O santuário das sombras.

1711 Words
Ravena enrolava os docinhos com uma precisão cirúrgica, moldando cada esfera de chocolate com a técnica que havia aprendido com a própria Zafira. O ambiente da cozinha estava impregnado com o aroma doce do leite condensado e do cacau, um contraste gritante com a atmosfera pesada que pairava sobre o morro naquela semana. Ravena gostava de ajudar a amiga; para ela, aquelas horas na cozinha não eram apenas um favor, mas parte de um plano maior. Ambas trabalhavam juntas na ideia de, em um futuro não muito distante, abrir a própria confeitaria na comunidade. Era o sonho de Zafira que Ravena havia adotado como missão, talvez por saber que Zafira precisava de alguém que acreditasse nela mais do que ela mesma. — Como foi a faxina na casa de Espectro? — Ravena questionou sem desviar os olhos do que fazia, mantendo o ritmo constante de suas mãos. Zafira, que organizava as embalagens ao lado, hesitou por um segundo antes de responder. A simples menção ao nome ou ao título do dono do morro fazia seus pelos do braço se arrepiarem de uma forma que ela ainda não sabia classificar. — Ele não apareceu, então, até agora, correu tudo bem — respondeu Zafira, tentando manter a voz neutra. — Mas é estranho, Ravena. Qual será o motivo de ele se esconder tanto assim? A casa é imensa, luxuosa de um jeito frio, mas parece que ele vive apenas nas sombras dos corredores. Ouvindo a nota de curiosidade na voz de Zafira, Ravena levantou o olhar brevemente. O olho direito avermelhado de Ravena brilhou sob a luz da lâmpada da cozinha enquanto ela encarava a amiga com um sorriso de soslaio. — Isso é só curiosidade mesmo ou um interesse disfarçado, Zinha? — A provocação na voz de Ravena era visível. Ela conhecia a amiga melhor do que ninguém e sabia que Zafira tinha uma tendência perigosa a tentar consertar coisas quebradas. Zafira balançou a cabeça, sentindo o rosto esquentar levemente, uma reação que ela odiou ter. — É só curiosidade, Ravena. Ele parece ser tão solitário naquela casa... é uma solidão que você consegue sentir no ar, como se as paredes estivessem sufocando. Eu só fiquei curiosa sobre o tipo de homem que escolhe viver assim, sendo o dono de tudo. — Sei... — Ravena murmurou, voltando sua atenção para os doces. Mesmo contrariada e sentindo que havia algo mais ali, Ravena decidiu não discutir. Por hora, deixaria a amiga pensar que aquilo realmente era apenas um interesse antropológico pela vida do criminoso mais temido da região. Ravena tinha suas próprias batalhas mentais para lutar e mudou o foco da conversa para o assunto que não saía de sua cabeça desde o encontro no beco. — Quanto ao Santos, o que pretende fazer? — Zafira devolveu a pergunta, querendo tirar o holofote de si mesma. Ravena parou os movimentos por um instante, o olhar perdendo-se na parede de azulejos descascados. Ela tentou encontrar a melhor resposta, uma que não soasse desesperada, mas que fosse honesta o suficiente para a única pessoa em quem confiava. — Não sei se eu deveria fazer alguma coisa. Talvez o Santos esteja totalmente fora da minha realidade agora. Ele acabou de sair de um inferno e entrou em outro — Ravena disse, mas o tom brincalhão em sua voz traía suas palavras. Zafira percebeu a fachada imediatamente. Ela conhecia aquele tom. Ravena não estava sendo sincera; ela estava apenas testando a profundidade da água antes de mergulhar. — Por um segundo, eu realmente acreditei nessa mentira, Ravena — Zafira comentou, soltando um suspiro pesado. — Fala sério, amiga! — Ravena exclamou, abandonando o fingimento e batendo levemente as mãos sujas de chocolate na mesa. — Acha mesmo que vou deixar ele escapar desta vez? Nem fodendo. O Santos vai me amar. Mesmo que ele tenha sido traído daquele jeito podre, eu vou mostrar para ele que o amor é bem diferente do que aquela v***a ofereceu. Aquela sonsa deu a ele uma mentira; eu vou dar a ele algo real, mesmo que queime. Confia em mim. Zafira olhou para a amiga com uma mistura de admiração pela sua coragem e medo pelo seu coração. Ravena era fogo, e Santos era um homem feito de pólvora e mágoas recentes. — Só toma cuidado, viu? Não se machuca por ele, não. Alguns homens não valem o seu tempo, e ele parece estar em um lugar muito escuro agora — Zafira disse, e Ravena entendeu perfeitamente o que a amiga queria dizer. Zafira falava por experiência própria, pelas marcas que seus ex-relacionamentos deixaram em sua alma. — Fica tranquila, amiga. Você vai encontrar o homem certo também. É só ter paciência e parar de procurar por feridas para curar — Ravena respondeu com um carinho áspero. Mesmo desacreditada do que Ravena havia dito, Zafira assentiu, fingindo aceitar aquilo como uma verdade absoluta em sua vida. Mas, no fundo, ela já havia aprendido há muito tempo que o "homem certo" era uma lenda urbana, especialmente no lugar onde viviam. Elas finalizaram parte das encomendas, guardaram os doces na geladeira, organizaram toda a bagunça da cozinha e foram dormir. Ravena se deitou com Zafira na cama estreita; estavam acostumadas a dormir juntas desde as perdas que sofreram, compartilhando o silêncio e o espaço sem se importarem com isso. Era o único momento de paz absoluta que tinham. O fim de semana veio com uma intensidade avassaladora. Zafira entregou cada encomenda pontualmente, subindo e descendo ladeiras com as caixas cuidadosamente protegidas. O dinheiro que recebeu ajudou a aliviar o peso das contas acumuladas, mas o que realmente a livrou do estresse foi o pagamento que recebeu pela faxina na casa do Espectro. Quando ela contou as notas que Miron lhe entregou, seus dedos tremeram. Nunca havia recebido tanto dinheiro em um só dia por um trabalho doméstico. Era uma quantia que beirava o absurdo para os padrões do morro. Ela chegou a abrir a boca para perguntar a Miron se a conta estava certa, se ele não havia se enganado com os valores, mas a voz morreu na garganta. Ela precisava desesperadamente daquele dinheiro. Se estivesse errado, ela pensou consigo mesma, poderia pagar a diferença depois com trabalho extra, sem nenhum problema. Com a euforia do fim de semana ainda vibrando em seus nervos, a segunda-feira chegou com um sol tímido entre as nuvens. Zafira despertou antes do despertador tocar. Havia uma eletricidade diferente em seu corpo. Ela escolheu uma roupa simples, como de costume, uma calça jeans confortável e uma blusa que não restringisse seus movimentos, calçou suas havaianas e saiu de casa logo em seguida, enquanto o morro ainda começava a despertar sob o som dos primeiros rádios e o cheiro de café forte. Enquanto caminhava, Zafira sentiu seu peito levemente aliviado. Era uma sensação que ela não conseguia explicar racionalmente; era apenas uma intuição vibrante de que, naquele dia, algo bom iria acontecer. Talvez sua sorte estivesse finalmente mudando, talvez o universo estivesse cansado de lhe tirar as coisas e resolvesse, por um breve momento, lhe dar algo em troca. Com um sorriso discreto no rosto e a determinação que era sua marca registrada, ela subiu o morro com o passo firme e a cabeça erguida, ignorando o cansaço das pernas. Ela tinha recebido uma chave reserva de Miron na noite passada. Ele a entregou com um olhar significativo, explicando que Cael às vezes bebia demais durante as madrugadas e acabava não acordando a tempo de abrir a porta para a limpeza. Ter a chave era uma prova de confiança que Zafira não esperava, mas que aceitou com uma responsabilidade quase sagrada. Zafira entrou na mansão sem fazer alarde. Ela era extremamente cuidadosa com barulhos; detestava a ideia de ser um incômodo naquele ambiente que parecia tão estático e silencioso. Com movimentos fluidos, ela começou sua rotina. Preparou o café da manhã com uma dedicação extra: o cheiro do café fresco, as frutas cortadas com precisão, o pão quente. Ela serviu a mesa da sala de jantar com um cuidado meticuloso, fazendo de tudo para deixar o ambiente especialmente acolhedor, como se tentasse, através da comida, preencher o vazio daquela casa. Ela não entendia o motivo dessa compulsão, mas para ela, Espectro era solitário demais. Zafira projetava nele a sua própria solidão, tratando-o como alguém que não reconhecia um gesto de cuidado há anos. Ela queria que, ao descer, ele sentisse que ali não havia apenas uma funcionária, mas uma presença que respeitava o seu espaço. Lá em cima, no segundo andar, Cael ainda dormia um sono pesado e turbulento. A noite havia sido longa e regada a litros de uísque barato e pensamentos caros. Ele precisava do álcool para silenciar as vozes em sua cabeça e o fantasma da mãe que ainda o assombrava, gritando sobre sua beleza perdida e sua sujeira atual. Ele estava mergulhado em um torpor que o impedia de ouvir os sons suaves que vinham da cozinha. Zafira, ansiosa como sempre e movida por uma coragem que nem sabia que possuía, não conseguiu ficar apenas no andar de baixo. A curiosidade sobre o homem que pagava tão bem, mas vivia como um fantasma, tornou-se insuportável. Ela subiu as escadas de mármore com o coração batendo tão rápido que sentia as batidas na ponta dos dedos. Ela parou diante da porta do quarto principal. A madeira escura parecia monumental, um portal para um território estritamente proibido. E, de certa forma, era o coração do castelo do monstro. Zafira respirou fundo, tentando acalmar o tremor em suas mãos. Ela bateu levemente na porta. O som foi baixo, quase um sussurro de juntas contra a madeira. Ela esperou ali, em pé, sentindo suas pernas falharem por um segundo. A imaginação de Zafira corria solta, criando imagens borradas do homem que se escondia do mundo por trás de uma máscara de poder e cicatrizes. Ela estava prestes a cruzar a linha entre a funcionária e a intrusa, impulsionada por uma necessidade desesperada de ver o rosto do dono do morro, o temido Espectro, antes que o medo a fizesse recuar para sempre. A ansiedade era um gosto metálico em sua boca, e o silêncio do outro lado da porta era a resposta mais ensurdecedora que ela já havia recebido.
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