Capítulo 01
— Tina, sorria.
A voz do meu pai veio baixa, mas firme o suficiente para fazer minhas costas endurecerem na mesma hora. Eu sorri. Claro que sorri.
O salão luxuoso do hotel brilhava ao nosso redor, repleto de empresários importantes, taças de cristal e pessoas ricas fingindo felicidade umas para as outras. O cheiro caro dos perfumes se misturava ao som elegante do piano ao fundo, enquanto garçons passavam carregando bandejas que custavam mais do que muita gente ganhava em um mês.
E eu estava ali. Perfeita. Como sempre.
— Doutor Augusto, sua filha está cada dia mais linda — um homem comentou, apertando a mão do meu pai.
Meu pai sorriu orgulhoso, segurando minha cintura de leve.
— Puxou a mãe.
Abaixei os olhos por um segundo. A menção à minha mãe sempre fazia algo apertar dentro de mim, mesmo depois de tantos anos.
— Valentina está terminando a faculdade com notas excelentes — ele continuou. — E o Bernardo já está ajudando bastante no escritório.
Claro. Bernardo. Meu namorado perfeito.
Como se tivesse sido invocado pelo nome, ele apareceu ao meu lado segundos depois, alinhando a mão nas minhas costas.
— Vocês estão falando m*l de mim? — ele brincou, arrancando risadas educadas ao redor.
Tão bonito. Tão educado. Tão... certo. O tipo de homem que encaixava perfeitamente na minha vida. Então por que eu me sentia tão vazia perto dele?
— Você sumiu — ele murmurou perto do meu ouvido.
— Só fui ao banheiro.
— Demorou.
Sorri de novo. Sempre sorrindo.
Bernardo segurou minha taça antes mesmo de perguntar se eu queria outra bebida. Escolheu por mim, como sempre fazia. Pequenos detalhes. Detalhes tão pequenos que talvez ninguém percebesse, mas eu percebia. Percebia quando ele interrompia minhas respostas. Quando escolhia minhas roupas com "sugestões". Quando dizia o que "combinava comigo". Quando falava do nosso futuro como se eu já tivesse aceitado tudo.
Casamento. Filhos. O escritório do meu pai. A vida perfeita. A vida que eu deveria querer.
— Você está quieta hoje — meu pai comentou.
— Só estou cansada.
Mentira. Eu estava sufocando. O vestido apertava meu corpo, o salto machucava meus pés, as vozes me irritavam e os olhares me exauriam. Tudo naquela vida parecia bonito demais para ser real.
— Vou pegar um ar — falei baixo.
Meu pai assentiu sem nem olhar direito para mim, já ocupado falando de negócios outra vez. Saí do salão tentando respirar normalmente. O silêncio do corredor pareceu um alívio imediato. Soltei o ar devagar, andando até a área externa do hotel.
A cidade brilhava lá embaixo. Luzes, carros, prédios... vida. Encostei as mãos na sacada e fechei os olhos por alguns segundos, até ouvir o som de uma moto. Alto. Forte. Chamando atenção.
Abri os olhos automaticamente. Uma moto preta tinha parado do outro lado da rua. O garoto tirou o capacete devagar. Pele morena, cabelo escuro cacheado, corrente de prata no pescoço e tatuagens subindo pelo braço.
Perigoso.
Foi a primeira palavra que passou pela minha cabeça. E talvez ele tivesse percebido isso pelo jeito que me olhou. Direto. Sem desviar. Sem educação forçada. Sem intenção de impressionar. Só olhando.
Meu coração falhou uma batida. Ele soltou uma risada fraca, quase debochada, enquanto acendia um cigarro. Como se já conhecesse garotas como eu; como se soubesse exatamente o que eu estava pensando.
Desviei o olhar primeiro. E odiei isso. Quando tornei a olhar... ele ainda me observava. Sem vergonha nenhuma.
Meu celular vibrou na bolsa:
BERNARDO ❤️
*Amor, seu pai está perguntando de você.*
Apertei a tela sem responder. Mas antes de entrar, olhei mais uma vez para o outro lado da rua. Ele ainda estava lá, me olhando como se pudesse enxergar algo por trás da garota perfeita que eu fingia ser.