Um Pingo De Esperança

1641 Words
- Por que o senhor faz isso? - Perguntei assim que papai deitou ao meu lado após mais uma série de abusos. - Porque eu te amo. - Respondeu com um enorme sorriso malicioso. - Mas isso é errado. - Quem te falou isso? - Minha professora. - Como é? - Perguntou rispidamente. - Você contou a ela? - Seu semblante ficou sério, parecia muito bravo. - Não, não falei nada, mas hoje ela leu um livro pra gente e nos ensinou quais são os toques de carinho e quais não são. E o jeito que você me toca pode ser tudo, menos carinho, e eu não gosto disso. - Sua professora é uma boba e não sabe o que diz, com certeza ela nunca teve um amor assim como o nosso, tão puro, bonito e genuíno, não dê ouvidos a ela. - Falou papai. Fiquei um pouco pensativa, não sabia quem estava falando a verdade, eu me sentia tão confusa, era um misto de sensações e sentimentos, não sabia direito o que sentir, o que pensar... O livro havia feito eu pensar que aquilo tudo era errado, mas papai me amava tanto, não conseguia acreditar que ele faria algo errado para me machucar, ou por que ele ia querer me machucar? Isso não fazia sentido para mim, os pais deviam proteger seus filhos, e não machucá-los. Maio de 2015 Eu já estava com 12 anos. As coisas não haviam mudado muito, papai ainda seguia me abusando, e nisso os abusos já duravam cerca de 8 anos, sim, 8 anos de tortura, 8 anos que eu era vítima de um dos piores crimes que um ser humano pode cometer, e eu só queria entender como um adulto pode ter coragem de algo tão c***l sem se importar com as sequelas que vai deixar pra sempre na vida daquela criança, pois por conta dele eu nunca fui uma criança e uma adolescente normal. Nessa idade eu já sabia que aquilo era crime, e que era errado. Aos 12 anos eu já tinha um pouco de peito e meus pelos pubianos estavam nascendo. Passei a ter muita vergonha e nojo do meu corpo, não conseguia me olhar no espelho nua, sentia um tremendo nojo do que eu via, e tudo culpa dos abusos que eu sofria por parte do meu querido pai. Eu não ia à praia por vergonha do meu corpo, não queria que as pessoas me olhassem do jeito que meu pai me olhava, acho que a última vez que eu tinha ido à praia foi quando eu tinha uns 7 ou 8 anos, e porque meus pais iam e me obrigavam a ir junto, e eu não tinha muita escolha. Acho que foi mais ou menos por aí que passei a ter muita raiva do meu pai, quando criança ainda o amava, mas chegou a um ponto que eu não conseguia mais amá-lo, na verdade, acho que todo amor que um dia eu senti por ele, havia se transformado em raiva e nojo. Já haviam se passado 8 anos desde que tudo começou e eu só queria que as coisas acabassem, queria que tudo tivesse um fim, não aguentava mais aquilo, não aguentava mais aquela vida que eu vivia desde os 4 anos, queria contar pra alguém, falar o que me acontecia, mas papai fez eu acreditar que me chamariam de mentirosa e eu tinha medo disso, de sair como a mentirosa da história, e eu jamais mentiria algo assim, e nem tinha motivos pra isso. - Posso entrar? - Perguntou Nicolá ao abrir vagarosamente a porta do meu quarto. - Claro. - Falei ao olhar para ele com os olhos lacrimejados. Nick sentou em minha cama, ao meu lado e me abraçou fortemente, o que fez eu esboçar um pequeno sorriso, era como se ele soubesse o quanto eu estava precisando desse abraço. - O que aconteceu? - Ele perguntou como se soubesse que eu não estava bem. Olhei pra ele e a vontade de contar tudo era enorme, mas eu não conseguia e me sentia muito m*l por isso, pois eu confiava no meu irmão, ele era a pessoa que eu mais confiava no mundo, e sempre foi assim. Mas eu não consegui, então apenas o abracei e chorei, chorei muito. Nick me abraçou fortemente e ficou ali comigo. - Quer me contar o que houve? - Perguntou. Eu queria, e queria muito, era a coisa que eu mais queria na vida, mas eu simplesmente não conseguia, era como se as palavras não saíssem, eu pensava em dizer toda a verdade, mas não conseguia por pra fora, eu travava e gelava cada vez que pensava em contar tudo para alguém. Então, neguei com a cabeça e Nick apenas ficou abraçado em mim, nunca entendi por que ele não insistiu, mas acho que ele quis respeitar meu momento, como se soubesse que eu estava precisando daquilo. Meu irmão dormiu comigo naquela noite, e aquilo me fez tão bem, me acalmou bastante, e eu sabia que se papai fosse ao meu quarto naquela noite, ele não me faria nada e voltaria para seu quarto, afinal, ele não me machucaria com meu irmão ali, sei lá, me senti tão segura e protegida ao lado do Nick, fazia muito tempo que eu não dormia tão bem como naquela noite. Vi papai abrir a porta levemente, Nick já estava dormindo. Papai nos viu deitados e eu lhe dei um sorriso vitorioso, pois sabia que naquela noite ele não me faria novo. Ele fez uma expressão brava e saiu cautelosamente. No dia seguinte, meu irmão e eu acordamos com uma briga terrível dos nossos pais, acho que eu nunca tinha visto eles brigarem daquele jeito, geralmente eles tinham leves discussões, mas nunca era nada demais, só que dessa vez parecia ser diferente, e a gente não sabia o que estava acontecendo, mas o que eu não podia imaginar era que o pesadelo estava prestes a acabar para sempre. Nisso escutamos barulho de coisas quebrando, e muitos gritos, mamãe parecia furiosa, e papai tentava se explicar, parecia ter feito algo de errado, por um momento pensei que mamãe pudesse ter descoberto o que ele fazia comigo, mas infelizmente eu estava errada. Nick e eu estávamos muito assustados com a briga dos nossos pais, e apenas nos abraçamos e ficamos ali até a briga acabar. Umas 2h depois mamãe foi até o meu quarto e disse ainda furiosa: - Arrumem suas coisas, estamos indo embora dessa casa. Embora pra sempre. Nick e eu nos olhamos sem entender nada, mas obedecemos a ordem. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo, mas me senti tão feliz, me deu um pouco de esperança de me livrar daquele pesadelo que eu vivia diariamente há 8 anos. Eu não pensei duas vezes, peguei minha mala e comecei a colocar todas minhas roupas dentro, eu não sabia direito o porquê, mas estava tão feliz, era uma felicidade que eu não sentia há muito tempo, era como se a partir daquele dia eu fosse estar livre, como se papai nunca mais fosse me machucar, e graças a Deus eu estava certa, o pesadelo havia chegado ao fim, os abusos e as noites m*l dormidas haviam acabado. Mas ao mesmo tempo, não estava contente de ver minha mãe chorando, ela era uma pessoa boa não merecia sofrer. Arrumamos tudo e saímos de casa, papai não estava, eu não sabia o que havia acontecido, talvez ele tivesse saído para esfriar a cabeça, sei lá, mas fiquei feliz dele não estar em casa. Fomos pra casa da minha avó, mãe da minha mãe, lá a nossa mãe nos contou tudo o que tinha ocorrido. Ela disse que tinha descoberto que papai estava a traindo e que a mulher com quem ele estava havia engravidado, por isso ficaríamos morando por uns tempos na casa de minha avó. Por um lado, eu estava com muita dó da minha mãe, pois ela estava sofrendo muito com toda essa situação com nosso pai, mas por outro lado, eu estava tão feliz por saber que agora ele não poderia me machucar mais, e isso até me deixava um pouco m*l, pois a minha alegria era a tristeza da minha mãe, e acho que isso não era certo. Tive tanta vontade de chorar, mas chorar de felicidade, senti que o pesadelo havia acabado, que eu estava livre, livre para sempre, meu sonho havia se realizado finalmente, eu não seria mais abusada, só ficava um pouco chateada por ele não ter sido preso por tudo o que ele fez comigo, pois me assustava o fato dele seguir solto, pois ele poderia vir atrás de mim, ou até me s********r para continuar me abusando, e eu morria de medo disso. Nick ficou triste por tudo que havia acontecido entre nosso pais, e ele amava muito o papai, e eu não o culpava por isso, afinal, o nosso pai sempre foi muito bom pra ele, e nunca fez com o meu irmão tudo o que ele fez comigo, Nick só tinha boas lembranças com aquele homem, ah, mas eu estava radiante de tanta felicidade, era tanta alegria que não cabia em mim, era uma felicidade imensa que eu não conseguia nem descrever. Os abusos haviam chegado ao fim, finalmente. A partir desse dia nunca mais tive contato com meu pai, mamãe havia nos proibido de falar com ele, pois não queria ter que olhar para cara do nosso pai, e se ela permitisse que ele nos visse, os dois acabariam se encontrando, o que era tudo que a minha mãe não queria, pois ela estava muito magoada com ele, na verdade, não sei se era apenas mágoa. Mas, eu estava muito feliz por não ter que vê-lo mais, a minha vontade era de agradecer a minha mãe por ter me livrado das garras dele.
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