Fantasma narrando
A trilha da mata já estava virando um campo de guerra antes mesmo da primeira viatura conseguir se aproximar de verdade da subida. Quando eu desci com a tropa pela lateral do morro, cortando pela passagem estreita que ligava as duas comunidades, o barulho dos tiros que vinham da pista já ecoava pesado no ar da noite, batendo nas árvores e voltando como trovão no meio da mata fechada. Aquela trilha sempre foi um ponto sensível, um funil natural que quem conhece o morro usa para cortar caminho, e exatamente por isso eu sabia que se a polícia resolvesse tentar subir por ali a gente precisava fechar aquela passagem antes deles ganharem qualquer metro.
Eu parei a moto atravessada no meio da trilha e desci dela num pulo, já puxando o fuzil das costas enquanto os moleques que vinham atrás de mim espalhavam as motos pelo caminho e começavam a se posicionar entre as árvores, atrás de pedra, tronco e qualquer pedaço de cobertura que a mata oferecesse.
— Espalha essa linha! — eu gritei olhando em volta enquanto apontava para os dois lados da trilha. — Ninguém fica agrupado igual pato, c*****o!
Os moleques começaram a se mover rápido entre as árvores, alguns subindo pela lateral do barranco para abrir visão mais alta, outros se enfiando atrás dos troncos grossos que serviam de proteção natural.
O rádio chiava sem parar no meu colete, misturando vozes da boca, da pista e dos pontos da favela.
Eu puxei o aparelho e falei firme.
— Aqui é o Fantasma. Mata já tá fechada. Quem tentar subir por aqui vai tomar.
— Copiado — alguém respondeu no rádio.
Eu caminhei alguns passos pela trilha observando a posição dos moleques enquanto o som de tiro vindo da pista aumentava lá embaixo.
Thor já estava em guerra lá na frente.
E eu sabia exatamente como ele lutava.
A gente cresceu junto nesse mundo, e quando ele entrava no modo de combate ninguém segurava.
Foi quando um dos vapores que estava mais abaixo na trilha gritou.
— Movimento lá embaixo!
Eu me abaixei imediatamente atrás de uma árvore grossa enquanto levantava o fuzil e apontava para a descida da trilha.
Entre as folhas e o escuro da mata dava para ver o reflexo de lanternas subindo.
— Polícia na trilha! — o moleque avisou.
Eu senti o sangue esquentar.
— Segura até eu mandar — eu falei baixo enquanto ajustava a mira.
Os vultos começaram a aparecer mais claros agora, três policiais subindo com arma levantada enquanto outro vinha logo atrás iluminando o caminho com a lanterna.
Eu esperei mais dois passos deles.
— Agora!
O primeiro disparo saiu do meu fuzil rasgando o silêncio da mata e imediatamente os moleques abriram fogo também, transformando a trilha estreita numa tempestade de tiro que explodia nas árvores e no chão de terra.
Os policiais se jogaram para trás tentando se proteger, mas o funil da trilha não deixava muito espaço para manobra.
— SEGURA ESSA p***a! — um dos moleques gritou enquanto puxava mais uma rajada.
Os tiros ricocheteavam nas pedras e nos troncos enquanto o cheiro de pólvora começava a se misturar com o cheiro úmido da terra e das folhas da mata.
Eu troquei o carregador rápido, puxando o ferrolho e voltando a mirar na descida.
— Ninguém desce pra trilha! — eu gritei olhando para os moleques espalhados. — Quem tentar subir toma bala!
Um dos vapores pulou por cima de um barranco e caiu atrás de um tronco mais à frente, abrindo outro ângulo de tiro.
— Eles tão recuando! — ele avisou.
— Deixa recuar! — eu respondi firme. — Não desce atrás!
A última coisa que eu queria era moleque descendo a trilha e abrindo espaço para emboscada.
Os policiais lá embaixo ainda tentaram puxar alguns disparos para cima, mas o terreno não ajudava eles. Cada passo que eles davam era exposto demais.
— Volta! Volta! — alguém gritou lá embaixo.
A lanterna desapareceu entre as árvores quando eles começaram a recuar pela trilha.
Eu respirei fundo por um segundo antes de falar no rádio.
— Tentaram subir pela mata e já voltaram correndo — eu falei enquanto caminhava alguns passos pela linha para conferir as posições.
— Copiado — alguém respondeu do outro lado.
Um dos moleques apareceu correndo pela lateral da mata, suado, com o rosto sujo de terra.
— Fantasma, parece que eles tão chamando reforço lá na pista!
Eu balancei a cabeça olhando na direção da favela.
— Thor segura aquela subida — eu falei mais para mim mesmo do que para ele.
Mas eu sabia que se a polícia resolvesse insistir em dois lados ao mesmo tempo a coisa podia complicar rápido.
— Espalha mais dois lá no barranco — eu mandei apontando para a lateral da trilha. — Quero visão alta daquele trecho.
— Pode deixar — o moleque respondeu já subindo o barranco com o fuzil nas costas.
Eu continuei andando pela linha da mata, observando cada posição enquanto os tiros da pista continuavam ecoando lá longe.
Meu rádio chiava de vez em quando com ordem, grito, informação cruzada.
Mas até aquele momento a linha da mata estava firme, eu estava no controle.
A linha da mata ainda estava quente quando o rádio estourou de novo no meu colete. O barulho de tiro já tinha diminuído um pouco naquele lado, porque depois da primeira tentativa frustrada de subida os policiais tinham recuado pela trilha e sumido entre as árvores mais baixas da encosta. Mesmo assim eu continuava andando de um ponto ao outro da linha, conferindo posição, olhando onde cada moleque estava escondido e garantindo que ninguém abaixasse a guarda cedo demais, porque em guerra de morro o erro mais comum é achar que acabou antes de acabar.
— Ninguém relaxa essa p***a ainda — eu falei olhando para os dois moleques que estavam no barranco com visão da trilha. — Esses arrombado gostam de voltar quando acham que a gente abaixou a guarda.
— Pode deixar, Fantasma — um deles respondeu enquanto ajustava o fuzil no ombro e continuava olhando para a descida da mata.
Eu estava virando o corpo para caminhar de volta até a moto quando o rádio chiou de novo, dessa vez com uma gritaria que fez meu estômago apertar antes mesmo de entender as palavras.
— Fantasma! Fantasma!
Eu puxei o rádio na hora.
— Fala!
Do outro lado vinha só barulho de gente falando ao mesmo tempo, respiração pesada e tiro distante.
— O Thor foi baleado! — a voz de um dos vapores explodiu no rádio.
Por um segundo o mundo inteiro pareceu travar dentro da minha cabeça.
— O quê? — eu rosnei apertando o rádio com força.
— Tiro na principal! — o moleque respondeu quase sem ar. — Mas a área já foi neutralizada, chefe! A polícia recuou!
Eu respirei fundo uma vez só, sentindo o sangue ferver dentro do corpo.
— Onde ele tá? — eu perguntei firme enquanto já começava a caminhar rápido na direção da moto.
— Na viela da sete! — a voz respondeu no rádio. — Tão segurando ele lá!
Eu nem respondi mais nada.
Virei para os moleques espalhados pela mata.
— Escuta aqui — eu falei alto olhando para todos eles. — A mata tá neutralizada.
Os caras levantaram a cabeça imediatamente.
— Quero ronda nessa trilha inteira — eu continuei apontando para o caminho que descia. — Desce dois blocos pela lateral, varre essa p***a toda e vê se não tem nenhum polícia escondido nessas árvore.
— Pode deixar! — um deles respondeu já começando a descer o barranco.
— Se achar qualquer merda estranha me chama no rádio na hora — eu completei enquanto já subia na moto.
— Tamo junto, Fantasma!
Eu dei partida no motor e acelerei sem esperar mais nada. A moto arrancou pela trilha levantando barro e folha enquanto eu subia de volta para a favela, cortando o caminho da mata até alcançar a rua que ligava na principal.
A adrenalina dentro do meu corpo estava absurda.
A cabeça só repetia uma coisa.
Thor baleado.
Thor baleado.
Quando eu saí da mata e entrei nas vielas da favela o cenário já era outro. O fogo das barricadas ainda queimava em alguns pontos da rua principal, espalhando fumaça pelo ar enquanto os moleques continuavam armados nas esquinas garantindo que nenhuma viatura voltasse a tentar subir.
— Fantasma! — um deles gritou quando me viu passando.
— Onde ele tá? — eu respondi sem parar a moto.
— Viela do bar da rose — os menor fala na atividade
Eu virei o guidão com força e acelerei naquela direção, cortando pelos becos estreitos enquanto os moradores começavam a colocar a cabeça para fora das portas tentando entender o que tinha acontecido.
Quando eu cheguei na entrada da viela já dava para ver um grupo de moleques agachados no chão perto de um muro.
Eu nem parei direito.
Joguei a moto no chão ainda ligada e saí correndo na direção deles.
— Sai da frente! — eu rosnei empurrando um dos vapores que estava ajoelhado ali.
Thor estava sentado encostado no muro, o colete aberto e a camisa completamente encharcada de sangue na lateral da cintura. Um dos moleques pressionava um pano improvisado contra o ferimento enquanto outro segurava ele pelos ombros.
— Deixa eu ver — eu falei me abaixando na frente dele.
Thor levantou os olhos para mim com a respiração pesada, mas ainda consciente.
— Relaxa, p***a — ele falou com um sorriso torto apesar da dor. — Foi só raspão.
Eu puxei o pano um pouco para o lado para ver melhor.
A bala tinha passado raspando pela lateral da cintura, abrindo um corte feio que sangrava muito, mas não parecia ter atravessado.
— c*****o… — um dos moleques murmurou atrás de mim vendo o sangue.
Eu voltei a pressionar o pano contra o ferimento imediatamente.
— Segura firme isso aqui — eu mandei olhando para o vapor que estava ajoelhado.
Ele pressionou o pano com as duas mãos.
— Fantasma… — outro moleque falou do lado.
Eu levantei a cabeça.
— A pista já tá limpa — ele explicou rápido. — A polícia recuou toda.
Eu balancei a cabeça.
— Então escuta — eu falei olhando para os três ali. — Quero contenção na favela inteira.
Os caras prestaram atenção na hora.
— Espalha ponto nas duas entrada — eu continuei. — Vê se não tem nenhum polícia escondido em beco, quintal, p***a nenhuma.
— Pode deixar!
— Quero a boca organizada também — eu completei enquanto puxava o braço de Thor para levantar ele. — Ninguém relaxa essa madrugada.
— Já tamo vendo isso — um deles respondeu pegando o rádio.
Eu puxei Thor pelo ombro e ajudei ele a ficar de pé.
— Vambora — eu falei.
— Pra onde? — ele perguntou com a respiração ainda pesada.
— Pro meu morro — eu respondi.
Eu arrastei ele até a moto caída no chão, levantei ela rápido e subi já ligando ela e ele monta na garupa e eu saí rasgando pra minha favela pra poder olhar melhor esse machucado dele, e também porque eu sabia que a Rafaela deveria estar surtando já