainda está por vir. Em uma manhã como qualquer outra, estou trabalhando na caixa registradora. Não há muitas pessoas no mercadinho e como todos se conhecem, eu e minha colega notamos alguém diferente entrar no mercado. Os dois caixas estão vazios, mas ele veio para o meu quando retornou com sua cesta. Ele é alto, bonito, loiro e tinha olhos azuis. — Bom dia! — Digo educadamente. — Bom dia! — Ele responde. Passo os seus produtos e cobro o valor. Ele paga, e quando eu entrego o troco, segura mais do que o dinheiro, segura também minha mão. — Seus olhos são lindos! — Ele diz com um sorriso no rosto. — Obrigada! — Respondo ruborizando, não sou acostumada com elogios desse tipo. — Trabalha aqui todos os dias? — Sim! Ele pega seu troco, sua sacola e se retira. — Até a próxima, então! — Ele diz se despedindo. Logo mais uma cliente chega e eu passo seus produtos, mas não paro de pensar naquele homem. Quando os dois caixas estão vazios, minha colega, Silvana, vem até mim. — Me conta! — Contar o quê? — O que aquele cara falou? — Bom dia? — Além disso, não é, Luana. Eu vi que ele falou mais alguma coisa e segurou sua mão. — Nada demais, Silvana! — Ah, para! Ele falou que eu vi. Ele é daqui do Rio? Ou de outro estado? De outro país talvez, com aqueles olhos. — Eu trabalho no seu lugar, Sil, vai atrás dele. O mercado está vazio hoje! — Não. Ele gostou de você! — Olho incrédula para ela. — É sério. Eu notei quando ele te olhou, foi diferente, ele se interessou. E eu acho que ele vai voltar. — Vai nada. Deve estar de passagem, hoje mesmo deve ir embora. — Mas me fala, ele é daqui do Rio? — Como vou saber? — Ele falou com você. Parecia sotaque de fora ou daqui? — Ah, não sei. Daqui, eu acho. — Olha, isso é bom! — Um senhor com um engradado de latinhas de cerveja se aproxima do meu caixa e minha amiga se cala um pouco. Quando o homem foi embora eu falo. — Bom pra quê? — Se ele realmente se interessou por você, e se ele for daqui do Rio de janeiro mesmo, facilita as coisas, não é? — Tira essas coisas da sua cabeça! — Então, é do Rio. Seria daqui do interior ou da cidade grande? — Meu Deus, Silvana, vai atrás desse homem e me deixa em paz! — Tá. Tá! Vou voltar pro meu trabalho. Minha amiga voltou, mas passou o dia todo dando um sorrisinho bobo para mim. Ao fim de meu expediente, busco meu irmão na creche e vou para casa. — Pizza! — Ele grita quando eu digo que vou preparar o jantar. — Pizza! Pizza! Pizza! — Ele grita e pula pela cozinha. — Mas você já comeu hambúrguer ontem, e batata frita e sorvete no outro dia! — Ah.... por favor! Só hoje! — Seus olhinhos pidões me abalam, e acabo cedendo e pedindo uma pizza. Muito nova para ser mãe, ou para agir como uma, algumas vezes aprendo da maneira mais difícil: errando. — Menino, você parece um furacão! — Ele devora quase metade da pizza sozinho. — Muito, muito, muito gostoso! — diz lambendo os dedos e eu ri muito da carinha de felicidade dele. Terminando a pizza, fui até a sala assistir um filme antes de colocá-lo na cama. Aparentemente ele está cansado e deitou em meu colo. Quando o filme termina, eu o levo para seu quarto, coloco em sua cama e estou saindo quando ele me chama. — Mãaaae! — Tem coisa errada, ele não me chama assim. Somente quando está passando m*l ou algo o incomoda, como um sonho r**m. — O que foi, Erik? — inquiro voltando para a sua cama. — Tá doendo! — Eu sabia que tinha coisa errada. — O que está doendo? — A barriga! Começo a ficar nervosa. É a primeira vez que ele passa m*l depois da morte de minha vó. Nunca cuidei dele totalmente sozinha. Minha avó, mesmo de cama, me dizia o que fazer. Agora não tenho ninguém, somos apenas nós dois. Como não sei o que fazer, o levo imediatamente para o hospital. Ele vomitou no ônibus e sujou a camisa. Sorte que eu tinha levado outra peça de roupa, pois minha vó sempre dizia para levar outra camisa e bermuda na bolsa, além de uma toalhinha. Limpei seu rosto com a camisa suja e vesti a limpa, torcendo que ele não a sujasse, porque neste caso não teria outra. O hospital está cheio. Casos considerados não emergenciais demoram mais tempo para serem atendidos e eu e meu irmão ficamos muito tempo esperando. Finalmente o médico nos atendeu. Brigou comigo por dar tanta besteira para uma criança, mas graças a Deus não é nada grave, mas ele alertou que uma alimentação assim pode levar uma criança a adoecer, e eu aprendi isso da pior forma. Meu irmão recebeu seu devido tratamento e foi liberado, eu terei que comprar alguns remédios no dia seguinte, mas por hoje ele está medicado. Uma semana de comidas leves, isso ele iria odiar. Quando o médico falou em sopa de legumes ele torceu o nariz. É tarde quando saio do hospital. Mais de uma hora no ponto e nada de ônibus para onde moramos. Meu irmão com sono, acabou adormecendo em meu colo. Eu não sei o que fazer. Não tenho dinheiro para chamar um táxi nem pra motorista de aplicativo. E o ônibus já parou de circular, só de manhã que voltaria a passar. Vou chegar atrasada no trabalho e meu irmão vai perder a creche. Suspiro fundo, não tenho o que fazer. Sento no banco, aninho meu irmão e fico ali, — Ei! — Escuto uma voz me chamar e uma buzina. Olho assustada, já estava quase cochilando com a cabeça apoiada no vidro. — Quer carona? Ia negar imediatamente, mas o reconheci. Ele sorri, seus olhos azuis brilharam com a luz dos postes de iluminação. É o cara do mercado, nem sei seu nome. — Já sei o que está pensando. — Ele começa. — Não me conhece e não quer pegar carona com um estranho, mas acho que não vai passar ônibus aqui tão cedo. Vamos! Eu não mordo. Considerei tudo, mas ele é minha melhor opção naquele momento. Peço a Deus que nos guarde, pois estou entrando com meu irmão pequeno no carro de um estranho. — Erik, acorda! — Ele esfrega o seus olhos com as mãozinhas. — Vamos, temos carona. Ele se levanta e anda meio sonolento, e olha para o homem sentado ao volante. — Quem é você? — Meu nome é Ruan. Sou amigo da sua mãe! — diz e estende a mão para Erik que me olha confuso, mas aperta os dedos do homem. — Eu sou o Erik. — Prazer em te conhecer, garotão! — Erik olha meio desconfiado, criança não esconde o que sente ou pensa, mas não diz nada. — Vamos, entrem! Entro no carro, e seja o que Deus quiser! Conhecendo
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