Sob o domínio da tempestade.

1638 Words
Zafira observou o céu cinzento através das janelas da faculdade, sentindo um calafrio percorrer sua espinha. Nuvens carregadas e pesadas se amontoavam como montanhas de chumbo, e logo as primeiras gotas de chuva começaram a cair, anunciando uma tempestade impetuosa. Era como se os céus soubessem exatamente o que estava por vir; naquele dia, em um de seus habituais surtos de azar, ela não tinha levado nenhum guarda-chuva. O vento começou a soprar com mais força, uivando entre os prédios e carregando o cheiro de asfalto molhado. Sem muita escolha, ela correu até o ponto de ônibus, tentando se proteger com a mochila que trazia acima da cabeça. No trajeto até o transporte, ela não tinha se molhado tanto, mas o presságio de que as coisas iriam piorar era evidente. O vidro do ônibus embaçava rapidamente enquanto ela observava a torrente de água castigar as ruas. Se a chuva continuasse naquele ritmo quando ela subisse o morro para ir para casa, iria se encharcar por completo, e Zafira detestava a sensação de vulnerabilidade que o frio trazia. Quando desceu do ônibus no ponto habitual, na entrada da comunidade, percebeu que a chuva não tinha cessado; pelo contrário, tinha ficado ainda pior. O mundo parecia ter se transformado em uma cortina d’água opaca. Sem ter o que fazer e sem querer esperar por uma trégua que não parecia vir, Zafira subiu o morro correndo. Seus pés batiam nas poças que se formavam nas ruelas íngremes, e a mochila já não servia de nada contra a fúria da tempestade. A energia que ela gastou foi tanta que chegou ao portão de sua casa em poucos minutos, ofegante e tremendo de frio. Entretanto, o verdadeiro desespero a atingiu no momento em que abriu a bolsa. Ela revirou cada canto, cada bolso interno, mas a chave de sua casa não estava ali. Ela suspirou, sentindo uma exaustão que ia além do físico. — m***a, onde está essa chave? — perguntava a si mesma, a voz quase sumindo sob o barulho do temporal. Com um lampejo de memória, a verdade a atingiu como um soco. Naquele dia, ela tinha levado sua roupa para se trocar na casa de Cael antes de ir direto para a faculdade. No momento em que trocou de roupa no quarto de hóspedes, a chave tinha caído acidentalmente de seu bolso, e na pressa para não perder o horário, ela tinha esquecido de pegá-la. A chave tinha ficado na casa dele. — d***a, eu não acredito nisso — Zafira bufou de raiva, sentindo a água gelada escorrer por seu pescoço. Não havia outra opção. Ela precisou correr por mais algumas ruas em direção à mansão de Cael. Usou todo o resto de sua energia para vencer a ladeira, lutando contra o vento que soprava contra seu corpo. Quando finalmente cruzou os portões da casa dele, ela entrou sem cerimônia, parando imediatamente em cima do tapete de entrada que ela mesma tinha colocado na sala semanas antes. Sua roupa estava completamente grudada ao corpo; ela tinha tomado um verdadeiro banho de chuva, e seus lábios estavam levemente arroxeados pelo choque térmico. Cael estava na sala, mergulhado em alguns documentos, mas se levantou do sofá no exato momento em que viu Zafira abrir a porta. Ele parou diante dela, os olhos percorrendo a figura encharcada e trêmula à sua frente. — Zafira, o que houve? — Ele se aproximou bruscamente, a preocupação gravada em cada linha de seu rosto severo. — Esqueci minha chave... — ela falou, mantendo-se imóvel no tapete para não molhar o resto da sala. — Eu deixei cair aqui quando me troquei mais cedo. Pode pegar para mim? Eu já vou embora, não quero molhar o seu chão. Ela percebeu o olhar dele mudar. Não era apenas preocupação; era algo mais denso, um instinto de p******o que beirava a possessividade. Cael ignorou o comentário dela sobre o chão. — Espere aqui e não saia até que eu volte — ele ordenou, a voz firme e sem espaço para contestações. Cael saiu da sala com passos largos. Ele passou em seu próprio quarto, pegou uma toalha de banho grossa e macia, uma camiseta preta de algodão que ele costumava usar e levou até a sala. Ele entregou o conjunto a Zafira, seus dedos roçando levemente nos dela, que estavam gelados. — Vá tomar banho. Vou preparar um chocolate quente para você — Cael falou, olhando para ela com uma atenção que a fazia se sentir nua mesmo estando coberta de roupas molhadas. — Eu vou molhar a casa inteira, Cael. Estou encharcada, não vou entrar assim e sujar tudo — ela protestou, tentando manter sua barreira de independência erguida. Ele pensou por apenas dois segundos. Sem pedir permissão, Cael a ergueu em seu colo com uma facilidade assustadora, como se ela não pesasse absolutamente nada. Zafira soltou um arquejo de surpresa, suas mãos buscando apoio nos ombros largos e quentes dele. Ele caminhou em direção ao banheiro social com passos decididos. — Problema resolvido. Tome seu banho e se aqueça. Vou preparar o chocolate — ele disse, colocando-a cuidadosamente no chão do banheiro. Zafira pensou em protestar, em dizer que podia andar sozinha ou que não precisava de tanto cuidado, mas sua garganta não emitiu um único som. O calor que emanava do corpo de Cael tinha deixado rastro em sua pele, e seu coração disparou contra o peito. Ela simplesmente aceitou a derrota silenciosa e entrou no chuveiro, deixando a água quente lavar o cansaço e a frieza do dia. Na cozinha, Cael preparava o chocolate quente com uma agilidade que Zafira não esperava dele. Ele era um homem de muitas facetas; não era apenas bom com armas, ataques ou estratégias de poder. Ele tinha suas cartas na manga e, naquele momento, sua única missão era garantir que ela se sentisse segura e aquecida. Ele colocou o leite para ferver, adicionou o cacau puro e uma pitada de canela, seus movimentos eram precisos e focados. Minutos depois, Zafira saiu do banheiro hesitante. Ela usava a camiseta de Cael, que ficava enorme nela, batendo no meio de suas coxas e exalando o perfume amadeirado e marcante dele. Seus passos eram leves, como se ela não quisesse ser ouvida, mas Cael já a esperava no sofá da sala. Ele tinha uma caneca fumegante em mãos. — Tome um pouco, vai ajudar com o frio que ainda sente — ele disse, indicando o lugar ao seu lado. Ela assentiu, ainda sem dizer uma única palavra. O silêncio na casa era quebrado apenas pelo som impiedoso da tempestade lá fora, que parecia desabar o mundo em água. Zafira tomou um gole do chocolate e relaxou instantaneamente; o sabor era rico e reconfortante. Ela sabia que, mesmo se quisesse, não poderia ir para casa naquele estado. As ruas do morro deviam estar transformadas em rios. — Eu teria ido te buscar na barreira se você tivesse me avisado, Zaf — Cael falou, observando a chuva através das grandes janelas de vidro. — Não queria incomodar. Eu não sabia que a chuva seria tão forte assim — ela deu a mesma desculpa de sempre. Era seu mecanismo de defesa: não ser um peso para ninguém. Mas as desculpas que ela tinha usado a vida inteira para afastar as pessoas não funcionavam com Cael. Ele se virou para ela, diminuindo a distância entre os dois no sofá. A iluminação baixa da sala criava sombras que destacavam os ângulos de seu rosto e a intensidade de seu olhar. — Você nunca incomoda, Zafira. É sempre um prazer imenso cuidar de você, te dar conforto e segurança. Não precisa hesitar em me chamar sempre que precisar. Eu vou até você, não importa o que aconteça, não importa o lugar — ele falou, olhando profundamente nos olhos dela, prendendo-a em sua órbita. Zafira sentiu a respiração falhar. A proximidade dele era elétrica, e a camiseta que ela usava parecia queimar sua pele com a lembrança de que pertencia a ele. — E por que você faria tanto esforço por mim? — ela questionou, fazendo a pergunta que estava atormentando seus pensamentos há dias. — Por que eu, Cael? Ele inclinou o corpo, o braço apoiado no encosto do sofá, cercando-a. — Porque estou obcecado por você, Zaf. Talvez seja amor, mas eu sou podre demais para sentir algo tão puro sem ter um sentimento obscuro por trás. Eu estou tão fisgado em você que não suporto mais a ideia de saber que você teve um dia cansativo longe dos meus olhos. As horas sem você se tornam anos longos e vazios. E mesmo que você tente fugir disso, eu vou até o fim... porque eu quero você. Só você. A confissão crua e possessiva atingiu Zafira com a força de um impacto. Ela nunca tinha ouvido algo tão intenso e, ao mesmo tempo, tão perigoso. O coração dela martelava contra as costelas, uma mistura de medo e um desejo avassalador que ela tinha tentado negar por semanas. Zafira levou a caneca aos lábios para tentar esconder sua reação, mas a mão tremeu. No momento daquela revelação devastadora, ela se engasgou levemente com o líquido quente. Algumas gotas de chocolate escaparam de sua boca e respingaram diretamente no abdômen de Cael, que estava sem camisa. O líquido escuro escorreu lentamente sobre a pele bronzeada e definida dele, criando um rastro de calor que fez o ar entre os dois se tornar escasso e eletrizante. O tempo pareceu parar. O olhar de Cael desceu para as gotas em seu próprio peito e depois voltou para os lábios de Zafira, carregado de uma intenção que não precisava de palavras para ser explicada. A tensão na sala atingiu o ponto de ruptura, e a tempestade lá fora era apenas um sussurro comparada ao desejo que estava prestes a explodir entre eles.
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