O asfalto da subida do morro parecia mais íngreme naquela tarde, ou talvez fosse apenas o peso da liberdade recém-adquirida esmagando os ombros de Cael.
Quando Cesar estacionou o carro nos fundos da casa, o silêncio foi imediato, interrompido apenas pelo estalo do metal quente do motor.
Cael desceu sem olhar para trás. Não trazia malas, roupas ou lembranças da cela onde os dias pareciam séculos. Tudo o que tocou o chão daquela prisão foi deixado para trás, descartado por seus soldados como se apagassem um rastro de sangue. Ele queria purificação, mas sabia que, para homens como ele, a pureza era um conceito inexistente.
Ele entrou em sua própria casa com passos cautelosos, quase predatórios. Havia uma ironia amarga na forma como se sentia: um invasor em seu próprio domínio. O dono do morro, o homem cujo nome causava tremores em cada beco, estava pisando em ovos.
O ar dentro da casa não tinha o cheiro de mofo e pólvora ao qual estava acostumado; cheirava a lavanda, a frescor e a algo que ele não conseguia identificar de imediato, mas que acelerava seus batimentos.
Silêncio.
Ele não queria ser notado. Queria apenas uma confirmação visual. Precisava entender por que, durante as noites de insônia no isolamento, o nome "Zafira" ecoava em sua mente como um mantra proibido. O que havia em seis letras que foi capaz de perfurar a armadura que ele levou décadas para construir?
Então, ele a viu.
Cael parou na sombra do corredor, fundindo-se à escuridão que sempre foi sua única aliada.
Zafira estava na cozinha. Ela não era uma miragem. Era real, vibrante e estranhamente alegre. Enquanto servia a mesa, ela cantarolava uma melodia baixa.
Ele observou o modo como ela se movia, a firmeza em seus olhos apesar das marcas invisíveis que a vida dura deixava em seus ombros. Ela era uma sobrevivente, assim como ele, mas, ao contrário dele, ela não havia permitido que a escuridão apagasse sua luz.
Ver o sorriso dela causou um curto-circuito em sua mente. Um sentimento estranho de pertencimento, quase como um destino inevitável, atingiu seu peito com a força de um tiro à queima-roupa. Como alguém que nunca me viu pode cuidar de mim dessa forma?, ele se perguntou, sentindo-se estranhamente exposto.
— Agora sim eu posso ir — a voz de Zafira ecoou, doce e cansada ao mesmo tempo. Ela falava consigo mesma, um hábito de quem passa muito tempo em sua própria companhia. — A casa está habitável, a comida está perfeita e talvez ele se sinta melhor quando encontrar a casa assim.
Cael prendeu a respiração. "Ele". Ele era o monstro, o desconhecido, o homem que ela servia sem rosto.
— Agora eu preciso só receber e lidar com minhas dívidas... acho melhor deixar alguma coisa.
Ele a observou pegar uma caneta. O movimento rápido do pulso dela sobre o papel era hipnótico.
Quando ela saiu, o vácuo que deixou foi quase doloroso. Cael permaneceu imóvel por longos minutos, deixando o silêncio se fechar novamente ao seu redor, antes de finalmente caminhar até a cozinha.
A mesa era uma obra de arte da simplicidade e do cuidado. O aroma da comida era acolhedor, algo que remetia a um lar que ele nunca teve de verdade. No centro de tudo, o bilhete. Ele o pegou com as pontas dos dedos, como se o papel pudesse se desintegrar.
"Espero que goste do seu novo ambiente, e que tenha chegado bem, fiz o meu melhor pra tentar deixar a casa habitável, mantenha a limpeza enquanto eu não voltar até a segunda-feira, obrigada pela oportunidade, coma bem e não bagunce tanto.
Zafira."
Um sorriso escapou. Não era o seu sorriso habitual, aquele carregado de sarcasmo, deboche ou ameaça implícita. Era algo genuíno, uma rachadura em sua fachada de mármore. "Não bagunce tanto". Ninguém ousava dar ordens a Cael, mas aquela mulher, com sua caligrafia simples e sua audácia silenciosa, acabara de estabelecer uma regra em seu território.
Ele se sentou e comeu. Cada garfada era uma revelação. Zafira não tinha apenas limpado; ela tinha colocado intenção em cada canto. Havia marmitas prontas para o fim de semana, um cuidado que ultrapassava o dever profissional. Ela era atenciosa com um fantasma. E isso, de alguma forma, era mais perigoso do que qualquer emboscada que seus inimigos pudessem planejar.
Cael pegou o celular. Seus dedos discaram o número de Miron quase por instinto.
— E aí, chefe? — A voz de Miron veio carregada de uma tensão óbvia. Receber uma ligação de Cael àquela hora geralmente significava problemas. — Algum problema com a limpeza da casa? Alguma coisa fora do lugar?
— Dobre o valor que pagaria para ela. E mande agora mesmo — ordenou Cael. Sua voz estava mais rouca que o normal, carregada de uma autoridade que escondia sua confusão interna.
— Como? O dobro? — Miron gaguejou do outro lado. — Chefe, eu ouvi bem?
— Exatamente. Pague o dobro e avise que ela está contratada. Cinco dias por semana. Folga sábado e domingo. Se ela precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você resolve. Entendido?
Miron ficou mudo por alguns segundos. O Cael que ele conhecia odiava estranhos em seu espaço, odiava a vulnerabilidade de ter alguém limpando seus segredos. E agora, ele estava abrindo as portas, e o cofre, para uma desconhecida.
— Tudo bem, chefe. Farei isso agora.
Ao encerrar a ligação, Cael fez algo impensável. Ele mesmo retirou a mesa. Limpou cada prato com uma precisão cirúrgica, tentando manter a ordem que ela havia estabelecido.
Cael apertou o papel entre os dedos, sentindo a textura simples do material contra sua pele calejada. A caligrafia dela era firme, mas arredondada, revelando uma personalidade que não se dobrava facilmente, mesmo sob o peso do mundo.
Ele leu o bilhete uma, duas, três vezes. "Não bagunce tanto". Aquela frase ecoava em sua mente como um desafio silencioso. Quem ela pensava que era para ditar as regras no covil de um lobo? E, no entanto, a fúria que deveria sentir foi substituída por uma curiosidade corrosiva.
Ele se afastou da mesa e começou a caminhar pela casa, mas não era mais uma caminhada de inspeção; era uma busca por vestígios. Ele queria encontrar o DNA de Zafira em cada centímetro de madeira e cerâmica.
Parou diante do aparador na sala de estar. Seus dedos deslizaram pela superfície onde antes repousava uma camada de poeira e negligência. Agora, o móvel brilhava, refletindo a luz alaranjada do pôr do sol que filtrava pelas frestas das cortinas.
Ele fechou os olhos e aspirou profundamente. O cheiro dela ainda estava ali. Não era um perfume caro de fragrâncias sintéticas que as mulheres que frequentavam o morro costumavam usar para impressioná-lo.
Era um cheiro de sabão neutro, de pele limpa e de algo que lembrava alecrim. Era um cheiro de vida. Para um homem que passou os últimos meses cercado pelo odor metálico de grades de ferro e o suor azedo do desespero humano, aquele aroma era quase entorpecente.
Cael entrou em seu escritório. O santuário onde decidia quem vivia e quem morria. Ele esperava encontrar seus papéis desorganizados ou o peso de papel fora do lugar, mas Zafira fora meticulosa. Ela respeitara o caos dele, apenas removendo a sujeira que o cercava.
Ele sentou-se em sua poltrona de couro e notou que até o toque do material parecia diferente, mais macio, hidratado. Ela cuidara de cada detalhe como se soubesse que ele precisava de um recomeço, mesmo sem nunca ter visto seu rosto.
Uma onda de possessividade, súbita e violenta, subiu por sua espinha. Ele odiava a ideia de outros olhos terem visto o que ele estava vendo agora. Cesar a vira entrar? Seus soldados tinham olhado para ela com a mesma fome que ele sentia agora, apenas por imaginar sua silhueta? A ideia de Zafira circulando por aqueles corredores, vulnerável e ao mesmo tempo tão poderosa em sua simplicidade, fazia o sangue de Cael ferver.
Ele se levantou bruscamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente que quebrou o silêncio sagrado da casa. Ele precisava de controle. O controle sempre foi sua âncora, a única coisa que o manteve vivo quando o mundo tentou engoli-lo. Mas Zafira, com suas marmitas organizadas e seu bilhete atrevido, estava desfiando a corda de sua sanidade.
Voltou para a cozinha e encarou as marmitas no congelador. Cada recipiente estava etiquetado com uma letra legível. "Sábado - Almoço", "Domingo - Jantar". O cuidado dela era uma afronta à sua solidão.
Ele estava acostumado a ser temido, obedecido e servido por obrigação. Mas aquilo... aquilo não era obrigação. Havia uma dignidade no trabalho dela que o diminuía. Ele se sentia um gigante encurralado pela gentileza de uma formiga.
_ Por que você se importa tanto, Zafira? - ele falou consigo mesmo tentando recuperar o bom senso.
Ele estava consumindo o esforço dela, deixando que ela entrasse em seu sistema, parte por parte.
Ele não era um homem de meias medidas. Se Zafira havia entrado em sua casa e mudado o ar que ele respirava, ela teria que arcar com as consequências.
Ele não permitiria que ela fosse apenas uma funcionária que vinha e ia. Ele queria mais. Queria entender o que a fazia sorrir para as paredes enquanto servia a mesa de um criminoso. Queria saber se aquele brilho nos olhos dela permaneceria se ela soubesse exatamente de que sangue eram feitas as mãos que agora seguravam o bilhete dela.
Ele parou diante da janela, observando as luzes do morro começando a piscar como estrelas caídas. A pergunta que o assombrava na cela agora tinha um rosto, um perfume e um sorriso.
— Quem é você, Zafira? — sussurrou para a penumbra, sentindo o nome vibrar em seu peito. — Por que sua existência me afeta tanto?
Ele sabia que a resposta poderia ser sua ruína. Mas, pela primeira vez em anos, ele não estava com medo de cair.