Capítulo 05

2083 Words
Rafaela narrando Merda, merda, merda! Por que tão perto? Por que ele me achou? Pra que ele veio aqui? Que inferno de homem… meu coração parecia que ia rasgar o peito de tanto bater, e o pior de tudo era que não era só raiva ou nervoso, era aquela mistura maldita que ele sempre causou em mim, aquele calor que subia pelo corpo quando ele estava perto demais, quando eu sentia o cheiro dele, quando eu via aquele olhar pesado que parecia me atravessar inteira como se eu fosse transparente. — sai do meu quarto, Fantasma — eu tento parecer firme, forte, segura, mas até a minha própria voz entrega que aquilo ali estava longe de ser apenas irritação. Ele estava perto demais. Perto de um jeito que me fazia lembrar exatamente do sonho que eu tinha acabado de ter minutos antes, do jeito que as mãos dele tinham subido pelo meu corpo na minha imaginação, do jeito que eu tinha sentido a barba dele roçando no meu pescoço. Agora ele estava ali, real, de verdade, o peito subindo e descendo pesado, as pupilas dilatadas, a mandíbula travada, aquele olhar cheio de raiva… e alguma outra coisa que eu não queria admitir nem pra mim mesma. — você acha que pode tudo né, Rafaela? Que pode brincar com todo mundo, que pode fazer tudo, sair por aí fazendo o que quiser sem dar satisfação pra ninguém — ele fala avançando um passo na minha direção, a voz grossa, pesada, carregada de uma irritação que fazia o ar do quarto ficar denso, quase difícil de respirar. Eu engulo seco quando ele chega mais perto, tão perto que eu sinto o calor do corpo dele atravessando o pouco de tecido do meu baby doll, sinto o cheiro da pele dele misturado com cigarro e aquela colônia que ele sempre usa, aquele cheiro que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo. — eu não acho nada — respondo irritada, tentando manter o queixo levantado enquanto encaro ele de frente — meu pai sabia onde eu estava, então por que você tá aqui? Eu não devo satisfação nenhuma pra você. Eu tento passar por ele, porque se eu ficasse ali mais dois segundos meu corpo ia começar a reagir de um jeito que eu não ia conseguir esconder, mas antes que eu consiga dar dois passos ele me puxa com força pelo braço, me fazendo girar de volta pra frente dele, e quando eu percebo já estou colada no corpo dele, o peito dele contra o meu, a respiração dele batendo quente no meu rosto. — eu não estou brincando, Rafaela — ele rosna baixo, a mão apertando o meu braço com força suficiente pra me impedir de me mexer — eu não me importo se seu pai sabia ou não, por que você não me respondeu? Por que você estava num bar com aquele playboy de merda? A última frase sai quase como um grito, e eu sinto os dedos dele apertarem ainda mais meu braço, o suficiente pra doer, mas não o suficiente pra me fazer recuar. — me solta, fantasma — eu digo entre os dentes, olhando direto nos olhos dele enquanto sinto o corpo inteiro reagindo ao fato de estar presa daquele jeito contra ele. Por alguns segundos ele não se mexe, apenas me encara, o olhar descendo rápido pelo meu corpo como se ele estivesse tentando lutar contra si mesmo pra não olhar, mas olhando mesmo assim, e eu percebo exatamente o momento em que os olhos dele param no decote do meu baby doll, a respiração dele falhando por um segundo antes de voltar pesada. — você perdeu completamente o juízo — ele murmura baixo, mas a mão dele não solta meu braço, pelo contrário, os dedos apertam ainda mais como se ele tivesse medo de que eu fosse simplesmente desaparecer dali. — quem perdeu o juízo foi você entrando no meu quarto desse jeito — respondo irritada, empurrando o peito dele com a mão, mas ele nem se mexe, o corpo dele duro como uma parede na minha frente. Ele dá mais um passo pra frente, e agora não existe mais espaço nenhum entre os nossos corpos, minhas costas encostando na parede atrás de mim sem que eu tenha percebido quando isso aconteceu, o corpo dele praticamente me prendendo ali. — então para de agir como se fosse alguém que se importa comigo, você só trabalha pro meu pai, eu não tenho que te falar nada da minha vida — eu rebato, tentando manter o tom firme mesmo com o coração disparado dentro do peito — eu não fiz nada demais. — não fez nada demais? — ele solta uma risada sem humor nenhum, passando a mão pelo rosto como se estivesse tentando se controlar — você beijando aquele filho da p**a na frente de todo mundo não é nada demais? — eu não te devo satisfações de quem eu beijo ou deixe de beijar, você é só o frente do meu pai, nem meu padrinho eu te considero mais, você não é nada meu. — eu beijo quem eu quiser, eu dou pra quem eu quiser, e você não tem nada com isso, o problema é meu… — eu grito e vejo os seus olhos ficarem negros na mesma hora Ele fica imóvel por um segundo, o maxilar travado de um jeito que eu conheço bem demais, aquele mesmo jeito que ele fica quando está a um segundo de perder completamente a cabeça. — o problema… — ele começa devagar, a voz baixa demais agora — é que você não sabe com quem você tá mexendo, Rafaela. — eu sei exatamente com quem eu estou mexendo — respondo sem pensar duas vezes, encarando ele de frente — estou mexendo com um homem que acha que pode controlar tudo na minha vida sem nem ter coragem de olhar na minha cara quando me vê na rua. Aquilo atinge ele como um soco. Eu vejo claramente pelo jeito que o olhar dele endurece, pelo jeito que o peito dele sobe mais forte quando ele respira fundo. — você acha que eu não percebo? — continuo, a raiva agora saindo sem filtro nenhum — você manda todo mundo me vigiar, manda segurança me seguir, manda ninguém falar comigo na boca, mas quando eu chego perto você vira a cara como se eu fosse invisível. Ele não fala nada. Apenas me encara. E aquele silêncio dele me irrita ainda mais. — então não vem aqui agora querer dar uma de dono da minha vida, porque você não é nada meu — solto com raiva, apontando o dedo no peito dele — você mesmo fez questão de deixar isso muito claro. Por um segundo eu realmente acho que ele vai simplesmente sair do quarto. Mas ele não sai. Pelo contrário. Os olhos dele escurecem de um jeito que eu nunca tinha visto antes, e quando ele fala de novo a voz dele sai rouca, carregada de alguma coisa que faz meu estômago revirar. — você quer mesmo saber por que eu virei a cara quando você passa? — ele pergunta devagar, dando mais um passo pra frente, me prensando completamente contra a parede. Meu coração dispara. — quer saber por que eu não chego perto de você? — ele continua, a voz cada vez mais baixa, cada vez mais perigosa. Eu sinto meu coração bater ainda mais forte, quase dolorido dentro do peito, e por um segundo eu acho que vou responder, que vou mandar ele falar logo, que vou enfrentar aquilo de frente… mas antes que qualquer palavra saia da minha boca, o toque do meu celular corta o silêncio do quarto como um tiro. O som ecoa alto demais naquele ambiente que estava tão carregado, e nós dois olhamos ao mesmo tempo para o aparelho que vibra em cima da minha cama. Eu me mexo primeiro, escapando por um segundo do corpo dele para pegar o telefone, mas mesmo assim sinto os olhos dele grudados em mim enquanto olho para a tela e vejo o nome do meu irmão piscando ali. Eu atendo ainda olhando direto para o Fantasma, como se desligar os olhos dele fosse impossível naquele momento. — fala adotado — digo tentando manter a voz normal, mas meu peito ainda sobe e desce rápido demais. — já tô voltando pra casa — a voz do Thor sai do outro lado da linha misturada com barulho de rua e motor — passei ali na padaria e tô levando café da manhã pra você, porque eu sei que tu vai acordar com fome de quinze mendigo. Eu quase sorrio com aquilo, mas meus olhos continuam presos no Fantasma, que também não desviou os dele de mim nem por um segundo desde que o telefone tocou. A tensão no quarto continua ali, pesada, pulsando entre nós dois como se fosse uma coisa viva. — tá bom, eu tô aqui — respondo ainda encarando ele — pode subir quando chegar. — dois minutos eu tô aí — meu irmão fala antes de desligar. Eu baixo o telefone devagar, sem tirar os olhos do Fantasma, e por alguns segundos nenhum de nós dois fala nada. O silêncio volta ainda mais pesado, ainda mais carregado, como se tudo que quase tinha sido dito ainda estivesse preso no ar entre nós. — você precisa ir embora — digo finalmente, a voz baixa mas firme, mesmo com o coração ainda disparado dentro do peito. Ele não se mexe. Continua ali parado, me olhando daquele jeito que parece que está tentando me ler por dentro, como se estivesse procurando alguma coisa que ele mesmo não consegue entender. — Thor já está chegando — continuo, tentando manter o controle da situação — e você sabe muito bem que se ele te encontra aqui dentro do meu quarto isso vai virar uma guerra que ninguém precisa agora. Ele continua me olhando em silêncio, o peito subindo e descendo devagar agora, como se estivesse tentando se acalmar à força. — vai embora, Fantasma — repito, dessa vez mais dura — porque eu não quero saber de nada que você tenha pra dizer. Eu vejo a mandíbula dele travar de novo quando digo aquilo, mas continuo antes que ele abra a boca para responder. — foi você que escolheu isso — falo encarando ele de frente — foi você que decidiu que as coisas iam ser desse jeito quando eu fiz quinze anos. Então agora você não tem direito nenhum de vir aqui cobrar nada de mim. Por um segundo eu vejo alguma coisa atravessar o olhar dele, alguma coisa que parece dor, mas desaparece tão rápido quanto veio. Eu não espero resposta. Simplesmente passo por ele antes que ele possa me impedir de novo, vou direto até a porta do quarto e giro a chave com força. — sai — digo abrindo a porta e empurrando ele para fora com as duas mãos no peito dele — vai embora antes que meu irmão suba. Ele resiste por meio segundo, mas então recua um passo para o corredor, e nesse exato momento nós dois ouvimos o barulho do portão da garagem abrindo lá embaixo e o motor da moto do Thor entrando. O olhar do Fantasma encontra o meu uma última vez. E naquele olhar ainda existe tudo que estava ali segundos atrás: raiva, tensão, desejo… e alguma coisa muito mais perigosa que eu não quero nem pensar no que significa. Sem dizer mais nada ele vira rápido e começa a descer as escadas apressado, os passos pesados ecoando pelo corredor até desaparecerem. Eu fecho a porta do quarto com força assim que ele some da minha frente, giro a chave e me encosto nela imediatamente, como se minhas pernas simplesmente não tivessem mais força para me sustentar. Meu coração está batendo tão forte que parece que vai sair pela boca, minhas mãos estão suadas, tremendo, e eu sinto falta de ar como se tivesse corrido quilômetros. Eu fecho os olhos por um segundo, tentando respirar fundo, tentando recuperar o controle do meu próprio corpo, mas é impossível. Eu deslizo devagar pela porta até ficar sentada no chão, as costas ainda apoiadas nela, o peito subindo e descendo rápido enquanto passo a mão no rosto tentando me recompor antes que o Thor suba. Mas uma coisa é impossível negar. O Fantasma mexe comigo de um jeito que nenhum outro homem jamais mexeu. E isso… isso é a pior coisa que poderia acontecer.
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