Capítulo 17

1349 Words
Thor narrando — Chefe, eles tão tentando subir pela lateral! — um dos moleques gritou do beco. Eu virei o corpo imediatamente na direção que ele apontava e vi dois policiais tentando avançar protegidos pela parede de uma casa mais abaixo. — Nem fudendo — eu rosnei enquanto puxava o gatilho. A rajada bateu no muro perto deles fazendo os dois se jogarem no chão para se proteger. — Joga mais fogo nessa rua! — eu mandei olhando para outro moleque que carregava um saco cheio de pano e garrafa. Ele não perdeu tempo, tacando as garrafas improvisadas nas barricadas enquanto outro moleque acendia elas com um isqueiro. As chamas cresceram mais ainda, formando uma parede de fogo no meio da rua. A fumaça subiu pesada, preta, misturando com o cheiro de pólvora e lixo queimando. — Eles não passam dessa curva! — um dos moleques gritou enquanto trocava o carregador da arma. Eu me levantei meio agachado atrás do muro e avancei alguns passos até a próxima cobertura, pulando uma pequena grade de ferro que separava duas casas e caindo no quintal de outra. De lá eu tinha visão mais aberta da pista. Lá embaixo as viaturas estavam atravessadas na rua enquanto os policiais tentavam reorganizar a linha. Eu apertei o rádio preso no colete. — Fantasma, fala comigo — eu disse com a respiração pesada. O rádio chiou por um segundo antes da voz dele aparecer. — Tô segurando a mata — ele respondeu com a voz firme apesar do barulho de tiro ao fundo. — Tentaram subir pela trilha e já voltaram correndo. Eu soltei um sorriso curto cheio de adrenalina. — Então hoje eles não entram — eu falei apertando o fuzil com mais força. Do outro lado da rua um moleque pulou outro muro correndo e se posicionou atrás de um portão de ferro. — Chefe! — ele gritou olhando para baixo. — Eles tão chamando reforço lá na pista! Eu levantei o fuzil outra vez e mirei na direção das lanternas. — Então manda eles subir — eu respondi puxando outra rajada pesada que explodiu na rua lá embaixo enquanto as chamas das barricadas iluminavam a favela inteira. A rua já estava virada num inferno completo quando as primeiras viaturas de reforço começaram a aparecer lá embaixo na pista, os faróis rasgando a fumaça das barricadas que queimavam no meio da subida enquanto os policiais tentavam reorganizar a linha para avançar mais uma vez. O barulho das sirenes misturado com o eco dos tiros fazia o ar vibrar dentro do peito, e a fumaça preta das lixeiras pegando fogo subia pesada entre as casas, deixando o cheiro de plástico queimado e pólvora impregnado em tudo. Eu já não estava mais parado em um ponto só havia tempo; naquela altura eu corria de um lado para o outro pela linha da rua principal, pulando muro, entrando em quintal, saindo por beco, reposicionando os moleques para fechar cada canto onde aqueles filhos da p**a tentavam ganhar terreno. — Mais viatura na pista! — um dos vapores gritou lá de cima do beco enquanto apontava para baixo com o fuzil. Eu me abaixei atrás de um muro baixo de concreto e puxei o rádio preso no colete. — Chama reforço do morro do Fantasma — eu falei rápido apertando o botão enquanto trocava o carregador do fuzil. — Fala pra subir pela mata e fechar aqui comigo. O rádio chiou por um segundo antes da resposta vir. — Já tão vindo, chefe — a voz respondeu abafada pelo barulho de tiro. Eu levantei o corpo por cima do muro e descarreguei outra rajada na direção das lanternas lá embaixo. O clarão do disparo iluminou o beco e os policiais que estavam tentando avançar pela lateral se jogaram para trás do escudo de metal enquanto gritavam ordem entre eles. — AVANÇA! AVANÇA! — um deles berrou lá de baixo. — Avança o c*****o! — eu respondi puxando outra rajada pesada que fez os caras recuarem de novo. Um moleque passou correndo por mim pulando o muro do quintal ao lado com o fuzil atravessado no peito. — Chefe, eles tão tentando subir pela viela da sete! — ele falou ofegante enquanto se abaixava perto de mim. — Então fecha aquela p***a! — eu respondi já correndo na direção do beco. Eu atravessei o quintal em dois passos largos e pulei a grade de ferro que separava as casas, caindo na viela estreita enquanto os tiros continuavam estourando lá na rua principal. Dois moleques já estavam ali segurando posição atrás de uma pilha de tijolo e um portão de ferro velho. — Segura essa linha! — eu falei me posicionando ao lado deles enquanto apoiava o fuzil no muro e mirava na descida da viela. Um vulto apareceu correndo lá embaixo. Eu puxei o gatilho sem pensar duas vezes. A rajada bateu no chão e no muro perto dele, fazendo o policial se jogar para trás imediatamente. O eco do disparo subiu pela viela como um trovão. — Toma essa p***a! — um dos moleques gritou ao meu lado enquanto disparava também. Os tiros começaram a vir mais fortes agora, ricocheteando nos muros e levantando pedaços de cimento perto da nossa cabeça. Eu senti um impacto seco no muro atrás de mim e me abaixei mais ainda, trocando o carregador do fuzil rápido enquanto respirava pesado. Foi quando o rádio estourou de grito. — CHEFE! CHEFE! Eu puxei o aparelho com a mão livre. — Fala! Do outro lado vinha só gritaria e tiro. — O Casé caiu! — alguém berrou no rádio com a voz desesperada. — O Casé caiu, chefe! Meu estômago apertou na mesma hora. — Onde? — eu perguntei com o maxilar travado enquanto voltava a levantar o fuzil. — Na curva da principal! — o moleque respondeu gritando. — Pegaram ele quando ele foi trocar de posição! Eu puxei outra rajada na direção da descida da viela antes de responder. — Tira ele dali! — eu mandei firme enquanto me movia de novo. — Não deixa o corpo ficar exposto! O rádio continuou gritando. — Chefe! Chefe! — FALA, p***a! — eu gritei apertando o botão com força. A resposta veio logo depois, ainda mais pesada. — O Feijão também caiu! — o moleque falou quase sem fôlego. — Tá morto aqui na viela da sete! Por um segundo tudo dentro de mim ficou quente demais. Casé. Feijão. Dois moleques que estavam comigo desde antes de eu assumir aquele morro. Eu apertei o fuzil com tanta força que os dedos chegaram a doer. — Segura essa p***a! — eu rosnei levantando o corpo outra vez e puxando mais uma rajada longa na direção da rua. Os policiais lá embaixo recuaram mais uma vez, protegendo-se atrás das viaturas e das paredes enquanto a fumaça das barricadas queimando tornava a subida cada vez mais difícil para eles. — NÃO DEIXA SUBIR! — um dos moleques gritou atrás de mim enquanto trocava o carregador. — Ninguém passa! — outro respondeu disparando pela lateral do muro. A batalha continuou daquele jeito por mais alguns minutos que pareceram horas, com tiro cruzando de um lado para o outro, moleque correndo entre os becos para reposicionar, rádio gritando ordem e informação ao mesmo tempo. Aos poucos a linha começou a estabilizar. Os policiais lá embaixo tinham parado de tentar avançar e estavam se segurando na pista, trocando tiro de longe enquanto tentavam reorganizar a entrada. Eu aproveitei aquele momento para recuar alguns passos e me encostar atrás de um muro mais alto de concreto, respirando pesado enquanto o suor escorria pela testa e o peito subia e descia rápido dentro do colete. O cansaço começou a bater junto com a tensão acumulada. Eu puxei o rádio outra vez. — Fantasma — eu falei ofegante enquanto limpava o suor da cara com o antebraço. — Qual é a situação aí na mata? O rádio chiou. Mas antes da resposta vir, um estampido seco rasgou o ar. Eu nem tive tempo de entender direito de onde veio, só senti o impacto
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