Capítulo 12

1721 Words
Rafaela narrando — Oi, amiga, você por aqui? Eu reconheci Mirela imediatamente e retribuí o abraço com um sorriso sincero que escapou antes mesmo que eu pudesse controlar. Ela era uma das meninas da faculdade, dessas pessoas que entram na sua rotina quase sem perceber porque dividem sala, trabalhos, provas e aquelas conversas rápidas no intervalo das aulas. Ver ela ali no meio do morro, no meio daquele pagode cheio de gente do movimento, foi inesperado o suficiente para me arrancar uma surpresa verdadeira. — Mirela… — eu falei rindo baixo enquanto abraçava ela direito. — Eu não sabia que você vinha em pagode de favela também. Ela se afastou um pouco para me olhar melhor, o rosto carregado de curiosidade enquanto observava o lugar ao redor como se estivesse tentando absorver tudo ao mesmo tempo. — Eu também não sabia que você frequentava esse tipo de lugar — ela respondeu com aquele tom meio divertido, meio intrigado. Eu sorri de canto, mantendo a expressão tranquila enquanto levantava o copo na mão e dava um gole na mistura de whisky com energético. Desde o primeiro dia de faculdade eu tinha decidido que minha identidade ali seria apenas a de uma aluna comum. Não era sobre vergonha ou sobre esconder quem eu era por falta de orgulho, mas sim sobre segurança. Sobre proteção. Sobre não sair contando para qualquer pessoa que eu era filha de quem eu era e que carregava um peso enorme dentro de um lugar como aquele. Não era uma coisa inteligente de se fazer e eu tinha aprendido desde pequena que certas informações simplesmente não precisavam ser compartilhadas. Então eu mantive a naturalidade. — Às vezes eu gosto de vir curtir também — respondi com um leve dar de ombros. — Não tem nada demais nisso. Ela riu, parecendo relaxar com a resposta. — Eu vim porque estava cheia de problema em casa — Mirela continuou enquanto olhava a roda de pagode que acontecia logo à frente. — Dor de cabeça, discussão, essas coisas. O João disse que tinha um pagode aqui hoje e eu resolvi arriscar subir pra ver qual era. Eu nunca vim aqui na vida. Eu escutava ela falar enquanto tentava reorganizar meus próprios pensamentos dentro da minha cabeça. Eu precisava voltar a me concentrar na música, no ambiente, na conversa com ela. Precisava conseguir aproveitar aquela noite. Precisava viver aquele momento e parar de pensar no que tinha acontecido dentro daquele carro minutos antes. Porque quanto mais eu lembrava das palavras do Fantasma, mais uma mistura absurda de raiva e frustração crescia dentro de mim. Agora muita coisa fazia sentido. O afastamento dele depois dos meus quinze anos. As mudanças no comportamento dele. O jeito como ele passou a me tratar como se eu fosse uma presença que ele precisava evitar. Durante anos eu tentei entender aquilo, tentei encontrar explicações, imaginei mil possibilidades diferentes para justificar aquele afastamento repentino. E agora tudo se resumia a uma única palavra que ecoava dentro da minha cabeça. Covardia. Era impressionante perceber que o homem que mais me ensinou a desprezar gente covarde estava se comportando exatamente como aquilo que ele sempre disse odiar. Fantasma foi uma das pessoas que mais repetiu para mim que covarde não tinha vez, que homem de verdade encarava as consequências do que sentia e do que fazia. Cresci ouvindo aquilo sair da boca dele como se fosse uma lei absoluta da vida. E agora ele estava ali, escondido atrás de uma promessa, atrás do meu pai, atrás de uma lealdade que parecia mais uma desculpa para não enfrentar o que existia entre nós dois. A revolta voltava a crescer dentro do meu peito só de pensar nisso. Foi então que eu percebi um movimento conhecido saindo de um dos becos laterais da praça. Meu corpo reagiu automaticamente quando reconheci a silhueta do meu irmão caminhando na direção da pista, acompanhado por duas morenas que vinham rindo atrás dele. Thor estava com aquele mesmo jeito dominante de sempre, andando com passos largos enquanto atravessava a multidão sem pedir licença para ninguém, com os seus seguranças em volta dele abrindo espaço, pro rei passar. Assim que os olhos dele me encontraram no meio da roda de pagode, a expressão dele mudou imediatamente. Eu respirei fundo. — Mirela… — falei calmamente enquanto ela ainda olhava para mim sem entender nada. — Não se assusta, tá? Ela franziu a testa. — Por quê? Ela não precisou esperar muito para descobrir. Thor chegou praticamente me peitando no meio da praça, a presença dele impondo silêncio em volta da gente por alguns segundos. — Vai pra casa agora, Rafaela. Vai embora. — ele falou com aquela voz firme que ele usava quando estava tentando manter a calma. — Você quer que eu fale com teu pai na visita com a mãe? Quer mesmo que eu ligue pro coroa agora? Mirela ficou completamente imóvel ao meu lado, os olhos arregalados enquanto tentava entender o que estava acontecendo. Eu levantei o queixo imediatamente, encarando meu irmão com a mesma firmeza que ele usava comigo. — Para de querer me controlar — respondi sem abaixar o tom da voz. — Você é herdeiro? Eu também sou. Você é dono? Eu também sou. A mandíbula dele travou. — E se você continuar enchendo a p***a do meu saco — continuei apontando discretamente na direção da favela onde eu morava — eu volto pra lá e faço um pagode na minha favela também. E vai ser lá que eu vou curtir. Eu dei um passo mais perto dele. — O que você prefere? Eu aqui, sob os seus olhos, ou eu lá? Porque lá ninguém vai me controlar. Nem você, nem Fantasma, nem ninguém. Eu só tô curtindo a p***a de um pagode como todo mundo. Então volta pras suas putas, vai curtir com elas e me deixa em paz. Thor abriu a boca para responder, mas eu continuei encarando ele sem baixar os olhos. Nós dois éramos muito parecidos naquele ponto. Orgulhosos. Teimosos. Temperamento explosivo que ninguém conseguia controlar quando decidíamos bater de frente. Ele sabia que se ele explodisse ali, eu ia explodir também. E quando isso acontecia, quem explodia depois era o nosso pai. Thor permaneceu me encarando por alguns segundos, claramente irritado, mas também percebendo que eu não ia sair dali. Que eu não ia voltar atrás. Que eu não ia baixar a cabeça. Ele virou o rosto e socou com força a estrutura de ferro do mezanino que ficava ao lado da praça, o barulho seco ecoando no meio da música. — Então faz o seguinte — ele falou irritado, respirando pesado. — Fica na mesa ali do lado. Não fica aqui na pista pelo menos. Eu pensei por um instante e dei de ombros. — você vai me deixar curtir ou vai continuar me infernizando ? — eu questiono peito a peito com ele Ele pode tá armado até os dentes, mas pra mim ele é e nunca vai deixar de ser apenas o meu irmão. Eu não tenho medo dele, eu tenho respeito, mas pra isso ele também precisa me respeitar como mulher, não mais como a criança que eu era, agora eu não sou mais, e ele já sabe disso, só não gosta de aceitar, e eu entendo a sua proteção, mas eu não posso deixar ele me dominar dessa forma só por eu ser mulher e não andar trepada de fuzil Ele me lançou mais um olhar duro antes de se afastar novamente. Eu virei para Mirela e segurei o braço dela com um sorriso tranquilo, como se nada demais tivesse acontecido. — Vem, Mi. Vamos sentar ali comigo. Ela ainda parecia completamente chocada, olhando entre mim e a direção para onde Thor tinha ido. E foi nesse momento que eu percebi que ela tinha reparado nos detalhes que eu preferia que ninguém notasse tão rápido. As duas pistolas presas na cintura dele. O fuzil atravessado no peito. Eu respirei fundo. Porque naquele instante ficou claro que não havia mais como fingir que minha vida era exatamente igual à dela. — vamos ficar aqui — eu falo entrando com ela no camarote do lado do meu irmão que estava cheio de bandido — seu irmão ? Você é…? — ela começa a perguntar com medo sem nem saber ao certo perguntar Mas, antes que eu responda eu vejo o fantasma voltando pra mesa do meu irmão de cara fechada e as suas mãos cheias de sangue. Eu confesso que meu coração apertou na hora, meus olhos encheram de lágrimas que eu não deixei derramar nenhuma, eu não podia negar o quanto essa situação me machucava, mesmo que eu não fosse me tornar refem, mas machucava, era inevitável — acho que você precisa de álcool pra eu te contar algumas coisas — eu falo com ela que concorda na mesma hora — meu deus, eu achei que a minha vida tava um caos, mas agora eu nem sei mais…— ela fala e eu peço o menino pra trazer um combro pra mim e antes que viesse o meu eu roubo uma garrafa da mesa do meu irmão que só me encara e não fala nada, mas eu vejo o seu olhar caindo na Mirela e eu dou só um se liga nele que já estava com outra p**a no colo e ele me dá aquele sorriso malandro e eu n**o sem falar nada A gente pode até não cair na porrada mais como antigamente, mas a conversa por olhar nunca muda, sangue do meu sangue e vamos até o inferno um pelo outro, mas também brigamos como qualquer irmãos do mundo — eu sou herdeira disso aqui, sou irmão do brutamonte ali — eu falo e a Mirela vira uma dose na boca me olhando assustada e eu dou risada — mentira isso, meu pai amado…— ela fala e olha pro meu irmão que dá uma piscada pra ela — amiga, foi ele… ele ontem deu uma surra no Caio, o Caio tá no hospital com o maxilar quebrado, vai ter que passar por uma cirurgia…— ela fala olhando pro fantasma apavorada Ela da dois passos pra trás na hora ficando pálida e eu passo a mão no rosto p**a, ele não quer, não assume, e ainda me arranja problemas pra lidar…
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