O mundo lá fora existia apenas como ruído.
Dentro daquela prisão, o tempo parecia suspenso, pesado, impregnado no concreto. As paredes úmidas carregavam o cheiro ácido de suor, mofo e desesperança, lembrança constante de que ali dentro ninguém respirava de verdade. Era apenas o corpo sobrevivendo enquanto a alma era consumida, um pouco por dia.
O corredor estreito ecoava passos ritmados de guardas que fingiam não ver as transações silenciosas entre os presos. Nada ali era segredo, mas tudo era negado. A escuridão era parcial, como se luz e sombras disputassem território desigual.
Cael estava sentado no canto mais escuro da cela, lugar que ninguém ousava ocupar. Seus olhos, sempre semicerrados, observavam tudo com a frieza calculada de quem já se acostumou ao inferno.
A cicatriz que atravessava seu rosto pelo lado direito começava no supercílio, descendo irregular até o ossinho da bochecha, profunda, mas estranhamente limpa, quase simétrica, como se tivesse sido feita com precisão cirúrgica. Ele mesmo a fizera anos antes, enquanto se olhava no espelho de um banheiro sujo, com a lâmina que roubou de um traficante morto.
Não queria beleza.
Beleza atraía mãos cruéis e olhos cheios de intenção. Beleza era uma maldição herdada de uma mãe que o vendera ainda jovem.
Por isso se escondeu.
Por isso jamais mostrava o rosto por inteiro.
Alguns homens iam presos para fugir do mundo.
Outros eram forçados pelo destino.
Cael, não.
Ele escolheu.
Se entregou, assumiu crimes que não foram seus, aceitou algemas e celas porque acreditava que aquele era o único lugar no qual merecia existir. Quando fechou os olhos na primeira noite ali, sentiu que finalmente havia encontrado o silêncio que procurava — ainda que fosse o silêncio da condenação.
— Chefe… — uma voz baixa interrompeu seu pensamento, puxando-o de volta. — Tem um soldado que pediu pra falar com o senhor.
Cesar falava com cuidado, como quem carregava vidro fino nas mãos. Dos seis que entraram presos com Cael, ele era o único que ousava trocar frases completas com o chefe. Não por proximidade, mas porque Cael permitia.
Foi ele quem testemunhou a lealdade dos outros soldados ser testada até o limite dentro e fora do presídio. Apenas homens que aceitavam o sacrifício sobreviviam sob o comando de Cael.
Cael inalou devagar o cigarro entre os dedos, tragando como quem absorve o veneno do mundo com devoção. Sua voz ecoou rouca, arranhada, grave como pedra raspando no metal.
— Você não consegue resolver sozinho, Cesar?
A pergunta não soava como bronca. Era mais um aviso frio.
Cesar engoliu seco, mantendo a postura. Sabia que Cael não apreciava fraqueza exposta, mas também não aceitava mentira.
— Ele disse que precisava falar com o senhor. Que era assunto… pessoal.
Cael manteve o silêncio.
Lidar com emoções humanas raramente lhe interessava, exceto quando envolvia traição ou lealdade. Nesses dois extremos, Cael era obsessivo. Cada soldado seu conhecia as regras não escritas:
homem não batia em mulher;
homem que traía morria;
quem abandonava soldado era abandonado pela própria vida.
Ele fez um gesto quase imperceptível com a cabeça.
Cesar entendeu.
Virou-se e chamou o outro homem.
Santos entrou hesitante. Era robusto, mas os olhos denunciavam noites sem sono, culpa acumulada e um desespero que transpirava pelos poros. Tentou manter firmeza no olhar, mas ao encarar o canto escuro onde Cael estava, desviou.
Ninguém encarava Cael.
A cicatriz parecia olhar antes deles.
— Se está perturbando a minha paz — Cael começou, soltando uma fina fumaça que se elevou no ar denso — espero que seja urgente.
O silêncio entre eles pesou. O som distante de gritos em outra ala da cadeia servia como trilha para aquela tensão crescente.
Santos pigarreou, respirando fundo.
— Senhor… eu quero sair daqui.
Cesar deu um leve passo para trás, quase involuntário. Sabia que aquele pedido raramente terminava bem.
Cael arqueou um dos lados da boca, sem chegar a sorrir. Apenas um reflexo de interesse silencioso.
— E por quê? — perguntou. — Cansou da minha hospitalidade?
Santos inclinou a cabeça. A voz tremia, mas havia raiva nela.
— Minha esposa me traiu. Com outro soldado. Quero resolver com minhas próprias mãos.
Essa palavra, traição, parecia desencadear algo dentro de Cael. A cicatriz, iluminada pela lâmpada fraca da cela, projetava sombras duras em seu rosto.
Por dentro, uma memória queimar no peito como ferro quente.
Sua mãe.
O barulho da fechadura.
O perfume barato.
O toque que ele jamais esquecera.
Tinha apenas onze anos quando entendeu que amor era uma ilusão criada para justificar abusos.
Respirou fundo, apagando o passado antes que o corroesse.
— O que te faz pensar — começou lentamente — que eu vou tirar você daqui tão cedo?
Santos continuou sem desviar o olhar.
— Não peço por privilégio. Nem por pena. Só quero justiça. Sempre fui leal. Cumpri ordens sem questionar. Dei minha vida ao senhor. Mas não posso ficar aqui enquanto sou feito de covarde dentro da minha própria casa.
Cesar observava calado. Admirava Santos, apesar de saber que Cael testava homens exatamente nesses momentos. A lealdade verdadeira aparecia na dor, nunca na calmaria.
Cael levantou do canto, passos lentos. Não totalmente visível, mas o suficiente para que Santos visse a linha dura da mandíbula, o brilho contido nos olhos.
— Você sabe — Cael disse, com voz baixa — que não vai tocar nela.
Santos assentiu. Não havia surpresa. Essa regra era sagrada. Cael não tolerava que um homem colocasse as mãos em uma mulher. Não importava o motivo, a circunstância, a história. As cicatrizes dele tinham origem ali — naquela violência silenciosa, perpetuada.
— Não preciso encostar nela, senhor — respondeu Santos, com amargura — mas aquele desgraçado vai pagar.
Cesar sentiu um arrepio.
Aquele era o tipo de ódio que Cael respeitava.
Não o ódio impulsivo, mas o calculado, frio.
— Se eu te tirar antes da hora — Cael aproximou-se, o cigarro agora queimando quase no filtro — você nunca mais volta pra cá.
Santos piscou, confuso.
— Não quero voltar, senhor.
Cael inclinou a cabeça.
— Não estou falando da prisão. Estou falando do morro.
Um silêncio tenso pairou.
Ambos sabiam o peso daquilo.
— Vai continuar sendo meu soldado? — Cael perguntou, encarando-o pela primeira vez.
A pergunta soou como sentença.
— Até o fim da minha vida — Santos respondeu sem hesitar.
Cael observou o homem por um tempo que pareceu longo demais. Cada soldado era uma peça numa rede de poder silencioso. Santos provaria seu valor fora dali.
— Cesar — Cael chamou, virando-se. — Providencia a saída dele.
O soldado assentiu, tentando não demonstrar alívio. Santos sentiu o coração acelerar, mas manteve postura.
Ao virar de costas, Cael completou:
— E Santos…
O soldado parou.
— Se o homem tentar correr ou se esconder… não tenha misericórdia. Só lembre da regra.
Santos sorriu de lado.
— Eu entendo, senhor.
Quando os passos se afastaram, Cesar olhou para Cael com respeito silencioso.
— Por que o senhor liberou ele agora? — perguntou.
Cael tragou o cigarro, encarando o vazio.
— Porque nada destrói mais uma pessoa do que assistir a verdade cair na frente dos próprios olhos — murmurou. — A mulher vai entender o inferno que criou.
Cesar não respondeu. Não precisava.
Naquele presídio, Cael reinava cercado de sombras, silêncio e obediência absoluta. Nenhuma grade segurava sua influência.
O verdadeiro cárcere era sua mente, onde o passado ainda sangrava, mesmo que ninguém visse.
E ele continuaria ali por escolha.
Por punição.
Por acreditar que o amor, a beleza e a liberdade eram coisas destinadas a outros, nunca a ele.
Essa era sua sentença.
E ele a cumpriria.
Até que o destino decidisse cruzar seu caminho com o de Zafira.