Desalinho e desejo.

1637 Words
Zafira estava aproveitando sua casa ao máximo, experimentando uma sensação de dignidade que há muito lhe foi negada. Agora que tudo havia sido reformado sob uma batuta invisível, ela vivia em uma tranquilidade inédita. O silêncio da casa era preenchido apenas pelo som suave do vento circulando pelas novas janelas de vidro, sem a campainha constante do calor sufocante que antes insistia em atormentar seus dias e drenar suas energias. Era, em todos os sentidos, um recomeço físico, mas sua mente, sempre analítica e cautelosa, não conseguia simplesmente aceitar o presente sem questionar a origem da embalagem. Ela se lembrava muito bem do antigo proprietário. Era um homem ranzinza, cujas mãos pareciam fechadas para qualquer investimento que não fosse o lucro imediato. Na última vez que Zafira ousou mencionar as infiltrações e a ventilação precária, ele não apenas negou o conserto, como a ameaçou. Disse, com um tom de voz áspero, que se ela não estivesse satisfeita, poderia desocupar o imóvel para que ele o alugasse para outra pessoa por um valor maior. Como o aluguel ali era um dos raros que cabiam em seu orçamento apertado, Zafira engoliu o orgulho e o desconforto, desistindo de qualquer reforma porque sabia que não conseguiria arcar com uma mudança. Decidida a descobrir o que estava acontecendo e quem era o benfeitor misterioso por trás daquelas paredes agora impecáveis, ela saiu de casa decidida. Caminhou com passos firmes até o pequeno restaurante que o antigo dono mantinha na parte baixa da comunidade. Encontrou-o exatamente onde esperava: atrás de um balcão engordurado, anotando pedidos em um caderno velho e manchado de café. — O que foi desta vez, menina? — o homem resmungou antes mesmo que ela dissesse "bom dia". — Eu não sou mais o dono daquela casa, pode parar de me atormentar para reformar parede ou trocar telha. Procure o novo proprietário agora e me deixe em paz. Zafira sentiu o chão oscilar sob seus pés. A confirmação veio como um golpe seco. — Para quem o senhor vendeu a casa? — ela perguntou, a voz trêmula, mas insistente. — Juro que vou parar de incomodar assim que me disser quem comprou. O homem suspirou, visivelmente cansado das perguntas dela, e largou a caneta sobre o balcão. — O Espectro comprou. Recebi uma ligação há dois dias, na madrugada. Pensei que fosse golpe, algum moleque brincando, mas assim que a ligação encerrou, o dinheiro caiu na conta. Ele pagou um valor alto, muito além do que aquele buraco vale. Não entendi nada no começo, mas o dinheiro é real, então agora a dor de cabeça é dele. Pode ir lá bater na porta da mansão se tiver alguma queixa. Zafira saiu do restaurante atordoada. O nome "Espectro" ecoava em sua mente como um trovão. Ela sabia, no fundo do seu coração, que Cael estava por trás de tudo, mas ouvir a confirmação de que ele agora era legalmente o dono do teto sob o qual ela dormia causava uma mistura perigosa de gratidão e pânico. Sentia-se em dívida, e dívidas com homens como ele costumavam ser pagas com moedas que ela não tinha certeza se queria entregar. Sem conseguir processar a descoberta em silêncio, ela seguiu diretamente para a mansão. Sua mente era um turbilhão de perguntas: Por que ele faria algo assim? O que ele esperava em troca? Como tinha a chave que ele mesmo lhe entregou para as faxinas, Zafira não tocou a campainha. Estava impulsionada por uma urgência nervosa que a fez girar a chave na fechadura e entrar na casa sem o costumeiro alarde. Foi o erro mais perturbador e revelador de sua vida. Ao fechar a porta atrás de si, o ar pareceu desaparecer de seus pulmões. A mansão estava silenciosa, banhada pela luz suave da tarde, mas a visão que a aguardava na cozinha, que era integrada à sala por um balcão baixo, fez suas pernas fraquejarem. Cael estava ali, de costas para ela, servindo-se de água. Mas não era o Cael imponente de roupas escuras ou camisas largas. Ele estava quase inteiramente nu, vestindo apenas uma cueca de algodão escuro que se ajustava perfeitamente à sua estrutura física poderosa. A visão era avassaladora. Zafira nunca viu tanta pele masculina de uma só vez, e a pele de Cael era um mapa de força e marcas. As costas eram largas, os músculos dos ombros e braços definiam-se a cada movimento simples de elevar o copo, e as pernas eram longas e musculosas, sustentando o corpo com uma presença animal. Ele percebeu a presença dela antes mesmo de Zafira conseguir emitir um som. Ele se virou lentamente, sem qualquer sinal de pressa ou constrangimento. Cael não era o tipo de homem que se envergonhava em sua própria casa. Ele sustentou o olhar dela com uma diversão sombria, notando como as bochechas de Zafira atingiam um tom de carmesim profundo. A tensão s****l no ambiente tornou-se um fio esticado, vibrando entre a inocência dela e a experiência predatória dele. — Perdão... eu... eu não sabia que estaria... sem roupa — Zafira gaguejou, desviando os olhos com uma violência súbita, fixando-os em um ponto qualquer da parede, embora a imagem do abdômen definido e das linhas baixas de seu corpo ainda estivessem queimadas em sua retina. — Tudo bem, Zafira. A casa é minha, mas você tem a chave — ele respondeu, sua voz soando mais rouca do que o habitual, carregada de uma satisfação silenciosa por tê-la ali, vulnerável. — Aconteceu algo? Você parece... bem vermelha. Ele sabia exatamente o porquê. Ele se deleitava com a reação dela, sentindo uma chama de desejo subir por seu próprio corpo ao ver o quanto sua presença física a afetava. — Eu só queria conversar com você. Algo urgente — ela falou rápido demais, as palavras atropelando-se enquanto ela tentava recuperar a compostura, ignorando o fato de que seu coração batia como um tambor de guerra. — Estou ouvindo — ele disse, dando um passo em direção ao balcão, aproximando-se perigosamente da linha que os separava. — Poderia vestir uma roupa mais adequada, pelo menos? — ela pediu, quase em um sussurro implorante. Cael soltou um riso baixo, um som gutural que fez os pelos do braço de Zafira se arrepiarem. Ele achava adorável a tentativa dela de manter o profissionalismo em meio ao caos sensorial. — Se isso te deixa mais confortável — ele murmurou, subindo as escadas sem qualquer pressa, exibindo a musculatura das costas uma última vez antes de desaparecer no segundo andar. Minutos depois, ele voltou vestindo apenas uma bermuda leve. Ele continuava sem camisa, exibindo o peitoral largo e a cicatriz no olho que parecia dar a ele um ar ainda mais perigoso sob a luz do fim de tarde. Zafira já havia se acostumado a vê-lo sem camisa, mas após a visão da cozinha, aquele abdômen definido parecia um convite proibido que causava um incômodo ardente em seu baixo ventre. — Por que comprou a casa do proprietário? — Zafira disparou a pergunta antes mesmo que ele pudesse se sentar no sofá ao lado dela. Cael acomodou-se com uma elegância letal, observando-a com atenção total. — Sabia que não iria demorar para descobrir, mas você foi mais rápida do que eu imaginava — ele admitiu, inclinando o corpo para a frente. — Comprei por sua causa, Zafira. — Por mim? — ela franziu as sobrancelhas, a confusão lutando contra a sensação de ser o centro das atenções de um homem como ele. — Cael, isso é loucura. É uma casa velha, um investimento ruim... — Aquele homem não teria dinheiro para a reforma, e eu não suportava a ideia de você vivendo m*l — ele a interrompeu, a voz suave mas carregada de uma possessividade latente. — Eu fui lá, comprei o imóvel e mandei reformar para você. Só quis cuidar de você um pouco. Você merece respirar em um lugar que não te sufoque. Aquela foi a primeira vez que Zafira recebeu uma confissão como aquela. Em toda a sua vida, ela fora a cuidadora, a que resolvia problemas, a que sobrevivia sozinha às migalhas de atenção que recebia. Ninguém nunca moveu um dedo para lhe proporcionar conforto sem pedir algo degradante em troca. Ouvir que Cael fez tudo aquilo apenas para vê-la bem tocou em uma ferida de insuficiência que ela carregava desde a infância. No fundo, ela havia gostado. O sentimento de ser protegida era inebriante, mas o medo de não ser digna daquilo era maior. — Você não deveria... eu não sou ninguém importante para você gastar tanto dinheiro — ela murmurou, desviando o olhar. Cael estendeu a mão, mas não a tocou, mantendo os dedos a centímetros do rosto dela, deixando que ela sentisse o calor de sua pele. — Você não faz ideia do quanto é importante para mim, Zafira. Ela não teve brechas para discutir ou recusar. Sentindo-se sobrecarregada por sentimentos que não sabia nomear, ela se despediu e voltou para casa. Passou a noite inteira em claro, sentada diante das novas janelas grandes, observando as luzes do morro. Sua mente era uma confusão de desejo e negação. Em seus olhos, ela era apenas uma moça comum, cheia de falhas e cicatrizes internas, indigna de um cuidado tão extremo de um homem que tinha o mundo aos seus pés. O que Zafira ainda não entendia era que, para Cael, ela era a única coisa pura em seu universo de sombras. Ele estava disposto a mover montanhas e cruzar qualquer linha ética para provar a ela que ela era digna de tudo o que havia de melhor no universo. E o desejo que brilhava em seus olhos enquanto a via partir era apenas o começo de uma obsessão que não aceitaria nada menos do que a entrega total da mulher que ele agora chamava de sua.
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