O preço da traição.

1700 Words
Cesar havia deixado o carro com Santos logo após deixarem Cael na própria casa. O silêncio dentro do veículo era denso, quase sólido. Antes de seguir para o que restava de sua própria dignidade, Santos levou Cesar até sua casa e, em seguida, dirigiu até o local que, por anos, chamou de lar. Ele estacionou a poucos metros da fachada, mantendo o motor desligado. O veículo agora era apenas uma extensão de sua vigília. Ali, parado em frente àquela estrutura de tijolos e memórias, Santos sentiu o peso da realidade esmagar seu peito. A casa, antes um símbolo de suas conquistas e do amor que acreditava ser sagrado, havia se tornado o habitat de um animal asqueroso. Santos observava as janelas iluminadas com um desdém que beirava a náusea. Ele teria o prazer de m***r lentamente, sem pressa, sem espaço para justificativas. Na sua filosofia de vida, forjada no sangue e na lealdade do crime, a traição era a única dívida que não aceitava parcelamento; só podia ser quitada à vista, com a vida ou algo pior. Santos estava aprendendo, da maneira mais amarga, que o ódio é um combustível muito mais duradouro que o amor. Jamile fora sua primeira esposa. O nome dela, que antes soava como uma prece em seus lábios, agora tinha gosto de cinzas e bile. Ele a amava com uma devoção quase doentia desde a primeira vez que a viu, uma adolescente de tranças descendo a ladeira em direção à escola, os livros apertados contra o peito e um sorriso que parecia ignorar a violência do mundo ao redor. Ele se apaixonara naquela juventude roubada e esteve ao lado dela desde então, protegendo-a das garras do morro, mantendo-a em uma redoma de vidro. Santos nunca a traiu. Nunca deu motivos para que o respeito fosse quebrado. Ele cuidou dela, atendeu a cada um de seus caprichos e trabalhou no esquema de Cael para garantir que ela tivesse o melhor, acreditando piamente que o amor poderia ser comprado com lealdade e conforto. No final, tudo o que recebeu por sua dedicação foi um par de chifres, ostentado enquanto ele apodrecia em uma cela fria, contando os dias para revê-la. A coragem de Jamile era o que mais o intrigava enquanto ele permanecia no escuro do carro. Santos nunca imaginou que aquela mulher, sempre tão tímida, quieta, a "santinha" do bairro que m*l levantava a voz, fosse capaz de orquestrar tamanha perfídia debaixo do próprio teto. Agora, a ficha caía com a força de um soco no estômago: ela nunca fora santa. Ela era sonsa. E, no mundo de Santos, as sonsas eram as mais perigosas, pois escondiam o punhal atrás do sorriso de submissão. Ele acendeu um cigarro, a brasa brilhando como o olho de um demônio na escuridão do automóvel. A paciência era uma virtude que a prisão o forçara a cultivar. Ele esperava a hora certa, o ápice da entrega deles, para que o impacto fosse letal. Sabia que Jamile estava lá dentro com o amante, Pablo. O nome de Pablo causava um riso seco na garganta de Santos. Um soldado de baixo escalão, um homem sem credibilidade, um verme que não teria coragem de olhar nos olhos de Santos se ele estivesse em liberdade. Pablo era a prova de que Jamile não buscava apenas outro homem, mas sim qualquer um que pudesse ocupar o espaço deixado pelo dono da casa. Ele iria acabar com ele ali mesmo, na frente dela, sem remorso ou hesitação. Ela não sentiu pena quando profanou a cama que antes pertencia a Santos; ele não sentiria pena ao banhá-la com o sangue de seu prazer passageiro. Santos tragou profundamente o cigarro, sentindo a fumaça queimar seus pulmões, tentando, em um esforço hercúleo, recuperar uma sanidade que já não lhe servia mais. Sua mente era um projetor de horrores: ele imaginava a textura da pele de Pablo sob seus dedos, a resistência dos ossos da face cedendo aos seus golpes, o som da respiração dele se tornando um borbulhar de sangue. A sensação de antecipação transpassava suas veias como uma d***a injetável, aquecendo seu sangue e silenciando qualquer rastro de piedade. Quando o cigarro chegou ao fim, ele desceu do carro. O portão de ferro, que ele mesmo instalara para proteger Jamile, gemeu baixinho ao ser aberto. Santos moveu-se com a precisão de um predador. Seus passos eram inaudíveis sobre o piso da sala, um ambiente que ele conhecia em cada detalhe, cada rachadura no teto, cada cheiro impregnado nas cortinas. Aquela casa fora construída com o suor de sua face e o sangue de seus inimigos, exatamente do jeito que ela pediu. As cores das paredes, o estofado do sofá, tudo fora escolhido por ela. E agora, cada detalhe parecia zombar de sua estupidez. Ele parou diante da porta do quarto. O som dos gemidos e da respiração ofegante atravessava a madeira, atingindo Santos como chicotadas. Ele esperou. Um minuto. Dois. A mão apertando o cabo da faca que vinha amolando obsessivamente desde que recebeu a notícia de sua soltura. Quando percebeu que eles haviam chegado ao ápice, ao momento de maior vulnerabilidade, ele girou a maçaneta. A porta abriu-se devagar, revelando a cena que o atormentara em seus piores pesadelos. Eles estavam lá, emaranhados nos lençóis que Santos havia comprado. Somente quando o calor do ato começou a dissipar foi que Jamile notou a sombra colossal parada na soleira da porta. O olhar de Santos encontrou o dela, e por um segundo, o tempo parou. Jamile perdeu a cor, sua pele tornando-se cinzenta como a de um cadáver, enquanto puxava a coberta em um gesto inútil de modéstia. Pablo, ao lado dela, parecia ter congelado; seus olhos se arregalaram tanto que pareciam prestes a saltar das órbitas. — Olá, esposa — a voz de Santos saiu baixa, gutural, carregada de um ódio que ele não precisava gritar para ser sentido. — Santos... não... por favor... — ela gaguejou, a voz falhando, as lágrimas já começando a brotar por puro terror, não por arrependimento. — Espero que tenha aproveitado seu último o*****o, Pablo — Santos disse, ignorando o lamento da mulher. — Porque você nunca mais vai sentir nada parecido nesta vida. Antes que Pablo pudesse esboçar qualquer reação de defesa ou fuga, Santos avançou. Ele não era um homem, era uma força da natureza movida por vingança. Ele agarrou Pablo pelo pescoço, arrancando-o da cama com uma força bruta que fez o amante sufocar instantaneamente. O corpo nu de Pablo atingiu o chão com um baque s***o. Santos montou sobre ele, imobilizando seus braços com os joelhos, e começou o m******e. O primeiro soco atingiu o nariz de Pablo, desintegrando a cartilagem em uma explosão de vermelho. Santos não parou. Ele socou uma, duas, dez, vinte vezes. O rosto de Pablo tornava-se uma massa disforme de carne e osso quebrado. A cada golpe, Santos sentia a raiva acumulada em dois anos de cadeia sair por seus punhos. O som era seco, um ruído abafado de carne contra osso que preenchia o quarto enquanto Jamile gritava histericamente no fundo, encolhida contra a cabeceira da cama. Quando o rosto de Pablo já estava irreconhecível, apenas uma máscara de dor e sangue, Santos parou. Sua respiração estava pesada, mas seu olhar permanecia gélido. Ele buscou a faca em sua cintura. A lâmina refletiu a luz fraca do abajur, brilhando com uma promessa de agonia eterna. — Isso vai doer um pouco, parceiro — ele sussurrou perto do ouvido de Pablo, que m*l conseguia manter a consciência. Com a agilidade de um açougueiro experiente, Santos executou um único movimento preciso e c***l. O m****o de Pablo foi arrancado com um corte limpo. O grito que saiu da garganta do homem foi algo que não parecia humano; um som dilacerante, agudo, que parecia arranhar as paredes da casa. O sangue jorrou, manchando o tapete que Jamile tanto amava. Ela observava a cena em choque absoluto, o choro tornando-se um lamento infantil e desesperado. Santos levantou-se, limpando a lâmina no lençol branco, deixando um rastro escarlate para trás. Um sorriso lento e sombrio surgiu em seus lábios. A justiça estava feita, mas o sabor não era doce; era metálico e frio. — Foi isso que você procurou quando decidiu me trair, sua v***a? — ele perguntou, voltando-se para Jamile. Sua voz não tinha mais raiva, apenas um desprezo profundo. — Eu podia m***r esse verme agora. Seria fácil. Mas eu não vou fazer isso. Sabe por quê? Porque ele mesmo vai se m***r. Ele vai acordar amanhã e descobrir que não é nada. Sem um p*u para te satisfazer, sem a masculinidade que ele usou para entrar na minha casa, ele vai perceber que é um lixo. Ele vai se m***r com as próprias mãos, sufocado pela própria inutilidade. Ele caminhou até a beira da cama, inclinando-se sobre a mulher que um dia pensou em proteger com a própria vida. — E você... você vai passar o resto dos seus dias olhando para as cicatrizes dele e se lembrando deste momento. Você vai carregar a culpa da destruição dele e da sua própria vida nas costas. Você vai apodrecer por dentro, Jamile, porque é exatamente isso que você merece. Uma vida de sombras em uma casa que agora cheira a castração e traição. Sem olhar para trás, Santos saiu do quarto. Ele caminhou pelos corredores da casa que ele mesmo construíra, cada passo ecoando o vazio de sua alma. Aqueles anos de dedicação, de sonhos compartilhados e de esforço não significavam absolutamente nada agora. Enquanto cruzava o portão de ferro e voltava para a escuridão da rua, ele sentiu que a parte de si que ainda acreditava em algo além do crime havia ficado naquela cama, morta e mutilada junto com o amante de sua esposa. Ele agora era apenas um soldado de Cael, pronto para queimar o mundo, começando pelas suas próprias lembranças. O carro arrancou, deixando para trás os gritos de Jamile e o silêncio de morte de um lar que nunca existiu de verdade. Santos estava livre da prisão de pedra, mas sabia que, a partir daquela noite, ele habitaria uma prisão muito mais sombria: a de sua própria consciência devastada
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