Controle perdido.

1443 Words
A vida podia ser dura de diversas formas, e Zafira às vezes tinha a impressão de que com ela, o destino era ainda pior, como se o universo estivesse sempre testando sua resistência, zombando silenciosamente da sua alma cansada. Ou talvez fossem apenas suas escolhas, sempre precipitadas, sempre impensadas, que pareciam levá-la por caminhos tortuosos. Não sabia a quem culpar. Se a si mesma, por tomar decisões imprudentes, ou ao destino, que insistia em assumir formas cruéis demais. Seu dia começava sempre muito cedo. Naquela manhã de terça-feira, não havia sido diferente: acordou pouco depois das cinco, o corpo ainda dolorido da noite m*l dormida. A velha cama rangera a madrugada inteira, e o ventilador hesitante m*l espantava o calor abafado que subia do morro. Mas Zafira já estava acostumada a dormir m*l; a insônia era sua companheira silenciosa a muito tempo, mais do que poderia contar. Levantou devagar, sentindo o peso das responsabilidades se acumularem em seus ombros como sacos de cimento. O aluguel atrasado, a faculdade pendente, as contas acumuladas, a compra do mês que seria reduzida pela metade, a hipoteca do passado doloroso e as expectativas de um futuro que nunca chegava. Fez seus exercícios matinais por teimosia, uma forma de se convencer de que ainda tinha algum controle. Respirava fundo, repetindo mentalmente que precisava ser forte, porque ninguém seria por ela. Tomou o café preto, amargo, como gostava. Um hábito que herdara da mãe e que carregava como um símbolo de resistência. Em seguida, tomou banho rápido, vestiu a calça jeans surrada e a blusa simples que usava no trabalho. Saiu de casa antes das seis. O caminho até o mercadinho era curto, apenas alguns minutos de caminhada pelas escadarias estreitas e pelos becos tortuosos, onde os grafites coloridos contrastavam com o cinza descascado das paredes. O sol ainda não havia nascido completamente, mas a claridade começava a se insinuar no horizonte, tingindo o céu com tons alaranjados. Quando chegou, viu o dono abrindo a porta de ferro antes do horário de sempre. — Abriu antes do horário hoje, seu Antônio? — perguntou ao se aproximar. — Não, minha filha, só me adiantei um pouquinho — respondeu ele, evitando o olhar dela. Zafira não desconfiou de nada. Apenas entrou, organizou o caixa com habilidade automática, colocou os pães recém-assados na pequena vitrine da padaria improvisada e, depois de alguns minutos, sentou-se na cadeira atrás do balcão. Olhava a vida acontecer lá fora, observando os moradores do morro se movimentando. Adorava aquele hábito silencioso. Era sua única forma de observar o mundo sem ser engolida por ele. Os primeiros raios de sol apareciam, banhando a rua estreita com luz dourada. Crianças desciam apressadas para a escola, acompanhadas pelas mães, tias ou avós. Aquele ritual cotidiano aquecia seu coração, mas o deixava dolorosamente apertado. Havia perdido a mãe cedo, quase sem tempo de guardar lembranças nítidas dela. A avó, que tomou o papel materno com doçura, morrera pouco depois. A tia, que não era parente de sangue, mas era quem Zafira mais amara, partira anos depois, deixando-a sozinha. Zafira se sentia sozinha, com uma solidão profunda que nem o barulho da rua era capaz de silenciar. E por mais que tivesse amigos ou conhecidos, aquilo não preenchia o vazio que a acompanhava como uma sombra. Sentia que sua existência era banal, que sua presença no mundo era apenas um detalhe irrelevante no meio do caos. Quando deu o horário do café, Zafira foi para os fundos do mercadinho. Preparou outra xícara, inalando o aroma forte como se aquilo pudesse lhe dar algum conforto. Sentou-se na pequena mesa de madeira encostada à parede úmida e tomou o café devagar, degustando cada gole em um silêncio que parecia suspenso no tempo. Mas o destino, sempre ele, decidiu lembrá-la de sua crueldade. Seu Antônio apareceu na porta com expressão pesada. — Não precisa mais vir amanhã, minha filha. Eu sinto muito, mas o mercadinho não dá pra manter funcionários. Eu não tenho condições de te pagar — disse, abaixando o olhar. O café queimou sua língua, mas ela não sentiu nada. O coração, sim, pareceu encolher dentro do peito. Aquele emprego era sua única esperança, a única renda fixa que conseguira depois de tantas tentativas frustradas. — Senhor Antônio, como assim? O mercadinho tá dando lucro como nunca. Vai mesmo me demitir assim? — perguntou, tentando manter a voz firme. A verdade era que ela queria gritar, implorar, agarrar-se àquele emprego como quem se agarra ao último fio de vida. Mas sabia que não adiantaria. — Sinto muito, Zinha. Não tenho escolha — respondeu ele, balançando a cabeça, antes de se virar e sair. Zafira ficou sentada ali, imóvel, sentindo seu mundo desabar silenciosamente mais uma vez. No fim da tarde, saiu do mercadinho com o coração pesado. O sol já se punha, tingindo o morro com tons alaranjados e sombras compridas. Caminhou devagar, sentindo cada passo pesar como chumbo. Precisava conseguir dinheiro para o aluguel até o fim de semana, pagar as despesas da casa, as dívidas feitas para reformar o barraco, a mensalidade da faculdade… E o pior: não tinha trabalhado um mês completo; recebera apenas uma parte do salário, insuficiente para cobrir as necessidades básicas. Sentia-se cansada. Cansada da vida, das pancadas gratuitas, das derrotas sucessivas, da sensação de que, por mais que tentasse, nada dava certo. Era como nadar contra uma correnteza violenta, sabendo que cedo ou tarde seria arrastada para o fundo. Sempre fora forte. Quando perdera a mãe, quando enterrara a avó, quando chorara pela tia que lhe dera amor. Sempre acreditou que a dor moldava pessoas fortes. Mas agora, exausta, sentia que sua alma estava rachada, coberta de fissuras profundas que nenhuma força resolveria. A conta sempre chega para todo mundo, pensou. E agora, parecia ter chegado para ela. --- Dentro da prisão, Cael observava a lua alta no céu. Era uma das poucas coisas belas naquele lugar. Gostava daquela visão porque lhe lembrava que, apesar das grades, ainda existia algo puro e intocável acima dele. O céu estrelado contrastava com a escuridão das paredes frias da cela. Mas, mesmo diante da serenidade da noite, sua mente estava inquieta. Pensava no nome que o atormentava desde a noite anterior. Zafira. Um nome que surgira por acaso, mas que agora parecia ocupar cada canto da sua mente, empurrando outros pensamentos para o fundo. Cael nunca fora de se apegar a nada. Sempre estivera no controle, fosse dentro ou fora das muralhas daquela prisão. Era respeitado, temido e obedecido. Nada escapava do seu domínio. Mas aquele nome… carregava algo diferente. Algo que ele não conseguia explicar. Sentia-se encurralado dentro de si mesmo, como se uma parte invisível de sua alma estivesse sendo puxada em direção a algo inevitável. A sensação de perda de controle era sufocante. Passou a mão pelos cabelos, impaciente. Respirou fundo, como se procurasse expulsar o incômodo. Mas não havia como. O pensamento insistia, martelando como uma sentença silenciosa. Zafira. Sem mais saída para seus pensamentos que não cessavam, tomou a única decisão que lhe restava, uma decisão impulsiva, contrária à sua lógica habitual, guiada apenas por um instinto que não reconhecia. — Prepare a nossa saída, César. Sexta-feira — ordenou com voz firme. César franziu a testa. Dias antes, Cael sequer queria sair dali. Agora pedia que preparasse tudo. — Aconteceu algo, chefe? — perguntou hesitante. Cael olhou para o céu mais uma vez, como se buscasse respostas ali. — Aconteceu, César. Algo grave. E que não tem mais volta. O homem engoliu seco. Nada mais foi dito. --- Zafira, naquela noite, sentia o peso da derrota atravessando suas costelas. A luz fraca do poste invadia sua janela, desenhando sombras tristes pelas paredes descascadas. Sentada na cama, olhava para o nada, tentando calcular as possibilidades. Como pagaria o aluguel? Como manteria a faculdade? Como continuaria? As lágrimas ameaçaram surgir, mas ela as conteve. Chorava raramente. Como se o choro fosse um luxo ao qual não tinha mais direito. A vida vinha sendo dura demais. Sempre havia algo lhe faltando, dinheiro, tempo, companhia, esperança. Era como se fosse uma peça descartável no tabuleiro c***l do destino. Respirou fundo, tentando acalmar o coração. Sentia que algo prestes a acontecer mudaria sua vida, talvez para pior, talvez para melhor. Mas o destino nunca fora gentil com ela, então não ousava esperar. Enquanto tentava adormecer, uma sensação inquietante a preenchia. Uma sensação de que estava sendo puxada por um fio invisível, rumo ao desconhecido. Do outro lado da cidade, Cael sentia o mesmo. Quando os fios do destino começam a ser puxados, não há como voltar atrás, e ambos estavam prestes a descobrir isso da forma mais c***l possível.
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