Rafaela narrando
O pagode já estava daquele jeito que eu gosto, cheio, barulhento, com o povo cantando alto e o chão vibrando com o grave do paredão, quando tudo mudou de uma hora pra outra. Eu ainda estava dançando com a Mirela, tentando manter a cabeça ocupada na música e na bebida pra não pensar no fantasma, na cena ridícula que ele tinha feito mais cedo e em tudo que ele tinha jogado na minha cara dentro daquele carro. Eu me forçava a focar no ritmo do samba, no jeito que o meu corpo acompanhava o pandeiro e o tantã, deixando o quadril solto na batida enquanto o grupo puxava mais um refrão que a galera gritava junto. Por alguns minutos parecia que eu tinha conseguido realmente me distrair, esquecer aquele caos todo que estava dentro da minha cabeça, até que o primeiro estrondo cortou o céu como um tiro de canhão.
O som do foguete explodindo lá em cima fez todo mundo levantar a cabeça ao mesmo tempo, e eu senti o estômago afundar imediatamente porque aquele tipo de fogos não era festa nenhuma. Era aviso. Era sempre aviso. Mirela agarrou meu braço na mesma hora, os olhos arregalados enquanto olhava pro céu e depois pra mim completamente perdida no meio daquilo.
— Rafaela… o que foi isso? — ela perguntou com a voz já tremendo.
Eu nem precisei pensar para responder, porque quem cresce nesse ambiente aprende a reconhecer esses sinais desde cedo.
— Invasão — eu falei sem rodeio, sentindo o coração disparar dentro do peito.
Ela me encarou completamente em choque.
— Invasão de quem?
— Polícia.
Nem deu tempo dela processar direito aquela resposta, porque o segundo foguete subiu rasgando o céu logo depois do primeiro e explodiu com um clarão que iluminou a praça inteira por um segundo. A música parou, a roda de pagode desmanchou no meio da batida e o barulho de gente correndo começou a dominar o lugar. Copos caindo no chão, cadeira sendo arrastada, mulher gritando, gente tentando sair da praça ao mesmo tempo enquanto alguns dos caras já puxavam as armas que estavam escondidas debaixo das mesas.
O meu coração deu um aperto imediato quando eu olhei na direção do meu irmão e do fantasma lá na mesa deles. Eu sabia exatamente o que ia acontecer agora, porque essa era a vida deles, essa era a função deles naquele lugar. Eles não iam sair correndo. Eles iam ficar.
E mesmo sabendo disso desde sempre, mesmo sabendo que aquilo fazia parte do mundo que eu nasci dentro, ver aquilo acontecendo na minha frente ainda fazia meu peito apertar de um jeito que eu odiava sentir.
Foi quando o fantasma apareceu na minha frente e agarrou meu braço com aquela expressão fechada que eu conhecia bem demais. Ele falou comigo rápido, seco, dizendo que eu precisava sair dali imediatamente, que a polícia estava subindo e que aquilo ia virar um inferno em poucos minutos. Eu ainda quis discutir, porque a última coisa que eu queria naquele momento era obedecer qualquer ordem dele depois de tudo que tinha acontecido entre nós, mas quando o primeiro estampido de tiro ecoou lá na entrada da favela eu senti o chão sumir debaixo dos meus pés.
— Vem comigo agora — eu falei.
Ela ainda estava completamente perdida.
— Pra onde?
— Só vem.
Eu praticamente arrastei ela pelos degraus do camarote enquanto a praça virava uma bagunça completa. Gente correndo para todo lado, alguns homens já descendo armados na direção da entrada da favela, mulheres chorando, gente tentando subir nos carros para sair dali o mais rápido possível.
A moto do fantasma estava estacionada logo na lateral da praça.
Eu subi nela sem pensar duas vezes e virei para Mirela.
— Sobe — eu mandei.
Ela me encarou completamente apavorada.
— Rafaela, eu preciso ir embora, como nós vamos sair daqui com o tanto de tiro — ela fala em pânico
— sobe logo que nós vamos sair daqui, vem — eu falei puxando ela pra moto dele que era gigante mas eu sei pilotar muito bem
Ela subiu na garupa completamente tremendo e se agarrou na minha cintura como se a vida dela dependesse disso, o que naquele momento provavelmente dependia mesmo.
Eu acelerei sem olhar para trás.
A rua principal da favela já estava começando a travar com gente correndo e carros tentando sair ao mesmo tempo, então eu virei direto na trilha lateral que levava para o caminho da mata, o atalho que a gente usava quando precisava cortar caminho entre um morro e outro.
A moto começou a subir pela trilha de terra enquanto o som dos tiros já começava a ecoar lá atrás.
— Meu Deus, Rafaela… estão atirando! — Mirela gritou atrás de mim.
— Fica quieta e segura — eu respondi.
A trilha estava cheia de lama porque tinha chovido no dia anterior, e em vários pontos a roda da moto começou a deslizar enquanto eu acelerava morro acima tentando manter o controle. O barro espirrava para os lados, o motor rugia enquanto eu forçava a subida e Mirela se agarrava cada vez mais forte na minha cintura.
— A gente vai cair! — ela gritou desesperada quando a moto derrapou numa curva.
— Não vai não — eu respondi firme, mesmo sentindo o coração batendo tão rápido que parecia que ia sair pela boca.
Eu conhecia aquele caminho desde pequena.
Sabia exatamente onde acelerar e onde diminuir.
Mesmo com a lama puxando a moto para os lados, eu continuei subindo pela trilha estreita que atravessava a mata e ligava um morro ao outro. Lá atrás os tiros continuavam ecoando no ar, misturados com o barulho distante de sirenes e gritos.
Meu peito estava apertado pensando no meu irmão e no fantasma ficando para trás naquela confusão, mas eu sabia que voltar não era opção. Aquela era a vida deles. Eles sabiam exatamente o que estavam fazendo.
A trilha finalmente terminou quando a gente saiu da mata e entrou na rua de acesso da nossa favela.
Eu acelerei mais um pouco, passando pelas casas e pelos becos até chegar na parte alta do morro, onde ficava a mansão que meu pai mandou construir anos atrás.
Eu subi a rampa de pedra da garagem e parei a moto de uma vez só.
Mirela demorou alguns segundos para soltar minha cintura.
Quando ela finalmente desceu da moto, parecia que as pernas dela não estavam respondendo direito.
Ela olhou em volta completamente em choque.
A casa iluminada, enorme, cercada pelos muros altos e pelos seguranças que já tinham saído para ver quem estava chegando naquela correria.
— Rafaela… — ela murmurou olhando para a mansão como se estivesse vendo outro planeta. — Que lugar é esse?
Eu desliguei a moto, ainda tentando controlar a respiração enquanto o coração continuava acelerado dentro do peito.
— Minha casa — eu respondi simplesmente.
E enquanto eu falava aquilo, lá no fundo da minha cabeça só tinha uma coisa martelando.
Meu irmão ainda estava lá, fantasma também e o meu coração ficou junto com eles enquanto eu estava sozinha aqui…
Eu levantei a mão chamando atenção deles antes que começassem a agir sem organização.
— Escuta aqui — eu falei firme. — Fecha a favela.
Eles olharam para mim imediatamente.
— Fecha tudo — eu repeti. — Quero barricada nas duas entradas da rua principal agora. Ninguém entra, ninguém sai.
Um deles assentiu já pegando o rádio.
— Pode deixar, patroa.
Eu continuei falando rápido, porque naquela hora não dava pra pensar duas vezes.
— Esconde as drogas da boca — eu completei. — Tira tudo que tiver exposto. Quero tudo sumido antes que qualquer viatura resolva vir dar uma volta por aqui.
Eles confirmaram de novo com a cabeça enquanto o cara do rádio já começava a falar com os outros pontos da favela.
— E presta atenção numa coisa — eu continuei olhando direto para eles. — Fecha a área da mata também.
Um dos moleques franziu a testa.
— Pela trilha?
— Pela trilha — eu respondi. — Aquela passagem da mata que liga os dois morros. Fecha aquilo lá agora.
Eles já estavam entendendo o raciocínio.
— Forma um paredão lá — eu disse. — Quero gente armada na entrada da trilha. Se alguém tentar subir por ali e não for dos nossos vocês já sabem o que fazer. — eu falo firme com eles
Um dos seguranças já estava discando no rádio enquanto falava.
— Vou mandar dois blocos de moleque pra lá agora.
Eu confirmei com a cabeça.
— Manda mesmo. Dois blocos armados e espalha eles pela mata. Se o Fantasma chamar reforço lá de baixo, a gente já tá posicionado.
O cara respondeu no rádio rapidamente, dando as ordens enquanto os outros dois já começavam a se movimentar pela garagem.
— Pode deixar, patroa. A gente fecha tudo agora.
Eu passei a mão pelo cabelo tentando controlar a tensão que ainda estava no meu corpo inteiro enquanto observava a movimentação começar. Dois deles já saíram correndo pela rampa que descia para a rua principal enquanto o outro continuava no rádio coordenando os pontos da favela.
— E fica ligado no rádio — eu completei antes deles saírem. — Se o Fantasma chamar, vocês respondem na hora.
— Pode deixar, patroa — um deles respondeu já correndo em direção ao portão.
Em poucos segundos a tranquilidade da frente da mansão tinha desaparecido completamente e a favela inteira começava a se mexer. Gente correndo pelas ruas, rádio chiando, portões fechando, moto ligando para levar recado de um ponto para outro.
Eu respirei fundo olhando tudo aquilo acontecer.
Era estranho pensar que, mesmo tentando viver minha vida longe desse lado do morro quando eu estava na faculdade ou em qualquer outro lugar, aquilo ainda fazia parte de mim desde sempre. Eu sabia exatamente o que fazer, exatamente como agir quando a situação apertava.
Foi quando eu lembrei que Mirela ainda estava parada atrás de mim.
Eu virei o rosto e vi ela completamente imóvel, olhando para a movimentação em volta como se estivesse dentro de um filme.
— Rafaela… — ela murmurou quase sem voz. — O que tá acontecendo?
Eu segurei a mão dela.
— Vem comigo.
Ela não resistiu.
Eu puxei ela pela mão e subi os degraus da entrada da casa enquanto os seguranças continuavam correndo pela área externa organizando as barricadas e os pontos de defesa.
Assim que a gente entrou no hall enorme da mansão, o silêncio do interior da casa contrastou completamente com o caos que tinha começado lá fora.
Mirela olhava em volta completamente atordoada.
— Meu Deus… — ela murmurou observando o tamanho da sala, os lustres, as escadas largas que subiam para o segundo andar.
Eu fechei a porta atrás da gente e virei para ela.
— Fica calma — eu falei tentando manter a voz firme mesmo com o coração ainda acelerado. — Aqui dentro você tá segura.
Ela me encarou como se ainda estivesse tentando entender quem eu realmente era.
— depois eu juro que te explico tudo, agora eu não consigo, eu preciso saber notícias de lá…— eu falo com ela pegando o meu celular e tentando contato com os meninos pra pegar a visão de como tá a invasão lá…