Capítulo 06

2084 Words
Fantasma narrando Eu saio do quarto dela como se alguém tivesse colocado fogo dentro do meu peito, passando a mão no rosto várias vezes enquanto desço o corredor tentando respirar direito, mas parece que o ar não entra mais nos meus pulmões. Meu coração está batendo tão forte que chega a doer, e eu sinto o suor escorrendo pela minha nuca mesmo com o ar da manhã ainda fresco entrando pelas janelas da casa do Thor. Eu desço os primeiros degraus da escada quase tropeçando, passando a mão pela barba, pela cabeça, pelo rosto de novo, como se aquilo fosse capaz de apagar a p***a da imagem dela parada na minha frente com aquele baby doll minúsculo que m*l cobria nada do corpo dela. — que inferno… — eu murmuro baixo pra mim mesmo enquanto continuo descendo, sentindo o peito apertar de um jeito que eu não sentia há anos, talvez nunca tenha sentido dessa forma. As palavras dela ainda estão ecoando na minha cabeça, uma atrás da outra, como se ela estivesse repetindo tudo de novo ali na minha frente. Você não tem direito nenhum de vir aqui cobrar nada de mim. Aquilo bateu em mim mais forte do que qualquer tiro que eu já tenha levado nessa vida. Porque no fundo eu sei que ela tem razão. Fui eu que escolhi isso. Fui eu que me afastei. Fui eu que virei a cara todas as vezes que ela passou perto de mim nesses últimos anos. Mas ela não sabe o porquê. E talvez… talvez agora esteja começando a saber. Eu paro no último degrau da escada, encostando a mão na parede enquanto tento organizar a cabeça que está completamente bagunçada depois daquela conversa. Aquilo saiu do controle rápido demais. Eu quase falei. Quase falei tudo. Quase falei a única coisa que eu passei anos enterrando dentro de mim como se fosse um crime. Porra… eu praticamente revelei pra ela. O jeito que eu falei, o jeito que eu olhei pra ela, o jeito que eu perdi a cabeça por causa daquele moleque… aquilo não tem mais volta. Qualquer pessoa que tenha metade de um cérebro percebe o que está acontecendo ali. E ela não é burra, muito pelo contrário. Rafaela sempre foi inteligente demais pra não perceber as coisas. Eu passo a mão no rosto de novo, sentindo o calor da minha própria pele enquanto respiro fundo tentando me acalmar. Isso é errado. Tudo nisso é errado. Ela é a filha do meu melhor amigo, do homem que eu prometi proteger com a minha vida. Eu vi aquela menina nascer. Eu ensinei ela a atirar, a brigar, a se defender. Eu fui padrinho dela. Eu carreguei ela no colo. E agora… Agora eu olho pra ela e vejo uma mulher que me deixa completamente fora de mim. Eu solto o ar pesado pelo nariz, fechando os olhos por um segundo enquanto tento empurrar aquele pensamento pra longe, mas ele volta mais forte, junto com a lembrança do corpo dela colado no meu segundos atrás. O cheiro dela. O calor da pele dela. O jeito que ela me encarou sem abaixar os olhos nem por um segundo. Eu não estou mais aguentando isso. Essa raiva constante dentro de mim. Essa vontade absurda que aparece toda vez que ela está perto. Esse desejo que eu tento afogar em bebida, em pó, em mulher… e que nunca desaparece. Eu m*l consigo terminar esse pensamento quando o barulho da porta da garagem se abrindo ecoa pela casa e, alguns segundos depois, a porta da sala se abre com tudo. — coe meu parceiro! — a voz animada do Thor invade o ambiente enquanto ele entra carregando duas sacolas grandes na mão. Eu me viro automaticamente na direção dele, tentando disfarçar o caos que está acontecendo dentro da minha cabeça. Thor entra na sala com aquele sorriso largo de sempre, jogando as sacolas em cima da mesa de jantar antes de vir na minha direção. Eu faço o toque com ele automaticamente, batendo as mãos do jeito que a gente sempre fez desde que ele era moleque, puxando ele num abraço rápido que termina com um tapa nas costas. — qual foi, menor — digo tentando manter o tom normal, mesmo sentindo que meu coração ainda está batendo rápido demais. — tá fazendo o que aqui essa hora? — ele pergunta já abrindo uma das sacolas na mesa e tirando copos de café e uns sanduíches de dentro. — veio tomar café com a gente ou veio ver se eu ainda tô vivo? Eu dou uma risada curta, passando a mão pela nuca enquanto caminho até a mesa. — não posso vir ver meus afilhados não? — respondo tentando descontrair, pegando um dos copos de café. — tomar um café com vocês, saber se tu tá vivo ainda… porque lá no outro morro tu não vai mais ne seu comédia, faz tempo que tu não pisa nas de cria. Ele ri alto com aquilo enquanto abre um dos sanduíches. — tá reclamando já? — ele fala dando uma mordida grande. — p***a, Fantasma, eu tô trabalhando pra c*****o lá, tu sabe como é essa p***a. — sei… — respondo apoiando o copo na mesa, tentando manter a conversa leve. — mas desapareceu de vez também, p***a. Nem passa mais lá na favela. Thor dá de ombros enquanto continua comendo, completamente tranquilo, completamente alheio ao inferno que está passando dentro da minha cabeça naquele momento. E o pior de tudo é que enquanto ele fala comigo, enquanto eu tento acompanhar a conversa, enquanto eu tento parecer normal… meus pensamentos continuam voltando pra mesma coisa. Pra mesma pessoa. Praquela p***a daquela conversa que ficou pela metade no quarto dela. Praquele olhar que ela me deu quando eu disse que não era o pai dela. Eu aperto o copo de café na minha mão um pouco mais forte do que deveria, tentando me concentrar na voz do Thor enquanto ele fala alguma coisa sobre o movimento da outra favela, mas a verdade é que eu m*l estou ouvindo. Porque a única coisa que passa pela minha cabeça é que eu acabei de cruzar uma linha que talvez não tenha mais volta. E eu não sei se ainda tenho força pra continuar fingindo que nada disso existe. — parceiro… — a voz do Thor corta meus pensamentos de repente, e eu percebo pelo jeito que ele está me olhando que ele já falou alguma coisa mais de uma vez e eu simplesmente não ouvi nada. — tu não tá escutando o que eu tô falando não? Eu pisquei algumas vezes, voltando pra sala da casa dele como se tivesse sido puxado de volta de algum lugar muito longe dali, e balanço a cabeça devagar tentando parecer normal enquanto pego o copo de café de novo. — tô escutando sim, p***a — respondo passando a mão na barba, tentando organizar a cabeça. — fala aí. Thor me encara meio desconfiado por alguns segundos, como se estivesse tentando entender o que estava passando na minha cabeça, mas logo dá de ombros e continua falando enquanto abre mais uma sacola de café da manhã na mesa. — eu tava falando que hoje vai ter um pagode ali na praça — ele diz animado, puxando uma cadeira e sentando. — o pessoal já tá montando tudo desde cedo, vai ter churrasco, bebida, aquela bagunça boa de sempre. Se tu quiser ficar por aqui hoje, largar um pouco aquela outra favela lá e esquecer trabalho por um dia… Ele nem termina a frase. Porque nesse exato momento a voz dela aparece atrás da gente. — opa… pagode? — Rafaela surge na sala com o cabelo ainda meio bagunçado de sono, mas com aquele mesmo jeito abusado de sempre que faz qualquer lugar parecer pequeno demais pra ela. — eu adoro pagode, eu já tô dentro. Meu corpo inteiro trava automaticamente quando eu ouço a voz dela. Eu nem preciso virar pra saber que ela está ali. Mas eu viro mesmo assim. E quando meus olhos encontram os dela do outro lado da sala, eu sinto aquele mesmo golpe no peito de minutos atrás, aquele mesmo calor irritante subindo pelo meu corpo enquanto eu aperto o copo de café na mão com mais força do que deveria. Thor, por outro lado, reage imediatamente. — pagode tem, sim — ele fala apontando o dedo pra ela com aquele jeito implicante de irmão — mas se tu quiser ficar, tu vai ficar na mesa comigo, tá ouvindo? Não vai ficar aí se amostrando pra esse monte de vagabundo da favela não, hein, Rafaela. Ela revira os olhos na mesma hora, caminhando até a mesa como se não estivesse nem um pouco impressionada com o surto de ciúme dele. — olha ele… — ela murmura com deboche, pegando um sanduíche da sacola. — o pai número dois resolveu aparecer hoje. Thor já abre a boca pra responder, mas ela nem espera, simplesmente vira o rosto na minha direção. E por um segundo inteiro nós dois ficamos nos encarando de novo. Dessa vez sem ninguém perceber. Sem ninguém entender o que está passando ali no meio. Eu estou me segurando com todas as forças que tenho pra não perder a cabeça naquele momento, porque o jeito que ela me olha é quase uma provocação silenciosa, como se ela soubesse exatamente o efeito que causa em mim. — claro que eu vou ficar, irmão — eu falo por fim, desviando o olhar dela e voltando a encarar o Thor enquanto tento manter o tom despreocupado. — pagode no teu morro? Claro que eu vou ficar por aqui. Eu escuto Rafaela revirar os olhos atrás de mim. — ótimo… — ela diz com aquele tom debochado que sempre usa quando quer provocar alguém. — então agora eu vou ter que bolar um plano melhor, né? Porque com vocês dois no meu pé fica impossível dar fuga. Eu sinto minhas mãos se fecharem automaticamente em punhos em cima da mesa. Thor não percebe. Mas eu percebo. Porque a vontade que eu tenho naquele momento é de agarrar aquela garota pelo braço e perguntar até onde ela pretende ir com essa provocação maldita. — tu tá muito amostradinha hoje, Rafaela — Thor reclama olhando pra ela com aquele jeito ciumento que ele sempre teve desde que ela era pequena. — chegou tarde ontem, ainda não me explicou que cheiro de homem era aquele em tu… e se tu continuar com essa gracinha eu vou contar pro pai, tá me ouvindo? Na mesma hora eu já fico puto pela fala dele, de lembrar da foto, dela beijando outro homem, e aquilo me faz fechar os olhos de tanta raiva que eu senti Ela nem levanta os olhos do sanduíche enquanto responde. — manda ele vir pessoalmente reclamar então — fala com a boca cheia, completamente despreocupada. — porque tu eu já mandei à merda faz tempo. Thor solta um palavrão irritado enquanto ela termina de comer rápido, pega o celular em cima da mesa e simplesmente vira na direção da porta da sala. — ei, ei, ei — ele levanta da cadeira na mesma hora, indo atrás dela. — onde tu pensa que vai agora? Ela já está abrindo a porta quando responde, olhando por cima do ombro com aquele sorriso provocador que eu conheço bem demais. — relaxa, meu gatinho lindo… — diz com deboche. — eu volto pra ser a estrela do teu pagode. E então ela bate a porta atrás dela antes que qualquer um de nós dois tenha tempo de responder. O silêncio que fica na sala dura alguns segundos. Thor solta um suspiro irritado, passando a mão na cabeça enquanto volta pra mesa. — essa menina vai me deixar maluco — ele reclama, pegando o copo de café. — eu tô falando sério, Fantasma… essa p***a dessa faculdade é um perigo pra Rafaela. Lá fora é cheio de vagabundo, cheio de playboyzinho metido a engraçado… eu fico preocupado pra c*****o com ela fora do morro. Ele continua falando, mas eu praticamente não escuto mais nada. Porque naquele momento tudo que passa pela minha cabeça é uma única coisa. Ela acabou de sair. E cada parte do meu corpo está gritando pra ir atrás dela. Mas eu continuo sentado ali, segurando o copo de café com força demais, tentando me convencer de que levantar daquela cadeira agora seria a pior decisão da minha vida, mas ficar aqui parecia um inferno me consumindo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD