um sonho

1163 Words
Ponto de Vista de Maria Finalmente, eu estava trabalhando. Parece uma coisa tão simples. Tão pequena. Para algumas pessoas, trabalhar é apenas parte da rotina. Para mim, era uma conquista. Uma pequena vitória. Depois de tantos anos vivendo sob o controle de Ricardo, finalmente eu tinha algo que era meu. Meu trabalho. Meu sonho. Minha sala de aula. Ser professora sempre foi um desejo que carreguei comigo desde criança. Talvez porque meus pais também fossem professores. Talvez porque eu tenha crescido vendo os dois chegarem em casa cansados, mas felizes. Minha mãe costumava dizer que ensinar era uma das formas mais bonitas de transformar uma vida. Meu pai concordava. Eu ainda consigo me lembrar dos dois conversando sobre os alunos durante o jantar. Eles falavam sobre as crianças. Sobre as dificuldades. Sobre as pequenas conquistas. Minha mãe ficava emocionada quando algum aluno conseguia aprender alguma coisa que antes parecia impossível. Meu pai gostava de dizer: — Um bom professor não ensina apenas matérias. Ensina uma criança a acreditar que consegue. Eu era pequena quando ouvi aquilo pela primeira vez. Mas nunca esqueci. Talvez tenha sido por isso que, mesmo depois de tudo o que aconteceu, eu nunca abandonei aquele sonho. Meus pais morreram quando eu tinha dezessete anos. Foi como se o mundo tivesse desabado. De repente, eu não tinha mais pai. Não tinha mais mãe. Não tinha mais uma casa. Não tinha ninguém. Fui parar em um orfanato. Não fiquei muitos anos lá. Apenas até completar dezoito. Mas, mesmo tendo sido pouco tempo, aquele período ficou marcado dentro de mim. Eu me sentia sozinha. Muito sozinha. Enquanto outras garotas recebiam visitas, eu esperava. Enquanto algumas crianças eram adotadas, eu continuava ali. Aprendi cedo a não esperar demais das pessoas. Então, quando completei dezoito anos, saí. Consegui meu primeiro emprego em uma cafeteria. Foi lá que conheci Ricardo. E minha vida mudou. Na época, eu achei que tinha encontrado alguém que finalmente cuidaria de mim. Hoje sei que estava errada. Mas não quero pensar nisso agora. Hoje quero pensar em outra coisa. Hoje é meu primeiro dia dando aula. Acordo cedo. Muito cedo. Olho para o relógio e sorrio. É estranho sentir felicidade por uma coisa tão simples. Levanto da cama. Escolho uma roupa discreta. Nada muito chamativo. Ricardo não gosta. Mesmo depois do divórcio, ele continua opinando sobre tudo. Antes de sair, pego o celular. Preciso avisá-lo. É uma das regras. Ele quer saber quando chego. Quando saio. Com quem estou. Quanto tempo fico. Tudo. Digito: "Estou saindo para o trabalho." Fico olhando para a mensagem por alguns segundos. Então envio. A resposta chega rapidamente. "Quando chegar, avise." Fecho os olhos. Claro. Sempre monitorando. Sempre controlando. Guardo o celular na bolsa. Por alguns segundos, penso em ignorar. Mas não tenho coragem. Ainda não. Saio do apartamento. Um dos funcionários me acompanha até o carro. Ricardo também deixou claro que eu não deveria andar sozinha. Às vezes tenho a sensação de que estou sendo protegida. Mas sei a verdade. Estou sendo vigiada. Mesmo assim, hoje não quero deixar isso estragar meu dia. Chego à escola. Assim que entro, escuto vozes. Crianças. Risos. Passos correndo pelo corredor. Meu coração se aquece. É diferente. Completamente diferente da mansão. Diferente do apartamento. Ali existe vida. Existe barulho. Existe alegria. Uma mulher se aproxima de mim. — Maria? — Sim. — Seja bem-vinda. Ela sorri. — Estamos muito felizes por você estar aqui. Sorrio de volta. — Obrigada. Ela me apresenta às outras professoras. Depois me leva até minha sala. Quando entro, fico parada por alguns segundos. As paredes estão decoradas com desenhos coloridos. Há pequenos móveis. Livros. Brinquedos educativos. Cartazes. Tudo é simples. Mas, para mim, parece maravilhoso. Passo a mão sobre uma pequena mesa. Meu coração aperta. É aqui. Finalmente. Meu sonho. Sou professora. Não consigo impedir o sorriso. As crianças começam a chegar. Uma por uma. Algumas tímidas. Outras agitadas. Uma garotinha entra segurando a mochila com as duas mãos. Olha para mim. — Você é a professora nova? Abaixo-me para ficar na altura dela. — Sou. Ela sorri. — Qual é seu nome? — Maria. — Eu sou Sofia. Ela estende a mão. Aperto. — Prazer, Sofia. Ela corre para o lugar. Outro menino entra. Depois outra menina. Em poucos minutos, minha sala está cheia. E eu esqueço. Esqueço o apartamento. Esqueço Ricardo. Esqueço toda a dor que é minha vida. Por algumas horas, consigo ser apenas Maria. A professora Maria. Começamos a aula. As crianças participam. Algumas respondem. Outras erram. E eu sorrio mesmo assim. — Vamos tentar novamente. Um menino levanta a mão. — Professora, eu não consigo. Aproximo-me dele. — Consegue sim. — Não consigo. — Então vamos tentar juntos. Ele olha para mim. Tentamos novamente. Quando finalmente consegue, abre um sorriso enorme. — Eu consegui! Meu coração se aquece. — Viu? Ele começa a rir. E eu sorrio. Talvez meu pai tivesse razão. Talvez ensinar realmente seja uma forma de transformar vidas. No intervalo, algumas crianças vêm conversar comigo. Uma menina pergunta: — Professora, você gosta de crianças? Sorrio. — Muito. — Tem filhos? Meu sorriso desaparece por um instante. Meu peito aperta. Mas não quero que ela perceba. — Não. Ela inclina a cabeça. — Mas você vai ter? Engulo em seco. Olho para ela. — Talvez um dia. Ela sorri. — Eu espero que sim. Sorrio. — Obrigada. Ela corre para brincar. Fico observando. Por alguns segundos, sinto uma dor profunda. Penso no meu bebê. Penso nos outros dois. Três pequenas vidas que nunca consegui segurar nos braços. Uma lágrima quase escapa. Pisco rapidamente. Não. Hoje não. Hoje eu não quero chorar. Hoje quero viver. Volto para a sala. As crianças continuam brincando. Uma delas se aproxima com um desenho. — Fiz para você. Pego o papel. É um desenho simples. Uma mulher sorrindo cercada por crianças. No topo, há algumas letras tortas. "Professora Maria." Meu coração aperta. — Está lindo. — É você. — Eu sei. Ela sorri. — Você parece feliz. Olho para o desenho. Então olho para ela. — Estou. E naquele momento percebo que estou dizendo a verdade. Pelo menos naquele instante. Eu estou feliz. Não completamente. Não como antes. Mas existe felicidade. Pequena. Frágil. Real. Quando o horário das aulas termina, as crianças começam a ir embora. Algumas acenam para mim. — Tchau, professora! — Até amanhã! — Tchau! — Até amanhã, crianças! Fico parada na porta da sala. Observo todas elas saindo. Meu coração está cheio. Pego o celular. A realidade volta imediatamente. Tenho uma mensagem de Ricardo. "Já terminou?" Meu sorriso desaparece um pouco. Respondo: "Sim. Estou saindo agora." Ele responde quase imediatamente. "Avise quando chegar." Olho para a tela. Respiro fundo. Ainda existe medo. Ainda existe controle. Ainda existe Ricardo. Mas existe algo que ele não conseguiu tirar de mim. Meu sonho. Minha profissão. Minha vontade de ensinar. Guardo o celular. Olho novamente para a sala. Para os desenhos. Para os pequenos livros. Para as cadeiras coloridas. E sorrio.
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