Do que tem medo?

3021 Words
Penélope se arrumou com esmero para a exposição do namorado. As curvas se destacando no vestido vinho que chegava pouco abaixo dos joelhos; o cabelo preso em um coque frouxo com alguns fios soltos ao lado da face perfeitamente maquiada. Só não conseguiu arrumar o conflito interno. Pegou uma taça de champanhe, distribuídas no evento, e caminhou devagar pelo salão, observando, sem prestar atenção, aos quadros dispostos nas paredes brancas da elegante galeria. As pinturas de Lucas, o trabalho do homem que deveria ocupar sua mente no lugar dos Freitas. Tinha que procurar o namorado e suas amigas, mas as palavras de Roberto, e a curta conversa com Diego, rodopiavam em sua mente como um filme sem fim. Sorveu um pequeno gole de sua bebida, o pensamento fixo no que poderia acontecer de manhã. Temia o que Roberto planejava para o futuro dela e de Samuel. Seja lá o que definisse, só esperava que Roberto cumprisse com a palavra e a lhe desse a guarda de Samuel. Desejava escapar da mansão Freitas, se livrar do passado e formar um lar com seu pequeno. Parou em frente a pintura de perfil de um homem. As variações de branco e pretto tornavam o semblante dele frio. Tinha a impressão que a qualquer momento ele viraria com uma ordem ou comentário sarcástico. Um Freitas colocando-a em seu “devido lugar”. Por isso não conseguia parar de fitá-lo? Porque lhe lembrava Diego? Tomou outro gole, os olhos fixados na pintura. A imagem não a perturbava, nem o tratamento recebido horas antes, o que a incomodava era o contraste o Diego de agora e o do passado. ~*~ Após o susto na boate, as três juraram nunca mais pisar os pés no Artêmis, estendendo o juramento para a fábrica Freitas & Mendez. Arquitetaram mentalmente modos de fugas para o caso de topar com Diego em Cezário. Não se preocuparam com os Mendez. Enrique não as reconheceria, por estar embriagado quando as encontrara. Prova disso foi que a mãe de Jéssica, na tarde seguinte, ordenou a trêmula filha a atendê-lo e, para alívio da jovem, Enrique nem sequer a notou. Uma parte de Jessi, a apaixonada pelo rapaz, até ficou chateada. As primas deles também não eram um problema. Ao servir a mãe de Enrique na cafeteria, Jéssica conseguiu a informação de que as jovens moravam na capital e vinham para o interior em raros encontros familiares. Restava as três evitarem o filho mais novo de Roberto. O que não parecera complicado. A propriedade Freitas ficava próxima à fábrica, no limite da cidade, em uma mansão rodeada por muros altos. Nenhum dos Freitas fazia questão de passear entre os comuns habitantes de Cezário. Tudo o que precisavam pediam a seus empregados. Roberto vivia do trabalho para casa. O filho mais velho, Luiz, não era diferente, só acrescentava, segundo fofocas, algumas noites de divertimento na capital longe dos olhos da esposa. Com certeza o mais novo trilharia o mesmo caminho. Tudo perfeito. Probabilidade mínima de reencontrá-lo antes que fossem manchas na memória temporária, apenas pessoas sem importância. Só não contavam com um detalhe: O desejo de Diego em rever Penélope. Após duas noites aguardando a volta de Penélope, Diego utilizou a amizade com o dono da Artêmis e o nome dado por Ana para alcançar seu propósito, conseguindo a informação de que Pedro, o novo DJ, pediu os crachás VIPs para a namorada e suas amigas. Assim que Pedro terminou o serviço na boate, Diego o abordou e pediu o telefone de Penélope. Ciente que se descobrissem a idade da jovem perderia o emprego, Pedro se negou com a desculpa de que não sabia. Persistente, Diego o convenceu a pedir para Ana ajudá-lo a encontrar Penélope. Com medo das mentiras serem descobertas, a princípio, Penélope se negou a encontrar Diego. Só que Ana choramingou tanto em seu ouvido que o namorado perderia o emprego, que terminou por aceitar. Não se perdoaria se um inocente se prejudicasse por sua causa. Seu ponto fraco era a consciência. No dia combinado, empapou o rosto de maquiagem, para parecer mais velha. O humor piorando a cada pincelada de sombra, blush e produtos que Ana lhe aplicava, que a deixaram com um visual gótico reforçado pelas roupas pretas. Logo o ódio por si mesma tornou-se maior que o medo. Se tivesse ficado em casa, em vez de bancar a adulta, jamais estaria nessa enrascada. Foi de má vontade, sendo categórica ao combinar de encontrá-lo em uma lanchonete na zona leste da capital, um ponto estratégico de fuga ao lado da casa de Pedro. Também era um jeito de fazer o Freitas se arrepender do convite. Bairro pobre, estabelecimento decaído e uma jovem, toda de pretto, determinada a esnobar qualquer avanço. Fácil. Pelo menos até ele aparecer lindo e sexy em uma calça jeans e camiseta branca, o cabelo desgrenhado pelo vento convidando os dedos dela a arrumá-lo. Quando os escuros se fixaram nela, Penélope teve a sensação de ser capturada pelo magnetismo dele. Engolindo em seco, cruzou os braços em frente ao corpo. Resistiria bravamente aquele dia, mesmo que uma parte de si pulasse de vontade de se jogar nos braços da oportunidade. — Não queria vir, mas como chantageou o Pedro... — acusou quando ele sentou a sua frente. — Não chantageei — ele negou. — Usei minha influência. — Tem diferença? — questionou fingindo-se de irritada. — Não. — Ele sorriu de canto. Um sorriso sedutor que, vencendo a impossibilidade, o deixou ainda mais lindo e a fez estremecer de leve. — Mas consegui o que queria... ou quase — ele acrescentou olhando-a intensamente. — Isso — Girou um dedo no ar para indicar o lugar — é tudo que terá de mim. — Nesse caso, aproveitarei cada segundo ao seu lado, Penélope. Como é que ele fazia para que seu nome soasse como uma carícia? Suspirou, fascinada com a voz grave e segura. Não era o primeiro cara com quem saia, mas era o primeiro que fazia seu corpo arrepiar só de ouvir sua voz. O brilho de contentamento no olhar dele a fez parar de babar e voltar à realidade. Empertigou o corpo e pegou o folheto com o menu da lanchonete. — Você vai pagar — informou percorrendo com os olhos a fileira de lanches, a procura da combinação mais cara, enquanto ressaltava: — Nem queria vir. — Já me disse. Ergueu o olhar do papel encontrando com o dele. Era impressão ou ele se divertia em vez de se zangar? Fizeram os pedidos. Diego só quis uma xícara de café. Penélope pediu um sanduíche duplo, x-burguer, batatas fritas e uma garrafa de refrigerante. Única forma de sair caro, embora não o suficiente, pois Diego não demonstrou preocupação com o valor, nem com o tanto de comida pedido por ela. — Do meu bolso não sairá uma nota sequer — disse quando o garçom se afastou com o pedido. — Estou atraído por uma sovina — ele murmurou em um falso lamento. Apoiando um cotovelo na mesa, encaixou o rosto na mão. — Deixe-me adivinhar. Escolheu esse lugar para contenção de gastos? — Não aprova a minha escolha? — Desaprovo fastfood — respondeu, explicando em seguida: — Comida gordurosa não me agrada. — E mesmo assim aceitou me encontrar aqui? — Presumi que não tinha opção. — Deu de ombros. — Na próxima vez eu escolho. — Não haverá próxima vez. — Veremos. — É sempre tão confiante? — Sempre — confirmou olhando-a profundamente. — Graças a minha confiança, mesmo não querendo, você está aqui. Ele sorriu e o coração de Penélope bateu acelerado. Malditos hormônios que explodiam ao ganhar a atenção de um homem bonito. Tinha que controlá-los, tinha que se controlar. Ele podia ser lindo, charmoso e ter um sorriso que deixava suas pernas bambas, mas ela resistiria. No fim do dia estaria a salvo em sua casa e nunca mais cruzaria o caminho dele. Seria forte, o emprego de sua mãe e dos pais de suas amigas estava em jogo. — Do que tem medo? — A pergunta de Diego a pegou de surpresa. Ele a analisou por alguns segundos antes de comentar: — Desde que cheguei você me come com os olhos e me repele com as palavras. — O quê?! Não estou comendo... — Está. E eu estou em relação a você. — Você é tão direto — murmurou envergonhada e, para aumentar sua vergonha, encantada pela franqueza de Diego. — Não tenho dificuldade em admitir quando desejo alguém. — E me deseja? — questionou em dúvida, sem acreditar, mesmo depois da persistência em encontra-la, que atraíra a interesse dele. — Desde que te vi dançando no Artêmis — ele confessou com a voz rouca, os olhos se fixando desejosos nos lábios pintados de pretto. A resposta a deixou boquiaberta e desconfiada. — Você me seguiu até o balcão?! Ele negou. — Estava no balcão o tempo todo, observando meu amigo e suas primas dançando, quando a vi. — Diego esticou a mão e tocou a face de Penélope. — Não consigo te tirar da minha cabeça — confidenciou com o olhar ardente fixo no dela. Nem a chegada do lanche enorme tirou Penélope do encantamento dos olhos escuros. ~*~ Tinha sido uma jovem ingênua, cega pela beleza e galanteios de um homem, recordou Penélope com desgosto. Diego transpirava poder e sensualidade, seu toque - até o mais sutil - a arrepiava da cabeça aos pés, e seu olhar a deixara cativa. Foi educado, inteligente, o oposto dos caras de sua idade e, ao final do encontro - esquecendo seu propósito inicial - prometeu encontrá-lo dias depois. Com o passar dos dias o encantamento deu lugar ao amor. Tola, pensou que o desejo de Diego também se transformara em um sentimento mais profundo, caindo nas malhas do destino, cujas consequências só lhe causaram – e causavam – sofrimento. — Amor! Sobressaltou-se ao ter a cintura envolvida pelo abraço de Lucas. Não percebendo a tensão que a dominava, ele a beijou rapidamente nos lábios e a conduziu em direção a dois homens e uma mulher. — Venha! Quero lhe apresentar a uns amigos. Penélope se deixou levar. Sorriu, conversou e ouviu tudo com a mente dispersa. Nada que os demais notassem. Como namorada do artista só lhe era exigido aparecer ao lado dele com um belo sorriso. Lucas precisou conversar em particular com um possível comprador e Penélope aproveitou para procurar as amigas. Encontrou as duas em frente à pintura de uma fênix. Jéssica com um discreto conjunto de saia até os tornozelos e blusa de manga cumprida, ambos na cor branca, e Ana em um longo e apertado vestido tomara que caia azul. — O que acham? — perguntou ao se aproximar delas. — Escuro... — respondeu Jéssica, observando os contornos da ave em pretto e branco. — Eu conseguiria fazer uma melhor... Pelo menos mais colorida — comentou Ana recebendo um olhar descrente das amigas. — É igual aquelas obras do Alex — continuou a amiga, torcendo com desdém os lábios pintados de vermelho, lembrando-se das esculturas do irmão mais velho. — Não entendo como aquilo pode ser considerado arte. — E do Marcos? Nenhum comentário ferino? — Penélope questionou, observando a amiga pousar uma taça vazia na bandeja de um dos garçons e retirar outra cheia. — Ah, querida! A obra do Marcos que me interessa está bem guardada na calça e espero vê-la hoje à noite. Jéssica engasgou com o champanhe, imediatamente vermelha até abaixo do pescoço. — Pensando na obra do Enrique, Jess? — Ana brincou. — Ana! — O quê? — Ana bebericou seu champanhe e olhou curiosa para Penélope. — E você. O que aconteceu na mansão? Além de o Diego ser um nojento com você. Penélope suspirou. Queria tanto evitar aquela conversa, esquecer que Diego a humilhara na frente da amiga. — Não tenho nada a dizer. — Ainda sente algo por ele? — Ana perguntou atenta a reação da amiga. De tarde, após Diego ofender a mãe de Penélope, apesar de ser secretária de Penny, a governanta não a deixou falar com a amiga, justificando que era melhor dar tempo para a jovem. Agora era sua oportunidade de confirmar que o motivo do nervosismo da amiga durante toda a semana era o retorno de Diego. — Indiferença — Penny respondeu dando de ombros. — Tem certeza? — persistiu Ana não acreditando na apatia da amiga. — Claro! Namoro o Lucas agora. — Que é muito parecido com o Diego — comentou, recebendo um olhar contrariado de Jéssica. Vendo a confusão na face da amiga, Jéssica segurou sua mão para transmitir solidariedade. — Ele ficará por pouco tempo — recordou. Essa era a esperança de Penélope. Que ficasse livre de Diego em poucos dias. No entanto, com a saúde debilitada, Roberto poderia pedir ao filho que ficasse por mais tempo. Talvez fosse sobre isso que conversaria com eles. Lucas voltou a se juntar a ela naquele momento. — Amor, desculpe-me por deixa-la sozinha. — Ah, obrigada por me transformar em ninguém — reclamou Ana conseguindo um olhar atravessado de Lucas. — Pelo seu tom de voz, presumo que bebeu demais. Sem se preocupar com quem visse, Ana lhe mostrou a língua. Contendo a vontade de rir do comportamento da amiga, Penélope garantiu ao namorado: — Não se preocupe comigo, compreendo a importância dessa exposição para você. — Não tanto quanto você amor — disse beijando a mão da namorada. Caso não estivesse preocupada com o que aconteceria na manhã seguinte, Penélope apreciaria o gesto, porém, naquele momento, só conseguiu esbouçar um pequeno sorriso. — E o Marcos? Onde ele se escondeu? — quis saber Ana chamando a atenção de Lucas para os outros artistas, também expostos na galeria. — Desde que chegamos, ele sumiu. — Também não o vi. Nem o Alex — Lucas confessou envolvendo a cintura de Penélope em um abraço apertado. — Devem estar discutindo sobre arte em algum canto — supôs dando de ombros. Ana bufou, a massa de ar movendo a franja loira que deixara caída sobre o lado direito da face. — Entediada, senhorita Vieira? Penélope observou a amiga respirar fundo, colocar o maior – e mais forçado – sorriso na face antes de virar-se para seu maior desafeto, Robson Gomes, primo de Marcos e sócio da galeria. — Prazer em revê-lo também, senhor Gomes. Ele sorriu minimamente. — Posso ver em seus olhos que não tem tanto prazer assim. — Ah, perdoe esses pequenos diamantes por transparecerem o que não deveriam. — Diamantes? Assemelham-se mais a safiras. — Mas não são — Ana retrucou deixando de lado o entusiasmo fingido. — Viu o Marcos? — Está discutindo o conceito de arte com o Alex. Penélope achou a resposta muito padronizada com o que Lucas dissera. No entanto, era de conhecimento geral que as discussões dos amigos artistas eram frequentes, prolongadas e os fazia esquecer o que os rodeava, e no fim nunca entravam em um consenso. — Onde estão? Ele demorou a responder, parecendo em dúvida, ou, o mais provável na opinião de Penélope, testando o limite da paciência de Ana. Os dois viviam duelando com palavras e gestos. — Aproveite a exposição — ele respondeu desviando o olhar para uma das telas de Lucas. — Daqui a pouco eles aparecem. — Não quero daqui a pouco. Fale logo! — Ana! — Penélope colocou a mão no ombro da amiga. — Robson tem razão. Sabe como aqueles dois são quando discutem. Ana empinou o nariz e se distanciou com passos pesados. — Ana é muito petulante — reclamou Lucas. — Ela só se chateou por Marcos ter a abandonado aqui — defendeu Penélope, ciente que o namorado evitava criticar o outro na frente de Robson. — A entendo — Robson comentou ainda observando Ana se afastando deles. — Meu primo anda disperso com o que é prioridade desde que compramos a galeria. Penélope achou impressionante que Robson, que sempre trocava farpas com Ana, justificasse o comportamento dela e reprovasse o do primo. Talvez ele não a odiasse como sua amiga imaginava. O restante da noite foi exaustivo. Apesar de só ter que sorrir, cumprimentar e interagir, não conseguia prestar atenção no que lhe diziam. Ser namorada de um artista não a tornara expert no assunto, mas as pessoas achavam que era obrigada a ouvir sobre traços, texturas, luminosidade com a mesma capacidade de compreensão de Lucas. Fingir admirar o conhecimento delas não estava fácil. Quando Marcos e Alex apareceram, Ana acabou em uma discussão acalorada com o namorado e Penélope não hesitou em largar uma senhora, admiradora de Lucas, falando sozinha para ajudá-la. Robson também foi apartar o casal, conduzindo-os para fora da galeria. Ana estava tão irritada que aceitou a carona oferecida pelo Gomes, e Penélope aproveitou para ir junto. — Amor, ainda tenho algumas coisas a resolver. — Pode ficar. — Queria levá-la para a minha casa depois da exposição. Faz dias que não ficamos sozinhos — Lucas reclamou envolvendo-a em um abraço, que só piorara o humor da Teixeira por atrasar sua partida. Ele tocou sua face de leve e se inclinou para sussurrar: — Sinto saudade de dormir e acordar ao seu lado. Em outro dia acharia o convite maravilhoso, mas tinha tantos problemas rodando sua mente que se afastou delicadamente do namorado. — Hoje não. Ele crispou a testa, confuso pela rejeição. Porém, logo seu rosto voltou a ficar sereno. — Entendo. É por causa do Freitas, não é? — Penélope ficou tensa e confusa quando ele disse compadecido: — Aquele safado está abusando da sua boa vontade. — Do que está falando?! — Do Roberto, que te mantém presa naquela mansão. — Ah...! Não é culpa dele, apensa estou com dor de cabeça. — Desviou o olhar, sentindo-se m*l por mentir. — Não consigo apoiá-lo como merece. Tenho que ir. O beijou rapidamente no rosto e saiu apressada em direção ao carro de Robson. Precisava de uma longa noite de sono para acalmar seu coração, e se preparar para tolerar Diego durante o que esperava ser uma curta estadia na mansão.
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