Capítulo 16

1627 Words
Thor narrando Quando os fogos estouraram no céu eu não senti medo nenhum. O que subiu dentro de mim foi uma raiva pesada, daquelas que apertam o peito e fazem a cabeça esquentar na hora. Aquela p***a não fazia sentido nenhum. O arrego estava pago, pago alto, pago no dia certo, como sempre foi pago. A polícia não subia daquele jeito sem motivo. Aquilo era provocação, era alguém querendo testar limite, querendo ver até onde a gente ia aceitar ser feito de palhaço. Quando eu entrei na boca, o clima já tinha virado guerra antes mesmo do primeiro tiro de verdade começar. Os moleques corriam de um lado pro outro puxando arma de caixa escondida, abrindo fundo falso de balcão, distribuindo carregador e colete enquanto o rádio não parava de chiar com aviso vindo da entrada da favela. O barulho de metal batendo, ferrolho sendo puxado e gente falando ao mesmo tempo tomava conta do lugar. Eu arranquei a camisa no meio da sala e puxei um colete pendurado na parede, vestindo ele rápido enquanto olhava em volta para ver quem já estava pronto para descer. — Quantas viatura subiu essa p***a? — eu perguntei olhando na direção do vapor que estava com o rádio na mão. — Pelo menos quatro, chefe — ele respondeu nervoso enquanto apertava o botão do rádio tentando ouvir melhor. — E parece que tem mais vindo atrás. Eu puxei um fuzil que estava encostado na mesa e encaixei o carregador com força, sentindo o peso da arma encaixar no ombro como se fosse uma extensão do meu próprio corpo. — Esses filha da p**a tão achando que isso aqui é passeio — eu falei com o maxilar travado enquanto puxava o ferrolho e deixava a arma pronta. Foi nesse momento que o Fantasma entrou pela porta lateral da boca já vestindo o colete, pegando outro fuzil da mesa sem perder tempo. Ele conferiu o carregador rápido, puxou o ferrolho e olhou para mim com aquela cara séria de quem já entendeu exatamente o tamanho da merda. — A favela já tá fechando — ele falou enquanto prendia um carregador reserva no bolso do colete. — Os moleques tão espalhando pelas viela. Eu confirmei com a cabeça enquanto puxava a pistola da cintura e encaixava ela no coldre do colete, sentindo o peso das armas no corpo como um aviso claro de que aquela noite não ia terminar cedo. — Então bora trabalhar — eu falei olhando para ele. Do lado de fora da boca o som de tiros já começava a ecoar lá embaixo, estourando no ar da noite enquanto os foguetes continuavam subindo para avisar a favela inteira que a polícia estava tentando entrar. Eu virei para os moleques espalhados pela sala. — Quero geral posicionado nas duas entrada da favela — eu falei alto enquanto apontava o fuzil para a porta. — Ninguém deixa esses arrombado subir essa rua. — Pode deixar, chefe — um deles respondeu enquanto puxava o carregador da arma e encaixava com força. Fantasma se aproximou de mim enquanto ajustava a alça do fuzil no ombro. — Nós dois vamos descer juntos — ele falou firme enquanto me encarava. — A gente segura uma frente só e acaba com essa p***a rápido. Eu balancei a cabeça negativamente antes mesmo dele terminar de falar. — Não — eu respondi firme enquanto pegava o rádio da mesa e prendia no colete. Ele franziu a testa imediatamente. — Thor, se a gente dividir a linha enfraquece — ele falou sério enquanto colocava mais um carregador no bolso do colete e dava um passo para mais perto. Eu cheguei mais perto dele também, mantendo o olhar firme. — Se a gente ficar junto, eles entram pelo outro lado da favela — eu respondi enquanto apontava na direção das duas saídas do morro. Fantasma ficou em silêncio por um segundo, entendendo exatamente o que eu estava falando. — Eu cerco a entrada da pista — eu continuei explicando enquanto levantava o fuzil e apoiava no ombro. — Tu pega o lado da mata. Ele passou a mão pela nuca rapidamente, claramente calculando a situação. — Aquela trilha vira funil se eles tentarem subir — ele respondeu com a voz mais baixa enquanto olhava na direção da janela da boca. — E é exatamente por isso que eu quero tu lá — eu retruquei enquanto encarava ele. Fantasma respirou fundo antes de responder. — Eu prefiro que a gente fique junto — ele insistiu enquanto balançava a cabeça. — Se der merda num lado só a gente resolve rápido. Eu encostei o fuzil no peito dele de leve, mais para chamar atenção do que para provocar. — Tu vai me ajudar muito mais fechando a mata do que grudado em mim aqui — eu falei com a voz firme enquanto mantinha o olhar travado no dele. Ele me encarou por mais alguns segundos. Então assentiu devagar. — Tá — ele respondeu curto enquanto virava o corpo na direção dos moleques. Eu bati a mão na mesa chamando atenção de todo mundo. — Divide os homens — eu mandei alto enquanto apontava na direção da rua. — Metade comigo pela pista, metade com o Fantasma pela trilha da mata. Os caras começaram a se organizar imediatamente, pegando arma, carregador e rádio enquanto a tensão crescia no ar. — Vamo nessa — um deles falou já correndo para fora da boca. Eu puxei a moto que ficava encostada na lateral do ponto enquanto Fantasma fazia o mesmo com a dele. O motor das duas rugiu quase ao mesmo tempo quando a gente deu partida, o barulho ecoando pela rua da favela. Eu olhei para ele por um segundo antes de subir de vez na moto. — Qualquer coisa chama no rádio — eu falei enquanto encaixava o fuzil nas costas. — Não deixa esses filho da p**a subir — ele respondeu enquanto acelerava o motor. Eu dei um sorriso curto, cheio de raiva. — Nem fudendo. No segundo seguinte as duas motos arrancaram em direções opostas, cada uma levando uma tropa de moleque armado atrás enquanto o som dos tiros já começava a se espalhar pela favela inteira. A moto desceu a rua principal da favela rasgando o silêncio da noite com o motor berrando alto, e atrás de mim vinham os moleques espalhados em mais três motos e dois correndo pelas vielas laterais com fuzil atravessado no peito. O som dos tiros já começava a subir da entrada da pista como trovão seco batendo nos becos de concreto, ecoando entre as casas e fazendo cachorro latir e portão bater enquanto os moradores apagavam as luzes e se trancavam dentro de casa sabendo exatamente o que estava acontecendo lá fora. Eu conhecia aquele cenário desde moleque, mas aquilo não fazia a raiva diminuir nem um pouco, porque na minha cabeça só martelava uma coisa: o arrego estava pago e mesmo assim aqueles filhos da p**a tinham resolvido subir. Eu freie a moto atravessando ela no meio da rua logo antes da curva que dava visão direta para a entrada da favela, e os moleques atrás de mim fizeram a mesma coisa jogando as motos de lado e pulando para trás dos carros velhos e muros que já serviam de cobertura. O clarão das lanternas das viaturas já piscava lá embaixo enquanto os policiais tentavam subir a rua em formação, protegidos pelas portas abertas das viaturas e pelo escudo de metal que dois deles carregavam na frente. — Segura essa p***a aqui em cima! — eu gritei alto enquanto levantava o fuzil e encaixava no ombro, olhando para os moleques espalhados pelas laterais da rua. — Tamo junto, chefe! — um deles respondeu enquanto se agachava atrás de um carro abandonado e puxava o ferrolho da arma. O primeiro tiro veio de baixo, seco, estalando no muro da casa ao meu lado e levantando um pedaço de reboco que voou perto da minha cabeça. Eu não pensei duas vezes antes de responder, puxando o gatilho e deixando a rajada descer pela rua em direção ao clarão das lanternas. O barulho do fuzil explodiu no ar da noite e imediatamente os outros moleques começaram a atirar também, transformando a rua estreita num inferno de estampido, faísca e eco. — TACa fogo nessa p***a dessas lixeira! — eu gritei virando a cabeça para um dos vapores que estava atrás de mim com um galão de gasolina na mão. — Já foi! — ele respondeu correndo até as lixeiras de metal encostadas no canto da rua. O cheiro forte de gasolina subiu no ar antes mesmo do fósforo riscar, e em poucos segundos as chamas começaram a crescer, iluminando a rua com um clarão laranja que fazia as sombras dançarem nas paredes das casas. O fogo não era só para assustar, era para criar barreira, fumaça, bagunçar a visão de quem tentava subir. Lá embaixo os policiais continuavam tentando avançar. — Avança com o escudo! — alguém gritou da linha deles. — AVANÇA O c*****o! — eu respondi puxando mais uma rajada que fez os caras recuarem um passo. Os moleques começaram a se espalhar mais ainda pelas laterais da rua. Um pulou o muro de uma casa baixa, passando para o quintal e abrindo outro ângulo de tiro pela lateral. Outro subiu correndo pelo beco estreito entre duas casas para aparecer alguns metros mais acima, criando linha cruzada. — Segura a lateral! — eu gritei para ele enquanto me movia também. Eu pulei por cima do capô de um carro velho e me joguei atrás de um muro baixo de concreto, sentindo o impacto da queda no joelho enquanto encostava o fuzil na borda e voltava a mirar na direção da pista. Os tiros continuavam cantando.
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