Conhecendo

1637 Words
Durante o percurso, meu irmão acabou dormindo e Ruan e eu conversamos muito. Disse a ele que Erik não é meu filho, mas sim meu irmão. Ele começou a rir da mancada que deu e no fim eu estava rindo também. Ele é muito divertido, e muito bonito. Simpático e prestativo. Disse que enquanto estiver na minha cidade, poderia chamá-lo a qualquer hora. — É aqui? — pergunta quando disse para parar. — Sim. Não vou te chamar para entrar porque está muito tarde e preciso dormir um pouco. — Ah, claro. Posso te ver amanhã? Eu não sei o que responder nem o que estava implícito ali. — Vai passar no mercado? — pergunto em vez disso. — É claro. Posso te levar para almoçar? — Eu costumo almoçar lá mesmo. — Mas te deixariam sair para almoçar, se você quisesse? — Acho que sim. — Ótimo, vou te levar para almoçar então. — Ele me dá um beijo na bochecha que me deixa sem reação. Não esperava. Ruan entra no carro e vai embora, e eu fico com meu irmão pendurado em meus braços ainda dormindo. O menino está muito pesado, mas, por alguns segundos, esqueci do peso e fiquei olhando o homem ir embora. Coloco meu irmão no chão, o despertando, e entramos em casa. Demoro a pegar no sono. Pura idiotice minha. Nunca me envolvi com alguém, posso dizer que sou uma garota ingênua. Minha vida era meu irmão e minha avó e agora somente meu irmão. Aquele simples beijo me deixou abalada. Penso em seu sorriso e seus olhos, em como foi gentil e ainda me chamou para almoçar. — Para de pensar nesse homem e vai dormir, d***a! — Me repreendo. — E quando ele voltar pra sua cidade? Como vai ser se a i****a aqui ficar caidinha por ele? — Esfrego meus olhos e tento afastar qualquer pensamento. A manhã corre normalmente. Passo na farmácia para comprar os remédios do meu irmão e os deixo com a responsável da creche para que ela desse os remédios na hora certa. Dou um beijinho de despedida em Erik e vou para o trabalho. Silvana e os outros funcionários já haviam chegado. — Tudo bem, amiga? Está com uma cara... — Ela diz. — Erik passou m*l a noite, tive que levá-lo ao hospital e cheguei tarde em casa. Dormi muito pouco. — O que ele teve? Tadinho! — Seus olhos grandes refletiam uma preocupação genuína. — Foi tudo culpa minha — respondo enquanto preparo meu caixa para começar os atendimentos. — Dei muita bobagem a ele esses dias e ele passou m*l. Não sei ser mãe, Silvana! — Amiga, você é nova demais, ninguém nasce sabendo. Essa você já aprendeu, né! Eu vou indo que os rapazes já estão abrindo as portas. O mercado está um pouco mais movimentado, hoje, mas nem tanto. Tivemos vários momentos livres que aproveitávamos para conversar. — E a Ana, nunca mais vi essa garota — comenta quando um cliente acaba de deixar seu caixa, e eu estava em pé ao seu lado. — Desde que foi para São Paulo que não faço a menor ideia do que está acontecendo com ela — respondo e dou de ombros. — Ela já estava esquisita antes de ir embora, né! — comenta a minha amiga. — Sim, ela e a mãe se fecharam depois do acidente. — Suspiro ao me lembrar do acontecido. — Eu sei que é sofrido perder o pai, afinal, perdi os dois no mesmo tempo. — Pois é, você sofreu dobrado e ainda ficou com seu irmão para cuidar, e é ela que parecia perdida, de m*l com o mundo todo. — Cada um reage de um jeito, Sil. E talvez o fato de ter que trabalhar para ajudar em casa tenha me salvado da mesma situação. Silvana dá de ombros considerando a minha resposta. Volto para o meu caixa para atender um cliente que se aproxima, e minha amiga não falou sobre Ruan em nenhum momento, também não o mencionei. Não contei a ela sobre sua ajuda na noite passada, mas a calmaria estava prestes a acabar. Estou fechando o caixa para o meu almoço quando o vejo parado a minha frente. — Eu me perguntei como você saberia meu horário de almoço, já que revezamos, Silvana e eu — disse a ele. — Digamos que eu tenha me informado sobre isso ontem? — responde com aquele sorriso enorme estampado no rosto. — Ah... então você já viria aqui de qualquer maneira. — Sim, mas teria que fazer um teatro, não é! Comprar alguma coisa... puxar conversa... e depois te convidar. — Muito espertinho, você! — digo saindo de trás do caixa. — E então, vamos? — Ele me estende a mão e eu a aceito. Silvana está com aquele sorrisinho insuportável de quem me torturaria o resto da tarde. O almoço foi tranquilo. Conversamos bastante. Contei um pouco da minha vida e ele pareceu se importar comigo de verdade. — Luana... — Ele segurou minha mão. — Tenho certeza que eu posso te ajudar. — Me ajudar? Como? — Você pode se mudar para o Rio... sabe... na cidade mesmo! — O que eu vou fazer na cidade grande, Ruan? Não tenho ninguém lá! — Poxa... desse jeito você me magoa. — Rio da cara de cão abandonado que ele fez. — Tem a mim! — Ruan. Não posso, não te conheço. Você não me conhece. Essa é a segunda conversa que temos. — Mas eu posso te oferecer um emprego melhor. Poderá ter sua vida lá. — Que emprego? — Eu trabalho em uma agência de modelos. É tudo muito sério, pode procurar na internet! E você é linda, Luana. Você não seria modelo de passarela, é claro, seria modelo fotográfica. — Modelo? Eu? — Começo a sentir um friozinho na minha barriga. Nervoso? Talvez. — Olha, eu te levo. Você fará um treinamento, tenho ótimas pessoas para isso. Depois fará um teste, se for aprovada, e eu acredito que será, você fará parte do nosso catálogo. Empresas terão acesso as suas fotos do ensaio e você será chamada para fazer fotos. — Que tipo de fotos? — A maioria são lojas de roupa, sabe aquelas meninas que você vê nos catálogos das lojas? Eles colocam nas suas páginas da internet também. Então, a maioria é este tipo de foto. É claro que você nunca será obrigada a aceitar, e pagam muito bem, pagamos muito bem aos nossos modelos. — Não sei, preciso pensar. — Pense, Luana. Ficarei mais uma semana aqui, é tempo suficiente para nos conhecermos melhor e você decidir o que quer. — É claro. Obrigada pela oferta! Vou pensar, sim. — Olho meu relógio. — Bem, eu tenho que ir, se não chegarei atrasada. — Vamos então. — Ele chama o garçom do restaurante, paga a conta e saímos. Durante o percurso de volta a meu trabalho, a conversa flui maravilhosamente bem. É como se nos conhecêssemos há muito tempo. — Posso te pegar para jantar? — Não sei se é uma boa ideia. — Por que não? — m*l nos conhecemos, já saí para almoçar com você hoje... — Ele me interrompe. — Luana! — Seu rosto estava sério agora. — Quero que me conheça e que confie em mim. Por isso quero estar com você o máximo possível nesta semana que me resta aqui. — Eu aceito, então! — Ele sorriu novamente. — Mas tem uma coisa. — E o que é? — Meu irmão estará conosco! — Ótimo! Será muito divertido, acho que sei onde levarei vocês. — Ele não pode comer besteiras. Terá que ser algum lugar que tenha algo que ele possa comer. — Vou ver isso. Fique tranquila, encontraremos um lugar. — Obrigada pelo almoço, Ruan — agradeci e abri a porta para sair, mas antes que eu pudesse deixar o carro ele segura minha mão. — Espere! — Encaro-o, seus olhos estão intensos demais. — Posso te dar um beijo? — É claro. — Aproximei minha face para que ele pudesse beijá-la. Ele beijou meu rosto com seus olhos intensos fixos em mim. Me viro, seguro seu rosto e lhe beijo a bochecha. — Foi o beijo na bochecha mais gostoso da minha vida! — Ele brinca. — Até mais tarde, Ruan! — Saio correndo. Entro no mercadinho com o coração quase saindo pela boca e tudo isso por um beijo na bochecha! Tenho certeza que quando contar a Silvana ela vai morrer de rir da minha cara. — E então, como foi o encontro com o bonitão de olhos azuis? — Silvana pergunta, é claro que ela não deixaria passar nada. Conto a ela sobre a carona, sobre o almoço e a oferta de emprego. Nem cheguei na parte do jantar e ela já está surtando. — Como pode acontecer tanta coisa em tão pouco tempo? Por isso vocês estão tão íntimos hoje, achei estranho aquilo, sabia que tinha coisa. — Mas e o emprego? — Ela continuou. — Você vai aceitar, não é? — Não sei, Silvana. Não o conheço, não conheço a cidade do Rio de janeiro, não tenho ninguém lá. E se não der certo? — Para que existe telefone e rede social, amiga? Passa tudo para mim, endereço, telefones... se não der certo você volta. — Vou pensar. Ele ainda vai ficar essa semana aqui, disse que quer passar o máximo de tempo comigo para nos conhecermos, e me chamou para jantar hoje! — Você vai, não é! Um gato daqueles não se vê todo dia. E ele tá ronronando por você, amiga! — Rio do que ela diz, não tem como não rir. O restante do dia se arrasta, passa lento demais. Estou ansiosa para meu encontro com Ruan. O segundo encontro no mesmo dia!
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