Rafaela narrando
Eu não estava normal naquela noite. Por mais que eu tentasse me convencer de que aquilo era apenas mais uma operação, mais uma invasão como tantas outras que já tinham acontecido ao longo da minha vida dentro de favela, havia algo diferente naquela sensação que crescia dentro do meu peito. Era como se o ar estivesse mais pesado, como se respirar exigisse um esforço maior do que o normal, e por mais que eu tentasse manter a cabeça no lugar, a inquietação não diminuía. Eu caminhava pela sala da casa sem conseguir ficar parada em nenhum lugar por mais de alguns segundos, indo da janela para a mesa, da mesa para o rádio, do rádio para o celular e voltando para a janela outra vez, enquanto minha mente girava numa velocidade que eu não conseguia acompanhar.
Eu já tinha vivido muitas noites de guerra no morro. Já tinha ouvido rajada de fuzil atravessando madrugada, já tinha visto helicóptero cortando o céu e polícia tentando subir viela com escudo e caveirão. Aquilo fazia parte da vida de quem nasce e cresce dentro daquele mundo, e desde muito nova eu aprendi que pânico não resolve nada. Mesmo assim, naquela noite havia alguma coisa fora do lugar, uma sensação r**m que eu não conseguia explicar e que só aumentava a cada minuto que passava. Eu sentia como se alguma peça importante daquela história estivesse faltando e como se todo mundo estivesse tentando esconder isso de mim.
E não era por causa da conversa que eu tinha tido com o Fantasma mais cedo, porque a minha vida nunca girou em torno de homem nenhum. Eu sempre fui maior do que qualquer relação ou qualquer sentimento m*l resolvido. Só que também seria mentira dizer que aquilo não existia ou que não pesava em nada naquela situação. Como ele mesmo tinha dito, goste eu ou não, existe uma ligação ali que vai muito além de qualquer coisa entre homem e mulher. Existe o morro. Existe o código de lealdade do crime. Existe o fato de que nós crescemos dentro da mesma história e dentro da mesma estrutura.
Por mais que eu estivesse com raiva dele, por mais que aquela atitude covarde de se esconder atrás de uma promessa para o meu pai ainda estivesse martelando dentro da minha cabeça, aquilo não mudava o fato de que ele estava lá embaixo agora, na mesma guerra que o meu irmão. E isso mexia comigo de uma forma que eu não conseguia ignorar, não como mulher e nem como alguém que estivesse apaixonada, mas como alguém que entende o peso da palavra família dentro daquele mundo.
Enquanto eu caminhava pela sala com o rádio apertado na mão, também pensava nos meus pais. Minha mãe estava no presídio e o meu pai provavelmente estava naquele exato momento sentado naquela sala de visita conversando com ela, sem ter a menor ideia do que estava acontecendo aqui fora. Eu conhecia os dois bem demais para não imaginar a reação deles se qualquer coisa desse errado naquela operação. Minha mãe ia entrar em desespero e pegar o primeiro voo de volta para cá sem pensar duas vezes, enquanto o meu pai ia passar dias completamente transtornado dentro daquele presídio até conseguir alguma notícia concreta sobre o que aconteceu no morro.
E eu estava ali, dentro da minha própria casa, sentindo que não podia fazer absolutamente nada para mudar aquela situação. Aquilo me deixava cada vez mais nervosa, porque a sensação de impotência é uma das coisas que eu mais odeio sentir na vida. Eu apertava o rádio o tempo inteiro, tentando arrancar qualquer informação que me desse uma ideia do que realmente estava acontecendo lá embaixo.
— Visão, me dá visão da principal e como tá a operação do outro lado — eu falei no rádio tentando manter a voz firme, mesmo sentindo que o coração batia rápido demais dentro do peito.
O rádio chiou antes de responder.
— Área ainda quente, patroa — a voz respondeu do outro lado.
Eu respirei fundo tentando controlar a irritação que começava a crescer.
— E o Thor? — eu perguntei imediatamente.
O silêncio que veio em seguida durou mais do que deveria.
Eu apertei o botão do rádio de novo.
— E o Fantasma? — eu insisti.
Outro silêncio.
Aquilo começou a me incomodar de verdade, porque eu sabia reconhecer quando estavam evitando responder alguma coisa. Eu cresci ouvindo rádio de operação, cresci vendo como os homens da boca falavam quando queriam esconder alguma informação de quem estava ouvindo do outro lado.
Eu parei no meio da sala, apertando o rádio com mais força na mão enquanto falava de novo.
— Não me esconde informação não — eu falei com a voz carregada de irritação, deixando claro que eu já tinha percebido o que estava acontecendo. — Eu quero visão do Fantasma e do Thor agora.
Do outro lado só veio chiado.
Foi nesse momento que Mirela apareceu perto de mim segurando um copo de água nas mãos. Ela parecia completamente deslocada dentro daquela realidade, olhando em volta da sala como se ainda estivesse tentando entender onde estava e o que estava acontecendo naquela casa que até poucas horas atrás ela nem sabia que existia.
— Amiga… eu acho que você precisa beber alguma coisa — ela falou estendendo o copo na minha direção com cuidado.
Eu peguei o copo, mas percebi na mesma hora que não conseguia beber. A água parecia parar no meio da garganta, como se existisse um nó preso ali que não deixava nada descer. Mirela me observava com preocupação enquanto eu colocava o copo na mesa sem conseguir tomar um gole sequer.
Foi exatamente nesse momento que a porta da casa se abriu de repente.
O barulho foi alto o suficiente para fazer nós duas virarmos a cabeça ao mesmo tempo.
Eu não enxerguei mais nada da sala naquele instante.
Tudo que eu vi foi o Fantasma entrando pela porta carregando o Thor apoiado pelo ombro, com o corpo dele pesado encostado contra o dele.
Meu coração disparou na hora.
— Meu Deus do céu, o que aconteceu? — eu falei já correndo na direção deles sem pensar em mais nada.
Fantasma trouxe o Thor até o sofá da sala e ajudou ele a sentar, mantendo o corpo firme mesmo com o peso dele apoiado ali. O rosto dele estava suado, sujo de pólvora e terra da rua, e antes mesmo de dizer qualquer coisa ele simplesmente soltou o braço do meu irmão e virou para a cozinha, claramente indo buscar alguma coisa.
Eu já estava na frente do Thor naquele momento, puxando o colete à prova de balas dele para fora enquanto levantava a camisa para ver onde tinha sido o ferimento. Meu estômago apertou quando vi o sangue espalhado pela lateral da cintura dele, mas quando eu examinei melhor percebi que a bala tinha passado raspando, abrindo um corte feio na pele mas sem atravessar o corpo.
— Foi só de raspão, cara — ele falou com aquele sorriso i****a de sempre, mesmo com a respiração ainda pesada e o corpo sujo da guerra. — Tu não vai se livrar de mim ainda não.
Eu levantei o olhar para ele completamente bolada, ainda sentindo o coração acelerado dentro do peito enquanto observava o tamanho do r***o na pele dele. A bala tinha passado perigosamente perto demais, porque dois milímetros a mais naquela trajetória teriam sido suficientes para transformar aquela raspada numa perfuração de verdade, e essa diferença minúscula era exatamente o tipo de coisa que separa alguém que volta para casa de alguém que vira velório no morro.
— cala a boca adotado, me deixa ver isso — eu falo e o fantasma coloca a caixa de primeiros socorros em cima do sofá e eu dou uma olhada nele inteiro sem nem disfarçar pra conferir se ele estava inteiro
— patroa, visão patroa, tem um cara aqui na barreira te procurando — um menor me chama no rádio e foi automático
Eu, meu irmão, e o fantasma fomos com a mão no rádio, mas pro meu azar quem pegou foi o fantasma
— fantasma, volta aqui…— eu chamo ele largando o meu irmão ali e indo atrás do lunatico que saiu com o rádio na mão