Fantasma narrando
Eu fiquei parado alguns segundos dentro do carro depois que a porta bateu e ela saiu andando sem olhar para trás, como se aquele gesto tivesse arrancado o ar do meu peito junto com ela. O som do pagode ainda chegava abafado da praça, misturado com as vozes da galera, gargalhadas, garrafas batendo, o grave do paredão vibrando lá no fundo do morro como se nada tivesse acontecido. Mas dentro daquele carro parecia que tudo tinha parado. Meu peito subia e descia pesado, a mão ainda tremendo no volante torto que eu tinha acabado de quebrar, e a imagem dela ali na minha frente, encarando meus olhos com aquela mistura de raiva, desafio e desejo, continuava girando dentro da minha cabeça como um filme que não parava de repetir.
Eu respirei fundo, passando a mão pelo rosto com força, tentando empurrar para longe aquela sensação de que eu tinha acabado de perder o controle de mim mesmo. A pele dela ainda parecia colada nos meus dedos. O calor do corpo dela ainda estava preso na memória do meu toque. Aquela proximidade depois de tantos anos evitando chegar perto demais tinha explodido dentro de mim de um jeito que eu não estava preparado para segurar. Durante anos eu mantive distância. Durante anos eu aprendi a evitar qualquer situação onde nós dois ficássemos próximos demais. Eu me convenci de que aquilo era a única forma de manter as coisas no lugar certo, de respeitar a promessa que eu tinha feito, de continuar sendo o homem em quem o pai dela confiava para proteger a família dele. Mas bastou um instante com ela dentro daquele carro para tudo aquilo desmoronar.
A palavra que ela tinha jogado na minha cara parecia ecoar dentro da minha cabeça como um martelo batendo sem parar. Covarde. Eu escutava aquilo repetidamente enquanto olhava para o volante quebrado na minha frente. Covarde. A forma como ela falou não foi só raiva. Foi desprezo. Foi a certeza de que ela realmente acreditava que eu estava fugindo. E aquilo doía mais do que qualquer outra coisa, porque eu sabia que para ela parecia exatamente isso. Eu sabia que, olhando de fora, parecia que eu estava me escondendo atrás de promessa, de regra, de lealdade, de qualquer coisa que servisse para não enfrentar aquilo que existia entre nós dois.
Mas a vida no crime nunca foi simples.
A vida no crime sempre foi construída em cima de lealdade.
Eu empurrei a porta do carro com força e saí, sentindo o ar da noite bater no rosto quente enquanto o barulho da praça continuava distante. Dei alguns passos ao redor do carro tentando organizar a cabeça, mas cada pensamento voltava para o mesmo lugar. Para o cabelo dela nas minhas mãos. Para o corpo dela tão perto do meu. Para a forma como o peito dela subia e descia enquanto ela gritava comigo dentro daquele carro. Eu parei na frente do capô e encostei as mãos nele por um segundo, respirando fundo como se estivesse tentando segurar algo que ameaçava explodir dentro do meu peito.
Mas a pressão não diminuiu.
O punho desceu no capô com força.
O barulho do metal amassando ecoou na rua vazia.
Eu bati de novo.
E mais uma vez.
O impacto reverberava pelo braço inteiro enquanto o metal do carro dela começava a afundar sob meus golpes. Eu não estava pensando direito. Não estava medindo força. Não estava nem percebendo que o sangue começava a abrir na pele dos meus dedos. A única coisa que eu sentia era aquela mistura absurda de raiva, desejo e frustração que parecia querer rasgar meu peito por dentro.
Eu parei quando o sangue começou a escorrer pela lateral da minha mão, pingando devagar no capô amassado. Olhei para os dedos abertos, vermelhos, e soltei um riso sem humor nenhum enquanto balançava a cabeça devagar.
— Tu é um merda… — murmurei para mim mesmo, passando a mão ensanguentada pelo rosto.
A raiva não era dela.
Era minha.
Porque eu tinha chegado perto demais de atravessar uma linha que não tinha volta. Quando eu segurei o rosto dela dentro daquele carro e puxei ela para perto, por um segundo tudo que existia dentro da minha cabeça tinha desaparecido. Não existia promessa. Não existia pai. Não existia irmão. Não existia regra. Só existia ela. Só existia o cheiro dela. Só existia o desejo absurdo de calar aquela boca cheia de raiva com a minha e acabar com aquela guerra que existia entre nós dois há anos.
Mas a vida não era feita só de vontade.
No mundo onde eu cresci, lealdade não era discurso bonito. Era lei.
— c*****o que odio, que inferno, porque ela tinha que ser desse jeito, pra que ela tem que me desafiar assim — eu esbravejo dando um soco com toda força no painel de novo sentindo meus dedos se rasgarem mais
Eu passei a mão pelo rosto novamente, sentindo o sangue seco nos dedos enquanto levantava a cabeça devagar e olhava na direção da praça onde o pagode continuava rolando. A música ainda estava alta, a multidão ainda estava ali curtindo como se aquela noite fosse só mais uma festa no morro. E no meio daquela multidão estava ela. A filha do homem que eu chamava de irmão. A menina que eu vi crescer correndo dentro daquelas vielas. A única mulher que eu queria de um jeito que eu nunca quis ninguém.
A lembrança voltou clara na minha cabeça. O hospital. O cheiro de remédio. Ele sentado na cadeira ao lado do berço improvisado, segurando minha mão enquanto olhava para a filha pequena que m*l conseguia entender o mundo ao redor.
“Se um dia eu cair, tu cuida deles.”
Eu apertei os olhos por um segundo.
Porque promessa entre nós nunca foi palavra jogada ao vento. Promessa era dívida. Promessa era honra. Promessa era o que mantinha o crime de pé.
E naquele momento eu entendia que o que me destruía não era só o desejo por Rafaela. Era saber que para ter ela eu teria que trair a única pessoa que sempre foi leal a mim em tudo, o cara que confiou sua família a mim, seu morro, sua lealdade, e isso pra mim não era só quebrar as regras, era muito mais grave que isso.
Eu respirei fundo mais uma vez, olhando minha mão ensanguentada e depois a moto parada logo ali ao lado, sabendo que em algum lugar daquela praça ela ainda estava dançando, ainda estava provocando, ainda estava vivendo a vida dela como se nada daquilo existisse.
E a verdade brutal que ficava cada vez mais clara dentro da minha cabeça era que eu estava preso entre duas coisas que pareciam impossíveis de conciliar. Porque eu não conseguia trair a confiança do pai dela, mas também não conseguia arrancar Rafaela de dentro de mim, e essa guerra silenciosa que eu carregava no peito há anos parecia finalmente ter chegado num ponto onde qualquer escolha ia custar caro demais.
Eu respirei fundo, passando a mão ensanguentada pelo rosto, sentindo o gosto metálico misturado com o suor enquanto tentava reorganizar os pensamentos. A imagem dela ainda estava fresca demais na minha memória. O jeito que ela tinha saído do carro, tremendo de raiva, os olhos queimando enquanto me chamava de covarde. Aquilo não saía da minha cabeça. Eu sabia que tinha motivos para agir como estava agindo, sabia que a promessa que fiz ao pai dela não era uma coisa pequena, mas ouvir aquilo da boca dela era como levar um soco que atravessava direto o peito.
Foi quando um dos meus seguranças dobrou a esquina da rua lateral e me viu ali parado.
Ele parou imediatamente ao perceber a situação.
— Chefe… — ele disse olhando primeiro para o capô amassado e depois para a minha mão ensanguentada. — Tá tudo certo?
Eu balancei a cabeça devagar, respirando fundo antes de responder.
— Leva esse carro pra oficina — falei apontando para o carro da Rafaela. — Diz pros caras que é pra arrumar tudo. Capô, volante, o que tiver quebrado.
Ele assentiu imediatamente.
— Pode deixar.
Eu puxei a chave do carro do bolso e joguei para ele.
— É na minha conta — completei com a voz firme, sem olhar diretamente para ele. — Tudo.
O segurança pegou a chave no ar e confirmou com a cabeça antes de entrar no carro para manobrar.
Antes que ele saísse eu falei de novo.
— E manda trazer outra moto pra mim lá da boca — eu disse passando a mão pela testa, ainda tentando controlar a respiração. — Essa aqui vai ficar com ela.
Ele assentiu novamente e deu partida no carro, saindo devagar pela rua enquanto eu ficava ali parado alguns segundos observando as lanternas desaparecerem na curva.
Quando o carro sumiu da vista eu levantei a cabeça e olhei na direção da praça.
O som do pagode parecia ainda mais alto agora.
A multidão tinha crescido.
Eu sabia que ela estava ali.
E por mais que tudo dentro de mim dissesse para ir embora, meus pés começaram a subir a rua automaticamente.
Quando voltei para a praça, a festa estava ainda mais cheia. A roda de pagode tinha crescido, gente dançando na pista, gente espalhada pelos camarotes improvisados, cerveja sendo passada de mão em mão enquanto o cantor puxava mais um refrão que a galera cantava junto. O cheiro de churrasco, cerveja e fumaça dominava o ar quente do morro.
Meus olhos encontraram ela antes mesmo que eu percebesse que estava procurando.
Rafaela estava no camarote ao lado do do Thor.
Ela dançava com aquela amiga da faculdade que tinha aparecido ali, e eu sabia quem era porque ela estava na confusão ontem quando eu fui lá dar uma lição no playboy, o corpo acompanhando o ritmo do pagode com uma naturalidade que sempre chamou atenção em qualquer lugar que ela pisasse. A minissaia branca destacava cada movimento do quadril enquanto ela sambava, o cabelo longo balançando pelas costas, completamente solta na música.
Continua…