Capítulo 07

1838 Words
Rafaela narrando Eu precisava sair daquele quarto. Precisava descer, precisava reagir, porque se eu demorasse mais alguns minutos ali dentro meu irmão ia começar a me gritar pela casa inteira e eu não estava com cabeça nenhuma para lidar com aquilo naquele momento. Meu coração ainda estava acelerado de um jeito absurdo, minhas mãos continuavam úmidas e o ar parecia pesado dentro do quarto, como se a presença dele ainda estivesse ali impregnada em cada canto daquele lugar. Eu comecei a arrumar a cama com as mãos tremendo, esticando o lençol, ajeitando o travesseiro, tentando focar em alguma coisa prática que me obrigasse a voltar para o mundo real, porque se eu deixasse minha cabeça continuar rodando em torno do Fantasma eu ia acabar enlouquecendo sozinha ali dentro. Troquei de roupa devagar, colocando a mesma roupa que eu tinha usado quando cheguei na casa do meu irmão na noite anterior, ajeitei tudo no quarto como se aquilo fosse algum tipo de ritual para recuperar o controle de mim mesma e respirei fundo umas trinta vezes antes de finalmente criar coragem de sair dali. Antes de abrir a porta, peguei o celular e mandei uma mensagem de bom dia para o meu pai, mesmo sabendo que ele não ia responder. Hoje era o dia exclusivo da minha mãe, o dia em que ela ficava lá no Mato Grosso com ele dentro do presídio, então nessas horas ele praticamente desaparecia do telefone e só voltava a falar com a gente quando ela saía da visita. Mesmo assim eu mantinha a rotina que sempre tive com ele, porque aquela rotina era o que mantinha a nossa ligação viva apesar da distância absurda que separava a nossa família. Mandei uma foto minha para ele, como faço todos os dias, dizendo que estava na casa do Thor, que estava tudo bem, que eu estava tranquila por aqui. Era quase automático já, uma forma de tranquilizar o velho mesmo quando ele não estava olhando o telefone naquele momento. Quando eu finalmente abri a porta e desci para a sala e ouvi a palavra pagode saindo da boca do meu irmão, meu amor, aquilo soou como a desculpa perfeita para eu não voltar para a favela naquele dia. A última coisa que eu queria era voltar para casa sabendo que o Fantasma provavelmente estaria por lá também, circulando pela boca, aparecendo em qualquer canto e me olhando daquele jeito que ele me olhou minutos antes. Só que ao mesmo tempo eu também não queria que aquela peste ficasse ali no morro do meu irmão. Ele tinha um milhão de mulheres para comer lá na favela onde a gente mora, tinha as piranhas dele espalhadas em cada esquina daquele lugar, tinha todas aquelas mulheres que viviam penduradas nas motos dele esperando um olhar, uma atenção, qualquer migalha que ele resolvesse dar. Então por que diabos ele tinha que ficar ali? Por que ele não aproveitava o pagode na favela dele, cercado das mulheres dele, das putas dele, das piranhas dele lá da casa do c*****o? Ver ele ali já era suficiente para bagunçar a minha cabeça, então se ele achava que ia me infernizar naquele dia inteiro… então tudo bem. A gente ia ver quem ia sair infernizado naquela história. Os dois começaram a falar entre si, principalmente meu irmão, que já veio cheio de gracinha sobre o cheiro de homem que ele disse que sentiu em mim na noite anterior. O ciúme do Thor sempre foi uma coisa quase patológica quando se tratava de mim, uma implicância absurda que às vezes me fazia querer dar na cara dele. Aquela palhaçada de querer me controlar como se eu fosse uma adolescente sem juízo já estava começando a me cansar profundamente. Eu não entendia o que acontecia com os homens da minha família, porque todos eles tinham essa mania irritante de querer mandar em mim como se eu fosse uma criança irracional incapaz de tomar minhas próprias decisões. Meu pai, meu irmão, o Fantasma… cada um do seu jeito tentando colocar rédea na minha vida. Eu já estava de saco cheio daquilo. Então eu simplesmente saí dali batendo a porta, deixando os dois falando sozinhos na sala e praticamente mandando eles dois irem para a casa do c*****o dentro da minha cabeça. Entrei no meu carro e decidi ir para a minha casa buscar uma roupa melhor para o pagode, porque se eu fosse ficar ali no morro do meu irmão pelo menos eu queria estar arrumada do jeito que eu gostava. Mas no fundo, se eu fosse ser honesta comigo mesma, eu sabia que aquela saída repentina tinha outro motivo muito mais simples e muito mais difícil de admitir: eu só queria fugir de perto do Fantasma. As palavras dele continuavam ecoando dentro da minha cabeça enquanto eu dirigia, aquela pergunta que ele quase respondeu, aquele jeito que ele falou comigo dentro do quarto, aquela tensão absurda que existia entre nós dois naquele momento. Eu ficava imaginando mil coisas, criando teorias absurdas dentro da minha mente, tentando entender o que exatamente ele quis dizer sem dizer. Eu queria muito estar maluca, queria acreditar que era tudo coisa da minha cabeça, mas parecia que não era. O jeito que ele falou, a forma como as palavras saíam da boca dele, a forma como ele me olhava… tudo era diferente, estranho, carregado de alguma coisa que eu não conseguia definir. E eu tinha medo da direção que a minha imaginação poderia tomar se eu deixasse aqueles pensamentos crescerem demais. Assim que cheguei em casa fui direto para o banheiro, decidida a tomar um banho premium daqueles que a gente toma quando quer se sentir outra pessoa depois. Um banho Pro Max mesmo, como o Thor vive falando quando zoa comigo. Lavei meu cabelo com calma, fiz esfoliação na pele, me depilei, cuidei de cada detalhe do meu corpo como se aquilo fosse uma espécie de terapia silenciosa para reorganizar meus pensamentos. Aproveitei para clarear os pelos da perna, que eu adoro deixar loirinhos, porque eles brilham na luz e destacam ainda mais a minha pele. Não é porque eu sou gorda ou porque dizem que eu estou fora dos padrões que eu deixo de me cuidar. Muito pelo contrário, eu sou uma mulher extremamente vaidosa e sempre fui. Eu adoro me arrumar, adoro cuidar de mim, adoro olhar no espelho e me sentir bonita do jeito que eu sou. Meu sonho sempre foi colocar um bocão daqueles que a gente vê nas redes sociais, sabe? Aqueles lábios volumosos que algumas meninas fazem com preenchimento. Eu acho lindo. Já pensei nisso mil vezes. Só que minha mãe sempre falou tanto na minha cabeça que eu não preciso mexer na boca que aquilo acabou ficando como um medo dentro de mim. Ela diz que minha boca já é bonita, que não tem necessidade nenhuma de inventar moda, e eu também vejo tantos relatos de gente que faz procedimento e depois dá merda que às vezes eu fico com receio de arriscar. Agora botox… meu amor, botox já está até agendado, porque cuidar da pele e se sentir bem consigo mesma está em primeiro lugar sempre, independentemente do número da roupa que eu visto. Saí do banheiro com uma toalha enrolada no corpo e outra no cabelo para secar a água enquanto caminhava até o meu closet pensando na roupa que eu ia usar. Eu sempre gostei de me vestir bem, mas nunca vi problema nenhum em ser provocante quando eu tenho vontade. As pessoas têm essa mania ridícula de achar que porque uma mulher está acima do peso ela tem obrigação de se esconder dentro de roupas largas, de se cobrir inteira como se o corpo dela fosse alguma coisa errada que precisa ser escondida. Eu nunca tive essa necessidade. Talvez porque eu sempre fui muito bem resolvida comigo mesma, talvez porque minha autoestima realmente seja alta, como meu irmão vive dizendo. Eu me visto do jeito que eu quero, com o que eu tenho vontade, porque no final das contas o que define uma mulher não é a roupa que ela usa e sim a postura que ela tem quando entra em um lugar. E nisso, modéstia à parte, eu nunca deixei a desejar. Escolhi uma minissaia de poliamida branca, daquelas bem curtinhas mesmo, que param acima da metade da coxa sem pedir licença para ninguém. Combinei com um corselet azul bebê estampadinho, com uma renda delicada na parte de cima que destacava meu colo de um jeito lindo. Peguei um salto alto azul tipo jeans, daqueles de salto grosso que são altos de verdade, porque eu adoro o jeito que minha postura muda quando estou em cima de um salto bom. Coloquei uma calcinha micro, porque qualquer calcinha em mim já vira micro automaticamente, e eu odeio calcinha que cobre demais a b***a e marca na roupa. Sempre preferi fio dental mesmo, porque fica muito mais confortável e muito mais bonito na roupa. Depois de vestida fui escolher meus acessórios. Peguei o cordão de ouro que meu pai me deu no meu aniversário de dezoito anos, uma corrente delicada com um pingente em forma da letra R todo cravejado de diamantes. Quando eu digo que minha família tem dinheiro eu não estou exagerando, não. No meu aniversário ele me deu o carro, a casa, o cordão… tudo. Minha mãe me deu um iPhone novo e meu irmão apareceu com um notebook de última geração porque eu ia começar a faculdade. Mimada eu sou mesmo, e não faço questão nenhuma de fingir que não sou. Separei também algumas pulseiras finas de ouro que eu gosto de usar juntas, delicadas, nada exagerado, e escolhi um brinco pequeno porque nunca fui fã de brinco grande demais. Antes de colocar os acessórios eu sequei o cabelo com calma. Meu cabelo é longo, chega quase na b***a, então dá um trabalho absurdo cuidar dele, mas eu gosto de deixar ele bonito, bem arrumado. Depois passei iluminador nas pernas para destacar os pelinhos loiros que eu tinha acabado de clarear, passei também nos braços e no colo para dar aquele brilho bonito na pele. Fiz minha maquiagem com calma, destacando os olhos, deixando a boca mais natural, e quando terminei eu me olhei no espelho e sorri satisfeita com o resultado. Eu estava pronta. Estava linda. E se o Fantasma queria me irritar naquele dia, ele ia conhecer o capeta em pessoa. Porque quando se trata de provocar… eu também sei jogar muito bem esse jogo. Eu sabia que o Thor ia arrumar confusão por causa da minha roupa, que ele ia reclamar, xingar, dizer que aquilo não era roupa para sair no meio da favela cheia de homem. Mas a verdade é que o que eu mais queria ver naquele momento era a reação do Fantasma quando ele me visse daquele jeito. Porque se ele achava que podia brincar comigo… ele ainda não tinha visto nada. Aquela conversa não tinha acabado, e a minha roupa era exatamente a minha resposta pro surto dele…
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