Nando
Um novo golpe na altura do meu estômago me deixa zonzo e sem ar. Os meus agressores riem alegres com a minha dor. Tento me levantar, mas sou atingido por um novo golpe na cabeça e apago.
Acordo sentindo gosto de sangue na boca, os meus olhos estão tão inchados que m*l consigo abri-los e todo o meu corpo dói sempre que respiro. Ainda estou jogado no chão frio da cela e não faço ideia de quanto tempo passou. Sento com muita dificuldade e me recosto na parede.
_ Visita para você. – Um policial avisa, mas não me dou ao trabalho de erguer a cabeça para ver quem é o visitante.
_ Como passou a noite? Eles te trataram bem? – A voz de Thomás faz a raiva voltar a pulsar em meu peito.
Me ergo, ignorando por completo a dor, e avanço contra as grades grossas que nos separam.
_ Parece que recebeu a minha mensagem. – Seu tom sarcástico me irrita ainda mais.
_ Covarde! – Aperto ainda mais as grades para me manter em pé. – Precisa mandar recados por terceiros porque tem medo de me enfrentar.
_ Faço isso porque não quero sujar as minhas mãos com vermes como você. – Desdenha arrumando a manga do paletó.
_ Então, o que faz aqui?
_ Vim para ver a sua cara quando souber da grande novidade. – Se aproxima mais com um sorriso de lado. – Brenda e eu vamos nos casar dentro de alguns meses.
_ Isso é uma grande mentira. – Balanço a cabeça em negação. – Nós dois sabemos muito bem que ela não quer nada com você.
_ Acontece que ela mudou de ideia depois que você quase a matou com a sua imprudência ao tira-la de casa daquele jeito.
_ Não é verdade.
_ Tanto é verdade que nós já estamos programando a nossa volta para Londres para começarmos com os preparativos para o casamento. Queria muito que você estivesse presente, mas sua presença não faria bem a Brenda.
_ Seu desgraçado! – Estico a mão por entre as grades tentando agarra-lo pelo colarinho, mas ele é mais rápido.
_ Quietinho aí! – Um policial surge me batendo com o cacetete, desequilíbrio quando tento desviar e acabo indo de encontro ao chão. – Tudo bem com o senhor?
_ Sim. – O vejo abotoar o paletó quando ergo a cabeça. – Cuida bem do nosso amigo. Aviso quando pode o liberar.
_ Espero suas ordens. – O policial se prontifica.
Os dois se afastam enquanto me mantenho encolhido no chão sujo da cela. Sinto a minha alma morrer um pouco a cada vez que me lembro das palavras daquele i****a.
Em algum momento do dia mamãe vem me visitar para trazer alguma comida e arma um pequeno escândalo ao se deparar com o meu estado. O que só piorou o tratamento que vinha recebendo desde que cheguei. Levo uma nova surra após a sua saída, mas dessa vez não resisto. Apenas deixo que façam comigo o que querem. Nem mesmo a dor me incomoda e novamente sou engolido pela escuridão.
_ Tirem ele dessa cela agora! – Esbraveja Diego, o pai do meu melhor amigo Santiago.
Ouço o barulho de passos apressados e da cela sendo aberta. Tento erguer a cabeça, mas parece que não tenho controle do meu próprio corpo. Essa deve ser a pior sensação do mundo.
_ Consegue me ouvir, Nando? – Pergunta me tomando em seus braços, mas tudo o que consigo fazer é gemer de dor. – Vai ficar tudo bem. Nós vamos te levar para o hospital e cuidar de você.
O que parece ser uma equipe paramédicos invade a cela e começa a me atender. Ele prendem algo em meu pescoço e me amarram uma espécie de tábua antes de me carregarem para fora. É fim de tarde, mas a luz, ainda que fraca, me cega um pouco.
As pessoas falam comigo, mas não consigo formular respostas. Estou em algum lugar entre a consciência e a inconsciência. Quando chegamos ao hospital lembranças das palavras de Thomás me atingem em cheio fazendo o ar faltar e as coisas ficarem cada vez mais confusas até tudo se apaga novamente.
_ Quando acha que ele vai acordar, doutor? – Ouço a voz preocupada da minha mãe ao longe.
_ Não sabemos. – Uma outra voz que desconheço responde. – Só depende da força de vontade dele agora.
Sinto como se meus olhos estivessem grudados e preciso fazer um grande esforço para abri-los. Pisco algumas vezes para me adaptar a iluminação do cômodo. Minha mãe e o médico correm para perto ao notarem que acordei.
_ Você acordou meu amor. – Mamãe fala com a voz embargada pelo choro enquanto beija a minha mão. – Obrigada meu Deus! – Exclama olhando para o teto imaculado do hospital.
O médico espera pacientemente que ela se afaste e então começa a me examinar. Respondo a uma avalanche de perguntas corriqueiras do dia a dia. Perguntas como: qual é o meu nome, quantos anos tenho, em que ano estamos e quem são os meus pais.
_ Não entendo por que todas essas perguntas? – Questiono meio confuso enquanto uma enfermeira coleta meu sangue.
_ Você teve uma concussão e ficou em coma por três dias. – A informação me deixa em choque. – Também tem duas costelas quebradas.
_ Mas agora já está tudo bem com ele, não é? – Mamãe pergunta ainda com os olhos brilhando pelas lágrimas.
_ Vamos precisar repetir alguns exames de imagem antes de dar uma palavra final, mas tudo parece estar correndo bem. – O médico diz com um meio sorriso. – Preciso ir agora. A enfermeira Lúcia vai te levar para fazer seus exames.
A enfermeira é bastante alegre e me faz rir durante todos os exames. Mas, mesmo em meio ao riso, uma parte do meu cérebro ainda segue presa a conversa que tive com Thomás.
Quando sou levado de volta para o quarto mamãe está acompanhada de Catarina. A minha irmã praticamente se atira em meus braços assim que me vê. Um gemido de dor escapa dos meus lábios devido ao impacto inesperado.
_ Desculpa. – Pede se afastando rápido.
_ Tudo bem. – Garanto com um meio sorriso.
_ Que susto enorme você nos deu. Tirei nota baixa na prova de matemática porque estava preocupada com você e não consegui estudar direito. – Dispara a falar enquanto a enfermeira me ajuda a voltar para a cama.
_ Não tente jogar a culpa da sua nota r**m para cima de mim. – Brinco e recebo uma careta em resposta.
_ Crianças não briguem. – Mamãe pede ainda com um largo sorriso.
Catarina e eu temos uma diferença de idade de quase quatro anos. No auge dos seus catorze anos prefere assistir a seriados e ouvir música a estudar por algumas horas. O que é uma dor de cabeça para nossa mãe que é a vice-diretora da escola onde acabo de me formar e Catarina estuda.
_ Olha quem finalmente decidiu acordar! – Santiago fala em seu jeito expansivo de sempre. – Cansou de fazer cosplay de Bela Adormecida? – Brinca vindo me cumprimentar com um aberto de mão.
_ Não fala assim, Santy. – O comentário de Mirabella faz o meu amigo revirar os olhos entediado. – Estou feliz que esteja bem, Nando. – Me abraça meio sem jeito. – Você me deu um grande susto.
_ Vou aproveitar que está com visitas para levar a sua irmã para casa. – Mamãe comenta recolhendo suas coisas. – Se comporta. – Me beija o rosto. – Logo estou de volta.
Elas se despedem dos visitantes antes de sair. Santiago senta de forma largada na poltrona ao lado da cama e é a vez de Mirabella revirar os olhos. Esses dois vivem se implicando.
_ Vocês tem alguma notícia da Brenda?
_ Meu pai comentou que ela embarcou para Madrid com o pai e o protegido dele no dia em que te tiraram da cadeia. – Santiago comenta afastando o cabelo do rosto.
_ Você deveria esquecer essa garota, Nando. – Mirabella fala cobrindo a minha mão com a sua. – Foi graças a ela que você veio parar nesse hospital e quase morreu.
_ Nada disso foi culpa dela. – Rebato recolhendo a minha mão.
Ela desvia o olhar um tanto envergonhada por seu comentário. O clima fica tenso e nem mesmo os comentários irônicos de Santiago conseguem reverter a situação. Quando os dois vão embora tenho uma ideia fixa em minha mente.
Assim que sair do hospital vou atrás de Brenda onde quer que ela esteja e vou tirar toda essa história a limpo. Se ela não quiser mais ficar comigo terá que dizer isso olhando no fundo dos meus olhos.