Edificando o cuidado.

1476 Words
A madrugada no morro tinha um silêncio peculiar, interrompido apenas pelo latido distante de um cão ou pelo zumbido dos geradores. Dentro da casa de Cael, a atmosfera era de uma seriedade sepulcral. O Espectro estava em seu escritório, as sombras das cortinas pesadas dançando nas paredes conforme a luz de sua mesa oscilava. Ele convocou Santos para comparecer à sua presença com uma urgência que não admitia atrasos. Apesar do horário proibitivo, Santos preferiu não questionar. Ele conhecia Cael há tempo suficiente para saber que, se estava sendo chamado àquela hora, algo de extrema importância havia acontecido. No código de conduta do morro, uma ordem do chefe era um decreto absoluto, independente das circunstâncias ou do cansaço. Santos subiu a ladeira com os sentidos alertas, cruzando os portões da casa com a familiaridade de quem pertence àquele ecossistema de poder. Cael estava sentado em sua cadeira de couro, a silhueta imponente emoldurada pelo brilho fraco do monitor. Santos, César e Miron eram os únicos que gozavam do privilégio de entrar naquela casa sem pedir permissão explícita; tinham o passe livre da lealdade. No mundo violento e volátil em que Cael vivia, ter homens cuja fidelidade era verdadeira e testada pelo tempo era uma raridade preciosa. E Cael, à sua maneira reservada e austera, valorizava esses poucos pilares de confiança acima de qualquer riqueza material. — Andou cometendo erros, Santos? — a pergunta de Cael veio seca, desprovida de qualquer saudação inicial. Ele não encarou o subordinado, mantendo os olhos fixos em alguns relatórios sobre a mesa. Santos sentiu um nó na garganta, mas manteve a postura ereta. Ele sabia exatamente ao que o chefe se referia. A situação com Pablo ainda estava reverberando pelos becos do morro. — Decidi deixá-lo vivo, senhor, mas arranquei o m****o. Achei que isso faria Jamile sofrer muito mais do que uma execução rápida — explicou Santos, sua voz firme, embora carregada da mágoa que ainda sentia. — Pablo anda enviando mensagens para o meu número privado. Algo me diz que ele conseguiu o contato através da sua ex-mulher — Cael disse, finalmente levantando o olhar, e a intensidade de suas íris fez Santos recuar mentalmente. — Resolva isso. Ou eu mesmo vou resolver, e você sabe que não vai querer estar por perto quando eu decidir como farei. A voz grave e pesada de Cael foi o suficiente para encerrar o assunto. Santos apenas assentiu com um acenar firme de cabeça, compreendendo que sua misericórdia anterior agora se tornou um problema administrativo que ele precisava eliminar. — Agora, preciso que faça alguns serviços pessoais para mim, Santos — Cael continuou, mudando o tom para algo mais pragmático, porém igualmente imperativo. Santos pensou em questionar a natureza desses "serviços pessoais", mas desistiu ao perceber que Cael não abria brechas para curiosidades inúteis. Ele apenas esperou, imóvel, enquanto o chefe detalhava a missão. — Preciso que reforme uma casa na rua cinco, na subida do morro. É uma construção pequena, mas está em estado precário. Quero que alarguem as janelas, deixem-nas grandes para que o ar circule. Quero janelas de vidro de boa qualidade para trazer iluminação. E uma pintura nova, algo neutro e limpo, para melhorar o aspecto geral — ordenou Cael, voltando a desviar o olhar, como se estivesse apenas discutindo a logística de um carregamento. Santos processou as informações, confuso com a especificidade do pedido para uma casa tão simples. — Para quando precisa, chefe? — questionou, já calculando o tempo de contratação de pedreiros e materiais. — Amanhã, até o final da tarde — Cael respondeu com uma naturalidade desconcertante. Desta vez, Santos não conseguiu conter a expressão de visível confusão e desespero. Ele encarou o chefe com os olhos arregalados, tentando entender se aquilo era algum tipo de teste de lealdade ou uma impossibilidade física sendo imposta como castigo. — Como vou conseguir reformar janelas, trocar esquadrias e pintar uma casa inteira em menos de doze horas, chefe? — Santos perguntou, a voz beirando o pânico. Uma ordem de Cael era sagrada, mas realizar uma reforma estrutural em poucas horas era um milagre que a engenharia comum desconhecia. Cael finalmente o encarou de frente, e o meio sorriso que surgiu em seu rosto não era de diversão, mas de uma determinação absoluta. — Convoque o máximo de homens que puder. Se precisar de cinquenta homens trabalhando ao mesmo tempo, que assim seja. Use a quantidade de recursos que precisar, compre o melhor material disponível e pague o triplo para quem aceitar o turno. Adicione as janelas de vidro para deixar o ambiente iluminado e acolhedor. Você consegue, certo? Santos engoliu em seco. Ele entendeu que não era um pedido; era uma missão de guerra travestida de reforma residencial. — Sim, senhor. Será feito — respondeu ele, batendo o rádio no peito e saindo da mansão como se nunca tivesse estado ali, já começando a disparar ordens pelos canais de comunicação do morro. No dia seguinte, assim que os primeiros raios de sol começaram a lamber o topo das casas, Santos já estava posicionado estrategicamente em frente à casa de Zafira. Ele esperou, oculto nas sombras, até que ela saísse para o trabalho na casa de Cael. Ele precisava que o campo estivesse livre para a "invasão" pacífica de sua equipe de operários. Zafira, por sua vez, estava intrigada. Na madrugada, havia recebido uma mensagem curta de um número desconhecido, informando que a casa passaria por "reformas rápidas e necessárias" autorizadas pelo proprietário. Como ela odiava a ventilação precária e o mofo das paredes, ela decidiu não questionar a sorte. Acreditou ser uma iniciativa do dono do imóvel, talvez pressionado por alguma fiscalização ou apenas um surto repentino de consciência. Ela saiu de casa normalmente, sentindo uma leve brisa de esperança, e seguiu sua rotina na casa de Cael. Assim que ela dobrou a esquina, o caos organizado começou. Santos mobilizou uma pequena frota de caminhonetes carregadas de tintas, vidros e ferramentas. Ele coordenou os homens com a precisão de um sargento. Enquanto uns quebravam as paredes para alargar os vãos das janelas, outros preparavam a massa corrida e a pintura. Foi um esforço hercúleo. O barulho de britadeiras e o cheiro de tinta fresca tomaram conta da rua cinco durante todo o dia. Santos acompanhou cada detalhe, enviando atualizações constantes para Cael, garantindo que o acabamento fosse impecável. Ao final da tarde, como por milagre, o serviço estava pronto. As janelas antigas e minúsculas haviam sido substituídas por grandes painéis de vidro que permitiam que a luz do entardecer inundasse a sala. As paredes, antes manchadas por infiltrações e mofo, agora exibiam um tom de areia suave, limpo e vibrante. Santos tirou algumas fotos do resultado final e enviou para o aplicativo de mensagens de Cael. As fotos foram visualizadas quase instantaneamente, mas Cael não respondeu. Santos não precisava de palavras; o silêncio do chefe era o selo de aprovação mais alto que ele poderia receber. A noite caiu sobre o morro, e Zafira retornava da faculdade. Seu corpo pesava, as pernas doíam pela subida longa, e tudo o que ela desejava era o conforto de sua cama. Quando parou em frente ao seu portão, ela travou. O cheiro de tinta fresca atingiu seu olfato antes mesmo que seus olhos processassem a mudança. Ao abrir a porta da sala, Zafira deixou sua mochila cair no chão. Ela sorriu de forma realizada, as lágrimas começando a embaçar sua visão. As janelas, que antes eram pequenos buracos que a faziam sentir-se sufocada, agora eram portais de luz e ventilação. O ambiente parecia ter dobrado de tamanho, tornando-se acolhedor e vibrante. A tinta neutra dava um ar de sofisticação e limpeza que ela nunca pensou que veria em sua própria moradia. O mofo foi derrotado, e a sensação de "derretimento" pelo calor fora substituída por uma brisa suave que agora circulava livremente. Silenciosamente, Zafira olhou para o teto e agradeceu. Ela não tinha ideia de quem era o dono da casa no papel, Cael havia comprado o imóvel secretamente do proprietário anterior na madrugada, por um valor que o homem não ousaria recusar. Zafira apenas sentia uma gratidão profunda por aquele "milagre" arquitetônico. O que ela não sabia, enquanto passava a mão pelas paredes lisas e admirava o reflexo do luar nos novos vidros, era que cada pincelada e cada centímetro de vidro eram reflexos do cuidado que Cael deixava crescer dentro de sua alma. Ele se recusava a contar a verdade por enquanto, preferindo observar de longe a felicidade dela. Cael, o homem que destruía impérios com uma palavra, havia descoberto que construir um lar para a mulher que amava era, de longe, o seu ato de poder mais satisfatório. Ele não queria apenas possuí-la; ele queria que ela respirasse melhor, mesmo que ela nunca soubesse que era ele quem segurava o mundo para que ela pudesse descansar.
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