Santos caminhava em direção à casa que um dia chamou de lar, mas que agora era apenas um receptáculo de memórias amargas e cheiro de mofo.
Aquele ambiente era algo que ele odiava simplesmente pensar; cada passo dado naquelas ruas estreitas parecia despertar fantasmas que ele preferia manter enterrados.
No entanto, uma ordem de Cael não era algo que se questionasse. Espectro pediu para que o assunto fosse resolvido, e Santos, fiel como um cão de guarda, não deixaria pontas soltas. A fúria silenciosa que ele carregava no peito era o combustível necessário para o que estava por vir.
Ao chegar à porta, ele não bateu. Abriu-a com uma brutalidade crua, o estrondo da madeira batendo contra a parede anunciando sua chegada como um trovão.
Jamile estava ali, deitada no sofá com uma indolência que beirava o insulto. Pablo, o homem que ousou destruir o pouco de paz que Santos possuía, estava debruçado sobre ela, acariciando a região entre suas pernas.
A cena era tão grotesca, tão previsível na sua baixeza, que fez Santos soltar uma gargalhada alta e seca, um som que não carregava alegria, mas um escárnio mortal.
— Eu devia saber que só arrancar o seu m****o não resolveria o problema — a voz de Santos cortou o ar como um chicote. — Uma v***a como ela sempre vai conseguir uma forma de se saciar, certo?
Pablo e Jamile saltaram, os rostos pálidos como cera. Santos puxou uma cadeira de madeira da cozinha, arrastando-a pelo chão com um ruído estridente, e sentou-se bem no meio da sala.
Ele os encarava com um olhar sombrio, o tipo de olhar predatório que fazia um arrepio gélido percorrer a espinha de qualquer um que estivesse na sua mira. Era o olhar de um homem que já havia decidido o destino de suas presas.
— Continuem, não vim atrapalhar — ele disse, a voz num tom perigosamente calmo. — Precisa aproveitar seu último momento de desejo, Pablo.
Ele permaneceu imóvel, os braços cruzados, observando o tremor violento que tomou conta do corpo de Pablo. Jamile, tentando recuperar uma dignidade que não mais possuía, levantou-se parcialmente, cobrindo o corpo com uma manta.
— Chega, Santos! — ela gritou, a voz embargada pelo medo. — Você já destruiu nossa vida, já te pedi perdão pelo que fiz. Já não é o suficiente?
— Teria sido suficiente se você não tivesse sido burra o bastante para conseguir o número privado do Espectro para ele — Santos rebateu, os olhos faiscando. — Agora o homem está furioso porque recebeu mensagens desse seu merdinha. E quando o chefe fica irritado, eu preciso limpar a sujeira. Acho melhor não deixar pontas soltas que possam feder depois.
Pablo, percebendo que a sentença de morte havia sido proferida, escorregou do sofá e caiu de joelhos no chão.
As lágrimas lavavam seu rosto enquanto ele se arrastava até os pés de Santos, implorando por uma misericórdia que não existia naquele mundo.
— Poupe a minha vida, por favor! — Pablo soluçava, segurando-se nos sapatos de Santos. — Eu juro que sumo, você nunca mais vai ouvir falar de mim, eu desapareço deste morro agora mesmo! Só me deixe viver!
Santos observou a cena com um nojo profundo. Como Jamile pôde trocá-lo por algo tão patético?
— É uma pena que você viva no nosso mundo, Pablo — ele murmurou, sacando uma faca de lâmina longa e terrivelmente afiada, a mesma que usou para m*****r o homem dias antes. — Talvez se estivéssemos em uma realidade diferente, você pudesse ser poupado. Mas aqui, a traição é uma dívida que só se paga com sangue.
O movimento foi rápido, preciso e desprovido de qualquer hesitação. Santos segurou o cabelo de Pablo e, com um único golpe fluído, passou a lâmina no pescoço do traidor.
O som do corte foi seguido pelo silêncio súbito de Pablo, que caiu para trás, os olhos arregalados enquanto tentava, em vão, estancar o jato de sangue que jorrava de sua jugular. O carpete antigo começou a escurecer sob o fluido quente.
Jamile encolheu-se no canto do sofá, gritando por um socorro que jamais viria.
No morro, todos sabiam que aquela era uma execução por honra, e ninguém ousaria intervir contra o braço direito do Espectro.
Santos levantou-se, limpando a faca na manta que Jamile usava. Seu rosto estava levemente manchado por respingos de sangue, e ele sentiu um alívio estranho, como se o ar daquela sala finalmente estivesse ficando menos denso com a morte de Pablo.
— Foi isso o que você procurou todo esse tempo — Santos disse, encarando Jamile com desprezo. — Eu te mataria agora mesmo se pudesse, mas o seu castigo vai ser pior. Você mesma vai se consumir, porque não vai suportar a dor de ter causado a morte do homem que você disse amar por causa da sua ganância.
Ele saiu da casa sem olhar para trás, deixando o som dos gritos desesperados dela ecoando no corredor.
Andou lentamente pelas ruas escuras da comunidade, a mente vazia de culpa, mas cheia de uma amargura que não desaparecia.
Ninguém ousou cruzar seu caminho; os moradores desviavam o olhar, sentindo a aura de morte que ele exalava.
No entanto, em um beco mais afastado, uma figura não se intimidou. Ravena surgiu das sombras, barrando sua passagem. Seus olhos se arregalaram ao notar as manchas de sangue na pele dele.
— Parece que eu tenho o azar de sempre te encontrar quando você está vindo de um banho de sangue — ela disse, a voz suave, mas carregada de preocupação. Antes que ele pudesse protestar, ela segurou seu braço, analisando cada centímetro em busca de ferimentos. — Você está machucado, Santos?
— Qual é, mina? — Santos bufou, tentando puxar o braço, embora não fizesse força suficiente para realmente soltá-lo. — Eu te mando ficar longe e tu chega mais perto. O que você quer de mim, afinal?
Ravena não soltou. Ela apertou o braço dele, os dedos pequenos contrastando com a força bruta dele.
— Eu nunca concordei em ficar longe, e você sabe que isso nem seria possível. Você o matou, não foi? — A pergunta fez o clima pesar. Santos sentiu um nó estranho no peito ao perceber que ela o via naquele estado deplorável.
— Por que se importa com ele? — foi a única defesa que ele encontrou.
— Eu não me importo com ele, Santos! — Ravena exclamou, os olhos brilhando com uma intensidade que o desarmou. — Estou preocupada com você. Foi você quem foi traído. Você fez de tudo para ser amado por aquela mulher e ela te apunhalou pelas costas da pior forma possível. Mas você nem parece se importar com a sua própria dor, porque está ocupado demais tentando se vingar.
Santos desviou o olhar, sentindo a traição queimar em sua alma como um ferro em brasa.
— É isso mesmo. Eu fiz tudo. Eu dei tudo o que eu tinha pra ser amado e o que eu recebi em troca? Sangue e humilhação.
Ravena deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles. A luz fraca do poste revelava a sinceridade em seu rosto.
— Você vai perceber, em breve, que com a pessoa certa você não precisa se esforçar para ser amado. A pessoa certa vai amar você exatamente como você é, com as suas marcas e sua história. Ela vai valorizar cada cuidado e cada gesto seu, sem exigir nada em troca. Só não feche o seu coração por causa de quem não vale nada, Santos. Ainda tem gente esperando uma única chance de chegar perto de você.
O silêncio que se seguiu foi denso. Santos não respondeu, mas sentiu as palavras dela perfurarem sua armadura.
Ravena soltou o braço dele e saiu dali sem dizer mais nada, deixando apenas o perfume de sua presença no ar gélido do beco.
Ele ficou parado por um longo tempo, observando-a desaparecer na escuridão. Pela primeira vez em meses, o peso da traição de Jamile pareceu um pouco mais leve.
Ravena o conhecia de uma forma que ele nem mesmo conhecia a si próprio, e no fundo de seu coração endurecido pelo crime, ele sentiu um lampejo de algo que não sentia há muito tempo: esperança.