Mesmo sem Zafira pedir qualquer ajuda, Cael tomou a liberdade de organizar os pratos e talheres sobre a mesa pequena da cozinha.
Era uma mesa simples, de apenas duas cadeiras, coberta por uma toalha que cheirava a amaciante e lar, mas que, de alguma forma inexplicável, parecia muito mais acolhedora que a sua casa imensa, recheada de luxos frios e detalhes vazios que não traziam paz à sua alma inquieta.
Ali, naquele espaço reduzido, Cael sentia que o ar era mais leve, menos carregado pelo peso da sua própria autoridade.
Enquanto Zafira terminava de finalizar a macarronada, concentrada no vapor que subia da panela, ele se ocupava com movimentos precisos, cortando frutas frescas e batendo um suco natural no liquidificador.
O ruído do aparelho preenchia o silêncio confortável da cozinha, e aquele gesto tão doméstico e comum fez Zafira parar por um segundo, segurando a colher de p*u, para encará-lo de uma forma diferente.
Foi inevitável para ela a intrusão de um pensamento de comparação.
Em seus relacionamentos anteriores, marcados por homens que sugavam sua energia e diminuíam seu valor, ela nunca teve um parceiro que sequer elevasse um dedo para ajudá-la.
Mesmo quando estava exausta, doente ou sobrecarregada, eles esperavam ser servidos, tratando sua dedicação como uma obrigação invisível. Mesmo quando ela dizia que não precisava de auxílio, um mecanismo de defesa que desenvolveu para não se decepcionar, eles aceitavam sua recusa com alívio e preguiça.
Cael, no entanto, fazia o contrário. Ele não pedia permissão; ele simplesmente agia, ocupando os espaços vazios com uma p******o silenciosa.
No fundo, Cael percebia exatamente o que se passava naquela mente brilhante e cansada.
Ele via no olhar de Zafira que ela era, por sobrevivência, o tipo de pessoa que aprendeu a se virar sozinha porque alguém, em algum momento c***l do passado, a fez acreditar que pedir ajuda era um sinal de fraqueza ou um incômodo para os outros.
Ele queria desconstruir essa mentira. Queria fazê-la acreditar no contrário, e entendia que para alcançar o coração de uma mulher como ela, não bastavam joias ou promessas vazias; tinha que começar com os pequenos detalhes do cotidiano.
Ele serviu o suco em uma jarra de vidro, colocou os copos na mesa e se sentou, esperando pacientemente que ela terminasse.
Não havia nele o olhar de impaciência que ela estava acostumada a receber dos homens, nem o sinal de cansaço ou má vontade na face. Ele estava ali porque queria estar. E aquilo aqueceu o coração de Zafira de uma maneira que ela ainda não estava pronta para admitir para si mesma.
— Prontinho — ela anunciou, virando-se para a mesa e colocando a travessa fumegante sobre o descanso de panela.
Cael sorriu por antecipação, passando a língua levemente pelos lábios como se já pudesse sentir o gosto do tempero dela em sua boca.
Ele se serviu e, logo em seguida, serviu o prato de Zafira também. Ele havia gravado em sua mente, com uma precisão quase obsessiva, a quantidade exata que ela costumava comer, e fez questão de servi-la com cuidado, garantindo que ela se alimentasse bem.
A cada pequeno gesto de serviço dele, Zafira sentia-se mais perdida em seus próprios ideais de autossuficiência.
Quando terminaram de jantar, a dinâmica continuou fluida, quase coreografada.
Limparam a cozinha juntos; enquanto um passava o pano no chão para tirar qualquer vestígio do jantar, o outro lavava a louça. Um secava, o outro guardava. Nenhuma tarefa pesou para um só lado, e a simplicidade daquela divisão de fardos trazia a Zafira uma sensação de parceria que ela nunca conhecera.
— Faz faculdade de quê, Zaf? — Cael perguntou, assim que se acomodaram no sofá da sala.
Ele já sabia exatamente cada detalhe da vida dela, seus homens haviam levantado sua ficha completa há tempos, mas ele queria ouvir a melodia da voz dela contando sua própria história. Queria ver o brilho nos olhos dela ao falar de seus planos.
— Administração — ela respondeu, e um sorriso iluminou seu rosto, fazendo-a parecer anos mais jovem. — Quero abrir minha própria confeitaria, por isso escolhi esse curso. Preciso aprender a gerir o negócio para que o meu sonho não quebre na primeira dificuldade.
— Você faz bolos muito bem — Cael comentou, a voz soando como um veludo sombrio. — O que o Miron levou para o presídio outro dia estava excelente. Não era doce demais ao ponto de ser enjoativo. Eu não sabia que um bolo recheado podia ter esse equilíbrio.
Zafira sentiu um orgulho genuíno inflar seu peito.
— O Miron comentou que você não era fã de açúcar em excesso, então fiz o meu melhor para que ficasse suave. Fico feliz que tenha gostado.
Ela se levantou do sofá por um instante e foi até a janela da sala. Abriu-a completamente, suspirando ao sentir o ar parado. A noite estava quente, uma extensão escaldante do dia que parecia derreter o asfalto do morro.
— Por que as janelas dessa casa são tão pequenas? — Cael questionou, observando a estrutura antiga. Ele notou que a casa tinha uma péssima circulação de ar e uma iluminação que deixava a desejar.
— Já reclamei com o dono sobre isso, mas ele se recusa a alargar as aberturas — Zafira explicou, encostando a testa no batente. — Em dias de calor como esse, eu quase derreto aqui dentro. Mas não posso fazer nada... não tenho dinheiro para reformas desse porte, e ele não quer investir no que não vai dar lucro imediato.
Cael assentiu brevemente, capturando aquele detalhe e guardando-o em uma gaveta mental de prioridades. Para ele, era inadmissível que ela sofresse com o desconforto térmico enquanto ele tinha recursos para reconstruir o morro inteiro se quisesse.
— Se importa se eu estudar um pouco agora? — ela perguntou, pegando seu caderno de anotações e se sentando ao lado dele novamente, mantendo uma distância respeitosa.
— Não me importo, Zaf. Pode focar no que precisa. Eu resolvo algumas coisas no celular enquanto você estuda.
Zafira assentiu e mergulhou em suas anotações, lendo mentalmente os conceitos de contabilidade e gestão.
Cael, por sua vez, lutava contra a tentação de ficar apenas observando-a. O jeito como ela franzia a testa quando não entendia algo, ou como mordia levemente a ponta da caneta, era fascinante para ele.
No entanto, ele se deu por vencido e abriu seu aplicativo de mensagens para lidar com a realidade do comando.
Havia dezenas de mensagens de Miron sobre a segurança do perímetro, mas o que realmente chamou sua atenção foram as mensagens de Pablo.
O vapor, que teve a audácia de se envolver com a mulher de outro soldado e acabou mutilado por Santos, agora enviava textos carregados de uma coragem estúpida.
Pablo cobrava que Santos fosse disciplinado pelo que fez, alegando que a punição foi excessiva.
Cael sequer se deu ao trabalho de responder. Para ele, Pablo era um homem morto que apenas esqueceu de cair.
Ele ficou tão imerso na gestão da violência e do poder através da tela do celular que não percebeu o tempo passar.
O silêncio da sala só era quebrado pelo som do ventilador antigo que girava em um canto.
Quando finalmente desviou os olhos do aparelho, percebeu que Zafira havia pegado no sono. O caderno ainda estava aberto em seu colo, mas sua cabeça pendia levemente para o lado.
Cael a observou por alguns minutos. A respiração dela era leve, e o rosto, antes tenso pelas preocupações do dia, agora estava relaxado, embora uma camada visível de exaustão ainda marcasse as olheiras sob seus olhos. Ele sentiu uma onda de ternura tão forte que quase o assustou.
Com uma agilidade silenciosa, ele guardou o celular, levantou-se e a pegou nos braços com uma facilidade impressionante. Zafira apenas murmurou algo incompreensível, aconchegando-se inconscientemente ao calor do peito dele.
Ele a levou até o quarto pequeno, deitou-a na cama com uma delicadeza que ninguém no morro acreditaria que ele possuía e ligou o ventilador próximo à cabeceira para garantir que ela não acordasse com o calor.
Cael ficou em pé ao lado da cama por um breve momento. A penumbra do quarto realçava as curvas do rosto dela e a paz que ela emanava.
O pensamento de passar a noite ali, protegendo o sono dela, cruzou sua mente com força. Mas ele sabia que não deveria. Ainda era cedo demais, e ele não queria que ela acordasse assustada com sua presença invasiva.
Ele saiu da casa, trancando a porta com a chave que ela deixou por perto e certificando-se de que cada tranca estava no lugar.
Enquanto caminhava de volta para sua casa sob o luar, o único pensamento que rondava sua mente era a mudança drástica em sua percepção.
Zafira não era mais apenas um objeto de curiosidade ou uma moça bonita que limpava sua casa. Ela estava se infiltrando em cada fresta de sua mente, tornando-se algo muito mais profundo e perigoso.
Zafira estava se tornando uma obsessão. E Cael sabia, melhor do que ninguém, que ele nunca deixava de obter aquilo que se tornava sua fixação.