eu acreditei

754 Words
Ponto de Vista de Maria O apartamento que Ricardo comprou para mim é enorme. Luxuoso. Bonito. Perfeito. Exatamente o tipo de lugar que faria qualquer pessoa suspirar de admiração. Assim que entrei pela primeira vez, fiquei alguns segundos parada na porta. O chão brilhava. Os móveis eram sofisticados. Havia obras de arte nas paredes, vasos caríssimos, lustres enormes e peças decorativas que eu sequer sabia o nome. As janelas ocupavam quase toda a parede da sala e ofereciam uma vista maravilhosa da cidade. Tudo parecia ter sido escolhido cuidadosamente. Tudo era caro. Tudo era impecável. Tudo era perfeito. Menos eu. Caminho lentamente pela sala. Meus dedos deslizam pelo encosto de um sofá. É macio. Caro. Intocável. Olho para os objetos espalhados pelo ambiente. Por todos os lados existem sinais da riqueza de Ricardo. E, mesmo assim, não consigo sentir que aquele lugar é meu. Sinto-me como um peixe fora d’água. Como alguém que foi colocada dentro de um mundo ao qual nunca pertenceu. Há empregados. Uma cozinheira. Uma governanta. Duas mulheres responsáveis pela limpeza. Um homem que cuida da segurança. Tudo está à minha disposição. Mas não sinto liberdade. Sinto vigilância. Até o luxo parece me observar. Pego uma taça que está sobre a mesa e a coloco novamente no lugar. Não quero quebrar nada. Não quero causar problemas. Não quero que Ricardo tenha mais um motivo para me acusar. Essa é a primeira coisa que percebo. Mesmo longe da mansão, continuo vivendo como se ele estivesse atrás de mim. Como se pudesse aparecer a qualquer momento. Como se estivesse observando. Como se ainda pudesse decidir cada movimento meu. Olho para o enorme quarto. A cama é maior do que qualquer cama que tive na vida. Há cortinas pesadas. Um closet enorme. Um banheiro que parece pertencer a um hotel de luxo. Tudo está ali. Mas não existe lar. Existe apenas espaço. Espaço demais. Silêncio demais. E eu. Sozinha. Ou pelo menos deveria estar. Porque, na verdade, nunca estou completamente sozinha. Ricardo deixou claro que não pretende me deixar em paz. E é estranho pensar nisso. Porque agora ele é marido de outra mulher. Camila. Ela tem aquilo que eu nunca consegui dar a ele. Um filho. Um herdeiro. Um casamento que ele considera conveniente. E eu? Eu sou o segredo. A mulher escondida. A mulher que ele divorciou no papel, mas não libertou na realidade. Sou a amante. A mulher que ele diz ainda pertencer a ele. Fecho os olhos. E uma lembrança antiga aparece. Uma lembrança de dez anos atrás. Eu tinha dezoito anos. Era apenas uma garota. Uma garota ingênua. Sem família. Sem dinheiro. Sem experiência. Eu havia acabado de sair do orfanato. Lembro perfeitamente daquele dia. Eu segurava uma pequena bolsa nas mãos. Dentro dela estavam poucas roupas e algumas coisas que eram importantes para mim. Nada de valor. Nada caro. Minha vida inteira cabia naquela bolsa. Consegui meu primeiro emprego em uma cafeteria. Eu estava nervosa. Muito nervosa. Era a primeira vez que precisava cuidar completamente de mim mesma. Lembro do cheiro de café. Do barulho das xícaras. Das pessoas conversando. Da máquina trabalhando sem parar. E então ele entrou. Ricardo. Naquela época, eu não sabia quem ele era. Para mim, era apenas um homem bonito. Elegante. Bem vestido. Ele entrou na cafeteria como alguém que estava acostumado a ser notado. Sentou-se sozinho. Pediu um café. E então olhou para mim. Eu estava trabalhando. Tentando não derrubar nada. Tentando parecer profissional. Ele sorriu. E eu sorri de volta. Foi assim que começou. Ele passou a aparecer todos os dias. Sempre no mesmo horário. Sempre na mesma mesa. Sempre pedindo o mesmo café. Começamos a conversar. Ele queria saber sobre mim. Perguntava onde eu morava. Perguntava sobre minha família. Eu contei que havia morado em um orfanato. Não sei por que confiei nele tão rapidamente. Talvez porque nunca tivesse recebido aquele tipo de atenção. Ricardo me tratava como se eu fosse especial. Depois vieram os presentes. Primeiro, flores. Um enorme buquê. Lembro de ter ficado sem palavras. Depois vieram os bombons. Depois uma caixa pequena. Quando abri, encontrei uma joia. Fiquei assustada. — Não posso aceitar. Ele sorriu. — Por quê? — É muito caro. — Eu quero que você tenha. Eu deveria ter desconfiado. Mas eu tinha dezoito anos. Era uma garota que nunca tinha recebido nada. Acreditei nele. Acreditei no sorriso. Acreditei nas palavras bonitas. Acreditei quando ele dizia que eu era diferente das outras mulheres. Acreditei quando dizia que queria cuidar de mim. E me apaixonei. Completamente.
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