Demônio favorito.

1508 Words
Quando terminaram de tomar o café da manhã em um silêncio que agora parecia preenchido por uma compreensão mútua, Zafira começou sua rotina de organização. Com movimentos ágeis, ela tirou a mesa, empilhando os pratos e xícaras com o cuidado de quem respeita cada objeto daquela casa. Enquanto ela caminhava da mesa para a cozinha, carregando o que restara da refeição, algo inesperado aconteceu. Cael, o homem que comandava o destino de milhares de pessoas com um aceno de cabeça, posicionou-se em frente à pia de mármore, abriu a torneira e simplesmente começou a lavar os pratos. Zafira estancou no meio do caminho, sentindo um choque genuíno percorrer seu corpo. O terrível dono do morro, Espectro que habitava os pesadelos dos inimigos, estava ali, com as mãos grandes mergulhadas na espuma de sabão, lavando a louça do café. O contraste era surreal demais para ser processado de imediato. Ela não havia pedido por aquilo; na verdade, nunca esperaria que um homem em sua posição sequer soubesse onde ficava o detergente. — Não precisa fazer isso... Lavar os pratos faz parte do meu trabalho — ela tentou argumentar, buscando a voz mais racional que conseguiu encontrar em meio à confusão mental. Cael não parou o que estava fazendo. Ele ensaboava uma das xícaras com uma calma que parecia indicar que ele já fizera aquilo muitas vezes antes de se tornar quem era. — Eu também sujei, Zaf. Posso lavar também — ele respondeu, sua voz soando profunda e casual. Zaf. O apelido ecoou na mente dela como uma nota musical perfeita. Ninguém nunca havia usado aquela abreviação antes; para o mundo, ela era Zafira, a moça esforçada, a ex-funcionária de muitos lugares. Mas saindo dos lábios de Cael, o apelido ganhou uma textura de i********e que a fez estremecer. Estranhamente, ela gostou da forma como o nome pareceu deslizar pela voz dele, como se fosse um segredo compartilhado entre os dois. Sem mais questionamentos, pois percebeu que Cael não aceitaria sua recusa, ela seguiu para a lavanderia. O coração ainda batia em um ritmo acelerado enquanto ela colocava as roupas sujas na máquina. Zafira aproveitou para organizar aquele espaço pequeno e funcional, removendo a poeira que não tivera tempo de limpar no último dia de faxina. Ela sentia que cada canto daquela casa agora merecia sua atenção total, não apenas por dinheiro, mas por causa do homem que estava no cômodo ao lado. Enquanto isso, na cozinha, Cael lutava contra seus próprios instintos. Ele desejava, com cada fibra do seu ser, largar tudo e ficar colado a ela, observando cada movimento seu, o jeito como ela prendia o cabelo ou como se concentrava nas tarefas. Mas ele se forçou a recuar. Não queria que Zafira se sentisse encurralada ou vigiada de forma predatória. Ele estava tentando se controlar, tentando ser o homem que ela via e não o monstro que ele acreditava ser. Assim que terminou de lavar, secar e guardar cada peça da louça, ele seguiu para o escritório, deixando o campo livre para ela . Zafira trabalhou com um vigor renovado. Passou o aspirador em cada fresta, passou pano em todos os cômodos até que o chão refletisse a luz, e finalmente entrou no santuário que era o quarto de Cael. Ela organizou o ambiente com respeito, juntando as garrafas de bebidas que estavam espalhadas pelo chão, vestígios da noite longa e solitária que ele tivera, e logo depois seguiu para a cozinha para preparar o almoço. Como sempre, ela optou pelo simples e bem feito. Sabia preparar pratos elaborados, fruto de seu tempo como garçonete e seus estudos, mas percebera que Cael valorizava apenas a essência: o sabor caseiro e o tempero que trazia conforto. No entanto, quando foi até o escritório para chamá-lo para comer, seus passos travaram. Ela ouviu a voz de Cael vindo de dentro, áspera e alta, gritando com alguém no celular. A fúria no tom dele era palpável, um lembrete de que ele ainda era o dono do morro. Desistiu antes mesmo de tocar na porta. Zafira deixou tudo organizado na mesa, cobriu os alimentos e saiu logo em seguida. Queria esperá-lo, queria ver seu sorriso novamente, mas a realidade de sua vida a chamava. Ela precisava ir para casa e se organizar para a faculdade de administração mais tarde. No caminho de volta, o destino resolveu apresentar outras faces do caos. Antes de ir para sua residência, Zafira passou em frente ao mercadinho onde trabalhara antes de ser demitida injustamente. Enquanto passava pelo pequeno restaurante que servia de ponto de encontro no morro, ela viu a multidão se aglomerando. Uma confusão estava sendo iniciada, e o centro dela era Jamile. — Sua v*******a! Eu vou m***r você! Tudo isso foi culpa sua! — Jamile gritava, completamente fora de controle, o rosto vermelho de ódio. Ravena, no entanto, não recuou um centímetro. Ela permanecia parada, a postura ereta, encarando a fúria de Jamile com o desdém de quem conhece a verdade. — Não fui eu que sentei para um m***a como o Pablo, Jamile. Você o traiu, esperava o quê? Um prêmio por ser infiel? — Ravena disparou, sua voz cortante como navalha. — A única v*******a aqui é você. Sonsa, manipuladora... a pior v***a que existe neste morro. — Eu vou m***r você, sua desgraçada! — Jamile berrou, sacando uma faca pequena de dentro da roupa e partindo para cima de Ravena com a intenção clara de ferir, ou pior. Ravena se preparou para o impacto, seus músculos tensos, mas o ataque nunca chegou a atingi-la. Antes que a lâmina pudesse cortar o ar, uma mão firme e poderosa interceptou o braço de Jamile no meio do caminho. Com uma agilidade bruta, Santos surgiu entre as duas, segurando o pulso de Jamile com tanta força que os ossos pareceram ranger. Com um movimento seco, ele jogou a faca para longe, fazendo o metal tilintar contra o asfalto. O olhar de Santos era puramente letal. Ele estava ali, o corpo emanando uma aura de morte, controlando-se para não esmagar o braço da mulher que um dia ele acreditara amar. — O que p***a você pensa que está fazendo, sua v***a? — ele rosnou. Jamile perdeu a voz instantaneamente. O terror substituiu o ódio em seus olhos. — Fica longe de causar problemas aqui — continuou Santos, sua voz saindo baixa e perigosa. — Eu não posso tocar em você, as regras do morro não permitem. Mas outra mulher pode. Outra mulher pode acabar com a sua vida e eu não moverei um dedo. Não teste meu limite. Eu fui misericordioso deixando aquele o****o vivo. Está achando r**m que ele está sem um p*u agora? O escárnio na voz de Santos fez Jamile tremer. Ela tentou uma última cartada, buscando a manipulação que sempre funcionara. — Essa vagabunda... ela é a culpada, Santos! — Jamile apontou para Ravena com o braço livre. — Foi ela quem jogou o Pablo para cima de mim! Ela armou tudo! Eu nunca faria isso com você... Ela tem inveja! Dá para ver pela cicatriz h******l no rosto dela... Essa desgraçada sente raiva por ser tão f**a e me inveja por ter tido você! A ofensa à aparência de Ravena foi o estopim. Santos soltou o braço de Jamile com um empurrão que a fez cair sentada no chão, de forma humilhante. Ele limpou as mãos na própria roupa, um gesto deliberado de repulsa, como se tivesse tocado em algo podre. — f**a é você, sua sonsa. Tanto na alma quanto por fora. Você é podre, Jamile. Tenho nojo só de lembrar que um dia já gostei de você — ele declarou, as palavras saindo carregadas de um desprezo final e absoluto. Sem esperar por uma resposta, sem dar a Jamile a satisfação de mais um olhar, Santos girou e agarrou o braço de Ravena. Ele começou a andar pelas ruas com uma firmeza que não admitia contestação, arrastando-a consigo para longe do tumulto. Santos nem sabia exatamente o que estava fazendo. Seus instintos haviam assumido o controle no momento em que viu Ravena em perigo. Ele sentiu uma necessidade visceral de protegê-la, um impulso que se intensificara após descobrir que fora ela quem tivera a coragem de lhe contar a verdade sobre a traição. Ele não a via como a culpada, mas como a libertadora de sua cegueira. Enquanto isso, Ravena caminhava ao lado dele, sentindo o calor da mão de Santos apertando seu braço. Ela não se importava com a pressa ou com a brutalidade do momento. Pela primeira vez em anos, ela não estava apenas observando-o de longe. Ela estava ali, sendo protegida pelo homem que amara em segredo durante todo o tempo em que ele fora enganado pela outra. O toque dele, mesmo rude, era tudo o que ela desejara. Ravena olhou para o perfil rígido de Santos e sorriu internamente; o caos que ela plantara estava finalmente florescendo, e ela estava pronta para caminhar através das cinzas ao lado dele, sentindo o triunfo de quem finalmente fora vista pelo seu demônio favorito.
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