Durante o percurso, meu irmão acabou dormindo e Ruan e eu conversamos muito. Disse a ele que Erik não é meu filho, mas sim meu irmão. Ele começou a rir da mancada que deu e no fim eu estava rindo também.
Ele é muito divertido, e muito bonito. Simpático e prestativo. Disse que enquanto estiver na minha cidade, poderia chamá-lo a qualquer hora.
— É aqui? — pergunta quando disse para parar.
— Sim. Não vou te chamar para entrar porque está muito tarde e preciso dormir um pouco.
— Ah, claro. Posso te ver amanhã?
Eu não sei o que responder nem o que estava implícito ali.
— Vai passar no mercado? — pergunto em vez disso.
— É claro. Posso te levar para almoçar?
— Eu costumo almoçar lá mesmo.
— Mas te deixariam sair para almoçar, se você quisesse?
— Acho que sim.
— Ótimo, vou te levar para almoçar então. — Ele me dá um beijo na bochecha que me deixa sem reação. Não esperava.
Ruan entra no carro e vai embora, e eu fico com meu irmão pendurado em meus braços ainda dormindo. O menino está muito pesado, mas, por alguns segundos, esqueci do peso e fiquei olhando o homem ir embora. Coloco meu irmão no chão, o despertando, e entramos em casa.
Demoro a pegar no sono. Pura idiotice minha. Nunca me envolvi com alguém, posso dizer que sou uma garota ingênua. Minha vida era meu irmão e minha avó e agora somente meu irmão. Aquele simples beijo me deixou abalada. Penso em seu sorriso e seus olhos, em como foi gentil e ainda me chamou para almoçar.
— Para de pensar nesse homem e vai dormir, d***a! — Me repreendo. — E quando ele voltar pra sua cidade? Como vai ser se a i****a aqui ficar caidinha por ele? — Esfrego meus olhos e tento afastar qualquer pensamento.
A manhã corre normalmente. Passo na farmácia para comprar os remédios do meu irmão e os deixo com a responsável da creche para que ela desse os remédios na hora certa. Dou um beijinho de despedida em Erik e vou para o trabalho.
Silvana e os outros funcionários já haviam chegado.
— Tudo bem, amiga? Está com uma cara... — Ela diz.
— Erik passou m*l a noite, tive que levá-lo ao hospital e cheguei tarde em casa. Dormi muito pouco.
— O que ele teve? Tadinho! — Seus olhos grandes refletiam uma preocupação genuína.
— Foi tudo culpa minha — respondo enquanto preparo meu caixa para começar os atendimentos. — Dei muita bobagem a ele esses dias e ele passou m*l. Não sei ser mãe, Silvana!
— Amiga, você é nova demais, ninguém nasce sabendo. Essa você já aprendeu, né! Eu vou indo que os rapazes já estão abrindo as portas.
O mercado está um pouco mais movimentado, hoje, mas nem tanto. Tivemos vários momentos livres que aproveitávamos para conversar.
— E a Ana, nunca mais vi essa garota — comenta quando um cliente acaba de deixar seu caixa, e eu estava em pé ao seu lado.
— Desde que foi para São Paulo que não faço a menor ideia do que está acontecendo com ela — respondo e dou de ombros.
— Ela já estava esquisita antes de ir embora, né! — comenta a minha amiga.
— Sim, ela e a mãe se fecharam depois do acidente. — Suspiro ao me lembrar do acontecido. — Eu sei que é sofrido perder o pai, afinal, perdi os dois no mesmo tempo.
— Pois é, você sofreu dobrado e ainda ficou com seu irmão para cuidar, e é ela que parecia perdida, de m*l com o mundo todo.
— Cada um reage de um jeito, Sil. E talvez o fato de ter que trabalhar para ajudar em casa tenha me salvado da mesma situação.
Silvana dá de ombros considerando a minha resposta.
Volto para o meu caixa para atender um cliente que se aproxima, e minha amiga não falou sobre Ruan em nenhum momento, também não o mencionei. Não contei a ela sobre sua ajuda na noite passada, mas a calmaria estava prestes a acabar.
Estou fechando o caixa para o meu almoço quando o vejo parado a minha frente.
— Eu me perguntei como você saberia meu horário de almoço, já que revezamos, Silvana e eu — disse a ele.
— Digamos que eu tenha me informado sobre isso ontem? — responde com aquele sorriso enorme estampado no rosto.
— Ah... então você já viria aqui de qualquer maneira.
— Sim, mas teria que fazer um teatro, não é! Comprar alguma coisa... puxar conversa... e depois te convidar.
— Muito espertinho, você! — digo saindo de trás do caixa.
— E então, vamos? — Ele me estende a mão e eu a aceito. Silvana está com aquele sorrisinho insuportável de quem me torturaria o resto da tarde.
O almoço foi tranquilo. Conversamos bastante. Contei um pouco da minha vida e ele pareceu se importar comigo de verdade.
— Luana... — Ele segurou minha mão. — Tenho certeza que eu posso te ajudar.
— Me ajudar? Como?
— Você pode se mudar para o Rio... sabe... na cidade mesmo!
— O que eu vou fazer na cidade grande, Ruan? Não tenho ninguém lá!
— Poxa... desse jeito você me magoa. — Rio da cara de cão abandonado que ele fez. — Tem a mim!
— Ruan. Não posso, não te conheço. Você não me conhece. Essa é a segunda conversa que temos.
— Mas eu posso te oferecer um emprego melhor. Poderá ter sua vida lá.
— Que emprego?
— Eu trabalho em uma agência de modelos. É tudo muito sério, pode procurar na internet! E você é linda, Luana. Você não seria modelo de passarela, é claro, seria modelo fotográfica.
— Modelo? Eu? — Começo a sentir um friozinho na minha barriga. Nervoso? Talvez.
— Olha, eu te levo. Você fará um treinamento, tenho ótimas pessoas para isso. Depois fará um teste, se for aprovada, e eu acredito que será, você fará parte do nosso catálogo. Empresas terão acesso as suas fotos do ensaio e você será chamada para fazer fotos.
— Que tipo de fotos?
— A maioria são lojas de roupa, sabe aquelas meninas que você vê nos catálogos das lojas? Eles colocam nas suas páginas da internet também. Então, a maioria é este tipo de foto. É claro que você nunca será obrigada a aceitar, e pagam muito bem, pagamos muito bem aos nossos modelos.
— Não sei, preciso pensar.
— Pense, Luana. Ficarei mais uma semana aqui, é tempo suficiente para nos conhecermos melhor e você decidir o que quer.
— É claro. Obrigada pela oferta! Vou pensar, sim. — Olho meu relógio. — Bem, eu tenho que ir, se não chegarei atrasada.
— Vamos então. — Ele chama o garçom do restaurante, paga a conta e saímos.
Durante o percurso de volta a meu trabalho, a conversa flui maravilhosamente bem. É como se nos conhecêssemos há muito tempo.
— Posso te pegar para jantar?
— Não sei se é uma boa ideia.
— Por que não?
— m*l nos conhecemos, já saí para almoçar com você hoje... — Ele me interrompe.
— Luana! — Seu rosto estava sério agora. — Quero que me conheça e que confie em mim. Por isso quero estar com você o máximo possível nesta semana que me resta aqui.
— Eu aceito, então! — Ele sorriu novamente. — Mas tem uma coisa.
— E o que é?
— Meu irmão estará conosco!
— Ótimo! Será muito divertido, acho que sei onde levarei vocês.
— Ele não pode comer besteiras. Terá que ser algum lugar que tenha algo que ele possa comer.
— Vou ver isso. Fique tranquila, encontraremos um lugar.
— Obrigada pelo almoço, Ruan — agradeci e abri a porta para sair, mas antes que eu pudesse deixar o carro ele segura minha mão.
— Espere! — Encaro-o, seus olhos estão intensos demais. — Posso te dar um beijo?
— É claro. — Aproximei minha face para que ele pudesse beijá-la.
Ele beijou meu rosto com seus olhos intensos fixos em mim. Me viro, seguro seu rosto e lhe beijo a bochecha.
— Foi o beijo na bochecha mais gostoso da minha vida! — Ele brinca.
— Até mais tarde, Ruan! — Saio correndo.
Entro no mercadinho com o coração quase saindo pela boca e tudo isso por um beijo na bochecha! Tenho certeza que quando contar a Silvana ela vai morrer de rir da minha cara.
— E então, como foi o encontro com o bonitão de olhos azuis? — Silvana pergunta, é claro que ela não deixaria passar nada.
Conto a ela sobre a carona, sobre o almoço e a oferta de emprego. Nem cheguei na parte do jantar e ela já está surtando.
— Como pode acontecer tanta coisa em tão pouco tempo? Por isso vocês estão tão íntimos hoje, achei estranho aquilo, sabia que tinha coisa.
— Mas e o emprego? — Ela continuou. — Você vai aceitar, não é?
— Não sei, Silvana. Não o conheço, não conheço a cidade do Rio de janeiro, não tenho ninguém lá. E se não der certo?
— Para que existe telefone e rede social, amiga? Passa tudo para mim, endereço, telefones... se não der certo você volta.
— Vou pensar. Ele ainda vai ficar essa semana aqui, disse que quer passar o máximo de tempo comigo para nos conhecermos, e me chamou para jantar hoje!
— Você vai, não é! Um gato daqueles não se vê todo dia. E ele tá ronronando por você, amiga! — Rio do que ela diz, não tem como não rir.
O restante do dia se arrasta, passa lento demais. Estou ansiosa para meu encontro com Ruan. O segundo encontro no mesmo dia!