As Consequências

1629 Words
Março de 2019 Eu estava com 16 anos. As coisas haviam mudado bastante. Eu morava apenas com minha mãe e com meu irmão. Nunca mais tive nem notícias do meu pai e nem queria, tinha muito ódio dele, nunca consegui esquecer e nem perdoar nada do que ele me fez. Quando criança, apesar dos abusos, eu o amava porque por mais que ele me machucasse e eu não entendesse o porquê ou o que era aquilo, ele ainda tinha um lado bom, me amava muito e costumava fazer todas as minhas vontades, mas para mim isso nunca foi o suficiente, eu só queria que ele me cuidasse e não me machucasse, que fosse um pai de verdade. Nunca consegui contar pra ninguém o que papai fazia comigo, me sentia muito culpada, achava que se isso havia acontecido por anos era tudo culpa minha, porque mesmo eu não querendo e sentindo muita dor, eu também não fazia nada para isso acabar, nunca consegui contar pra ninguém, ai, como eu era um lixo. Me sentia tão suja que eu tomava banho diversas vezes por dia, meu recorde foi 10 banhos em algumas horas, queria me sentir limpa, mas nunca consegui, tinha a sensação que eu estava sempre imunda, mesmo tendo recém saído do banho. Não conseguia ainda ir à praia e nem em piscinas, a menos que fosse na casa de alguma amiga e só tivesse garotas, daí eu até ia, mas mesmo assim eu não gostava muito. Odiava meu corpo, achava ele f**o, sem graça, não conseguia me ver no espelho sem sentir nojo de mim, tudo culpa daquele infeliz. Dos meus 13 anos aos 15 eu tive uma forte depressão, não queria sair da cama pra nada, só pensava em morrer, tentei suicídio várias vezes, mas minha família e a Natalie sempre estiveram do meu lado, me levaram pra fazer tratamento com psicóloga, me davam os remédios necessários, cuidaram tão bem de mim que eu acabei conseguindo me curar, mas desde que os abusos começaram eu nunca mais fui a mesma. Eu era uma criança alegre, curiosa, estava sempre feliz, mas meu ''querido papai'' me transformou numa garota triste, fria e com medo de tudo, dos homens, principalmente. Não tinha amigos, e quando eu digo ''amigos'' é apenas do s**o masculino mesmo, tinha várias amigas, mas não conseguia me dar com nenhum garoto, passei a ter medo de todos os homens, quer dizer, exceto meu irmão. A meu pedido, mamãe me colocou em uma escola onde só tinha professoras, apesar da escola ser mista, mas nunca falei com nenhum dos meus colegas e se eles se aproximassem de mim, eu saia de perto, dava um fora neles e mantinha a máxima distância. App de carro eu só pegava se fosse uma motorista, ou seja, quase nunca pegava, já que não existem muitas mulheres nesses app's. Cresci buscando distância de qualquer garoto ou homem, sentia muito medo deles, porque na minha cabeça, se meu próprio pai foi capaz de uma monstruosidade dessas, qualquer um faria o mesmo, e foi o jeito que eu encontrei pra tentar me proteger, morria de medo que isso voltasse a acontecer, não queria passar por isso nunca mais. Obviamente após tudo isso, eu nunca mais consegui ter r************l, até já tinha tentado, mas eu surtei na hora, entrei em desespero total, pois lembrei de cada segundo vivido ao lado daquele cretino, e se alguém encostasse em mim, eu já começava a chorar e ficar trêmula de tanto pavor, acho que eu nunca mais conseguiria t*****r em toda a minha vida. O único homem que eu ainda conseguia conversar de fato e ser amiga, era o Nick, pois esse eu tinha certeza absoluta que jamais faria algo tão c***l, porque ele podia ser filho daquele desgraçado, mas eu sabia que ele não era igual, pelo meu irmão eu colocava a minha mão no fogo com a certeza de que eu não me queimaria. Nicolá era meu melhor e único amigo, ele sempre esteve comigo, me apoiando e me ajudando, sempre que eu estava triste ou em crise, ele ficava do meu lado, e isso me acalmava bastante. - Oi amor. - Falei ao lhe dar um selinho. - Oi. - Disse Natalie ao me abraçar. Natalie era minha namorada a cerca de uns quatro meses. Nos conhecíamos há anos e sempre fomos grandes amigas, ela sempre pareceu me entender tão bem, sempre ficou do meu lado durante o tempo que eu estive na depressão, me deu total apoio, cuidou de mim, eu era muito grata à ela, as vezes tinha medo de confundir o que eu sentia por ela. Fomos dar umas voltas em uma praça que tinha perto da casa dela. Ficamos um pouco afastadas das pessoas para curtimos juntinhas, trocamos diversos beijos e carícias. Gostava de estar com ela, me sentia muito bem. Mamãe e Nicolá sabiam da minha relação com a Naty e nunca se importaram, gostavam dela pelo fato dela me fazer bem. Eu nunca tinha namorado antes e quando eu contei pra eles que eu estava namorando e que se tratava de uma garota, foi uma enorme surpresa para mamãe e para meu irmão, mas receberam a notícia super bem, melhor do que eu imaginava. E logo mamãe quis fazer um almoço para conhecê-la, e não deu outra, logo de cara as duas ficaram super amigas, as vezes acho que mamãe gosta mais da Naty do que de mim, porém, eu ficava muito feliz por mamãe não se importar de eu namorar uma garota, e ela dizia que só queria que eu fosse feliz. À noite, mamãe, Nick e eu estávamos jantando, quando de repente meu irmão disse: - Achei o face do papai. Mamãe e eu paramos de comer na hora, e algumas lágrimas começam a rolar pelo meu rosto, tudo o que eu vivi me veio à cabeça como um filme de terror. Escutar aquilo fez eu ter muito medo de reencontrar aquele infeliz, que era tudo o que eu não queria que acontecesse. - Conversou com ele? - Perguntou mamãe. - Ainda não. - Disse meu irmão. - Eu não quero nenhum de vocês em contato com aquele infeliz que me traiu e engravidou outra. - Falou minha mãe furiosa. Não conseguia parar de chorar e de tremer, o pavor que eu sentia dele era maior que tudo. - Mas ele é meu pai. - Falou Nick. - Ele que pensasse nisso antes de fazer o que fez, pois quando ele estava lá com outra, ele não lembrou de vocês. Sai correndo para meu quarto, tranquei a porta e me joguei em minha cama aos prantos. Chorei tanto e tanto, como queria esquecer tudo aquilo, mas acho que isso jamais aconteceria, aqueles momentos vividos não saiam da minha cabeça, tentava e tentava não pensar naquilo, não lembrar, mas era inevitável, o trauma era mais forte do que a minha vontade de esquecer, e eu acho que podia se passar 80 anos e eu ainda sentiria o toque nojento dele cada vez que eu fechasse meus olhos. Mamãe e Nick continuavam brigando na cozinha por conta daquele desgraçado que estragou a minha infância e arruinou a minha vida. Por causa daquele infeliz eu cresci com medo, insegura, cheia de problemas, nunca soube o que era ter uma infância feliz, pois ela foi repletas de abusos, dores e sofrimentos. Como pode uma criança/jovem crescer vítima de a***o s****l e ninguém perceber nada? Como mamãe nunca desconfiou? As vezes eu ficava m*l por a culpar de alguma forma, pois ela tinha que ter percebido, era seu dever me proteger, mas eu também sabia que o único culpado era meu pai, e se mamãe soubesse ela jamais teria permitido que isso continuasse, eu sei que ela daria um fim nisso, que ficaria do meu lado, pena que na época eu não pensava assim, tinha medo de mamãe ficar do lado do infeliz do Luan. Assim que minha mãe e meu irmão pararam de brigar, ele foi até o meu quarto, eu já estava um pouco mais calma. Nick entrou e eu o abracei fortemente. - Hey, o que houve? - Ele perguntou com um timbre de voz bastante suave e doce. Olhei para ele com os olhos ainda lacrimejados, queria muito contar tudo pra ele ver o mostro que é aquele filho da p**a, eu olhava e olhava para ele querendo falar, mas não conseguia, as palavras pareciam não quererem sair da minha boca, e ele amava o nosso pai, tinha medo que ele pensasse que eu estava mentindo por estar com raiva pelo que ele fez com a nossa mãe, e eu não sei o que faria se meu irmão não acreditasse em mim. - O que você tem? - Me questionou. - Não gosto de ver vocês brigando. - Falei. - Calma, já passou. - Falou Nick ao me abraçar. Por mais que eu não conseguisse ter qualquer tipo de relação com outro homem, com Nick era totalmente diferente, talvez pelo fato de sermos irmãos ou porque eu tinha certeza que ele nunca faria o que aquele desgraçado fez, Nicolá era diferente de todos os outros caras e eu tinha orgulho do irmão maravilhoso que eu tinha, nem dava para dizer que ele era filho daquele monstro. Estava dormindo quando tive outro pesadelo com aquele ser desprezível, enquanto dormia vi diversos flashback's do que eu vivi quando criança. Desde que os abusos começaram eu nunca mais consegui dormir em paz, tinha pesadelo praticamente todas as noites. Como queria poder me livrar disso tudo. Será que algum dia eu conseguiria ser feliz? Será que eu conseguiria me livrar do meu passado que tanto me assombrava e não me deixava dormir? Eu só queria ser feliz, será que era pedir muito?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD