Acordar cedo era quase automático para Zafira, mesmo quando a vida insistia em empurrá-la para baixo. O corpo levantou antes da mente despertar, como se a obrigação de seguir vivendo falasse mais alto que qualquer pensamento derrotado.
Sentou-se à beira da cama e respirou fundo. O quarto simples parecia maior naquele silêncio sufocante. As paredes descascadas devolviam ecos de memórias que ela jamais escolheria lembrar: noites chorando sozinha, dias tentando juntar moedas para pagar contas, sonhos que pareciam evaporar antes mesmo de nascer.
Perder o emprego do mercadinho tinha sido um golpe seco, rápido, quase c***l em sua indiferença. Como se fosse fácil dispensar alguém que já lutava para sobreviver.
Mas Zafira não chorou. Não naquela manhã.
A dor se instalou em um lugar profundo, onde nenhuma lágrima conseguia alcançar.
— Levantar — murmurou para si mesma — só mais um dia.
Levou horas tentando ocupar a mente. Organizou o mesmo armário pela terceira vez, limpou a casa como se quisesse arrancar manchas invisíveis, estudou receitas, revisou contas, anotou possibilidades improváveis de renda.
Pensou em procurar emprego no morro: padaria, barbearia, loja de roupas improvisada, salão da dona Cida. Mas sabia que a resposta seria a mesma de sempre:
“sem vaga”.
O destino parecia zombar dela. Era quase como se observasse suas tentativas para então empurrá-la ainda mais fundo.
Durante meses, os bolos, docinhos e salgados tinham ajudado a sustentar a casa. Uma renda modesta, mas honesta, fruto de noites acordadas e mãos queimadas no forno antigo. Agora nem isso aparecia.
Sentiu a fé balançar, como se estivesse caminhando em corda bamba entre esperança e desistência.
Quando ouviu batidas no portão, tomou um susto. Quase desejou que fosse uma boa notícia, mas já havia aprendido a esperar o pior.
Na janela, avistou Miron sorrindo, segurando sacolas. Ele sempre aparecia quando ela menos esperava, ou mais precisava.
Abriu o portão.
O irmão colocou as sacolas sobre a mesa, com a tranquilidade de quem tenta disfarçar preocupação.
— Fiquei sabendo da demissão. Tá precisando de ajuda. — ele disse, sem rodeios.
Zafira sentiu o orgulho ferido, aquela resistência instintiva de quem carrega peso demais nas costas.
— Eu tô bem, Miron. Só preciso de um trabalho urgente. Tenho contas acumulando, aluguel, faculdade… Eu procurei ontem e hoje cedo, mas não consigo nada aqui no morro. E muito menos lá embaixo, quando descobrem onde eu moro.
Miron conhecia a dor escondida nas palavras da irmã. Ele via o cansaço nos seus olhos, o tremor discreto nas mãos, o suspiro profundo antes de cada resposta.
Zafira nunca pedia ajuda, nunca.
E, por isso mesmo, ele sabia que a situação estava além do limite.
Miron respirou fundo.
— Tem um emprego… mas não sei se vai querer.
Ela ergueu o olhar, desesperada o suficiente para aceitar qualquer coisa.
— Onde?
Houve uma pausa incômoda, quase lenta.
— Na casa do Espectro.
O nome caiu sobre ela como uma sombra.
Espectro.
Por alguns segundos, Zafira tentou lembrar de onde conhecia. A memória veio no formato de sussurros, rumores, histórias contadas entre cochichos no mercadinho.
O dono do morro.
O homem que comandava tudo sem jamais aparecer.
Uma presença invisível, poderosa, temida.
Ninguém sabia seu rosto, apenas Miron e alguns poucos homens.
Zafira sentiu o corpo arrepiar. Não pelo perigo explícito, mas pelo desconhecido, o oculto.
Era loucura. Ainda mais para uma mulher.
Histórias corriam pelos becos: Espectro não se envolvia com ninguém, mulher nenhuma entrava ou saía da sua casa.
— Quando eu posso ir? — ela perguntou, surpreendendo até a si mesma.
Miron levantou a sobrancelha.
— Aceitou rápido demais. Por quê?
Zafira deu um sorriso triste, tão sutil que quase se apagou no ar.
— Porque eu não tenho escolha, Miron. Me diz o que tenho que fazer.
O irmão respirou fundo, preocupado.
— Assim que ele me responder, te passo os detalhes. E já adianto: ele paga no dia. Não entra em desespero, tá?
Mas o desespero já estava dentro dela, pulsando como febre.
Zafira assentiu em silêncio.
Miron parecia querer abraçá-la, mas segurou o impulso. Talvez porque ela sempre se mantinha firme, mesmo quando o mundo desabava.
Quando ele saiu, Zafira ficou ali, parada na cozinha silenciosa, encarando a pilha de contas sobre a mesa.
Aceitar um trabalho na casa do dono do morro era atravessar uma porta sem retorno.
Podia perder muito mais que um emprego.
Podia perder a própria alma.
Mas naquele instante, escolheu seguir adiante.
Porque a fome não espera.
Porque o aluguel não espera.
Porque sonhos custam caro.
E, mesmo exausta, algo dentro dela, talvez fé, talvez loucura, sussurrou que aquela decisão mudaria tudo.
Talvez para pior.
Talvez para melhor.
Ou talvez para um destino que ela jamais imaginaria.
Mas Zafira não sabia.
E seguiu.
A noite chegou mais rápido do que Zafira esperava. O morro parecia diferente depois que o sol se escondia; como se todas as sombras ganhassem forma e sussurrassem histórias antigas, proibidas. A lua iluminava apenas o suficiente para revelar becos estreitos, escadarias quebradas e rostos que observavam em silêncio. Aquela comunidade respirava perigo, e ela sabia. O morro era vivo, pulsava, tinha regras próprias, e a principal delas era simples: não mexer com quem estava acima do topo da cadeia alimentar.
E naquele topo estava ele.
O Espectro.
O homem inalcançável, o nome que ninguém ousava dizer num sussurro acima do aceitável, como se chamá-lo em voz alta pudesse invocá-lo. Zafira nunca tinha visto seu rosto, mas sentia a presença dele em cada esquina, no medo dos olhares, na submissão silenciosa dos moradores. Aquele domínio era tão forte que chegava a parecer sobrenatural.
Enquanto caminhava até a cozinha para guardar o restante da louça usada no almoço, Zafira tentou afastar a sensação sufocante que apertava o peito desde que Miron tinha ido embora. A proposta ecoava em sua mente com força, como se fosse um destino inevitável, já escrito antes mesmo que ela tivesse nascido.
“Casa do Espectro.”
Aquela frase girava como uma lâmina afiada, cortando qualquer esperança de tranquilidade. Ela precisava aceitar. Precisava sobreviver. Mas, ao mesmo tempo, era como se estivesse apertando a própria garganta com as mãos. O medo era tão sólido que podia ser sentido na pele.
Zafira encostou as mãos na pia e respirou fundo. As contas em cima da mesa pareciam zombar dela, cobrando uma resposta imediata. O aluguel atrasado. A mensalidade da faculdade. O cartão estourado. As parcelas da reforma improvisada na casa. Tudo parecia uma tempestade que começava engolindo de mansinho, até afogar de vez.
Algumas pessoas não tinham para onde fugir.
Algumas não tinham luxos nem escolhas.
Algumas só tinham um caminho, mesmo que fosse pavimentado com consequências.
Seu coração batia rápido, mas não era apenas medo. Era revolta, exaustão, cansaço de lutar contra a vida e sempre perder. Ela queria mais. Queria provar para si mesma que não era apenas uma menina perdida no morro, condenada a repetir o ciclo que viu destruir a mãe. Queria dignidade. Uma chance. Mesmo que fosse mínima, mesmo que custasse caro.
No presídio, ao mesmo tempo, Cael andava pelo pátio silencioso, sem que nenhum soldado ousasse cruzar seu caminho. A noite trazia paz para ele, mas também inquietude. O nome Zafira havia se infiltrado em sua mente como veneno, queimando devagar. Não sabia quem ela era, não sabia sua história, suas cicatrizes, mas sentia. Havia algo nela que o puxava, como se seu destino estivesse sendo arrastado direto para uma armadilha invisível.
O peso da decisão dele era tão grande quanto o de Zafira, cada um em mundos diferentes, mas ligados por um fio que nenhum dos dois ainda enxergava. Cael, acostumado ao controle absoluto, sentia pela primeira vez a própria vontade escorrer pelas mãos. Zafira, acostumada a nunca ter escolha, sentia que, justamente agora, estava sendo empurrada para algo que não entendia, mas que intuía ser definitivo.
Naquela noite, nenhum deles dormiu.
Zafira encarou o teto, tentando imaginar o que a esperava naquela casa silenciosa, isolada no alto do morro. Tentou imaginar o homem que ninguém via, mas cujo nome dominava tudo. Pensou em voltar atrás. Em desistir. Em pedir ajuda. Em fugir. Mas não tinha para onde ir. E aquela falta de saída era o que mais doía.
Do outro lado, Cael tragava lentamente o cigarro, encarando o céu escuro. Sabia que estava prestes a sair. Mas agora entendia que não era só sobre o morro, sobre o comando, sobre vingança. Havia algo mais. Algo inevitável. E quando permitiu que o nome Zafira atravessasse seus pensamentos novamente, sentiu que nenhuma punição, nenhum crime, nenhuma prisão tinha sido tão perigosa quanto o que estava por vir.
Era como se o destino estivesse movendo as peças com crueldade.
Como se aquilo já tivesse sido escrito há muito tempo.
E agora não tinha mais volta.