o divórcio

951 Words
Ponto de vista de Maria Por um instante, penso em correr. Mas sei que não conseguiria chegar nem até a porta. Fecho os olhos rapidamente. Respira, Maria. Respira. Começo a caminhar. Cada passo parece pesar toneladas. Chego à entrada da sala. Ricardo está sentado em uma poltrona. Calmo. Completamente calmo. Ele veste uma camisa social impecável. O relógio caro está preso ao pulso. Os cabelos estão perfeitamente arrumados. Parece o homem das revistas. O empresário admirado por todos. Mas eu sei quem está sentado naquela poltrona. Ele olha para mim. — Aproxime-se. Obedeço. Caminho lentamente. Minhas mãos estão geladas. Meu coração dispara. Paro a alguns passos dele. Ricardo se levanta. Meu corpo inteiro fica tenso. Ele vem na minha direção. Não consigo me mexer. Então... PÁ! O tapa atinge meu rosto com tanta força que cambaleio para trás. Levo a mão à face. Minha pele arde. As lágrimas enchem meus olhos imediatamente. Não digo nada. Aprendi que, naquele momento, qualquer palavra pode piorar tudo. Ricardo me encara. — Maria... Sua voz é fria. — Como você é inútil. Aperto os lábios. As lágrimas começam a cair. Ele caminha até uma mesa e pega uma pasta. — Agora eu tive certeza. Coloca a pasta sobre a mesa e abre. — Aqui estão todos os exames. Não entendo. Ele retira alguns papéis. — Você não é compatível comigo. Minha respiração falha. — O quê? Ele me olha com desprezo. — Não podemos gerar filhos. Sinto meu peito apertar. — Eu... — Não precisa explicar. Ele levanta uma das folhas. — Está tudo aqui. Meu olhar cai sobre os documentos. Não consigo entender completamente os termos médicos. Mas uma coisa eu entendo. Ele está me culpando. Novamente. — Eu tentei... Minha voz sai entre lágrimas. — Eu tentei tantas vezes. Ele solta uma risada sem humor. — Tentou? Aproxima-se. — Você sempre foi uma órfã inútil. Aquelas palavras doem mais do que o tapa. Talvez porque eu tenha ouvido versões delas durante anos. Mas hoje... Hoje elas parecem destruir alguma coisa dentro de mim. Olho para o chão. Não quero que ele veja o quanto estou sofrendo. Ricardo pega outro documento. — Aqui estão os papéis do divórcio. Meu coração para. Divórcio? Levanto os olhos lentamente. Ele coloca os documentos sobre a mesa. — A Camila está grávida. Meu estômago se revira. Camila. Eu conheço aquele nome. Já ouvi falar dela. A mulher que aparece ao lado de Ricardo em alguns eventos. A mulher que ele dizia ser apenas uma funcionária. Então era ela. Sinto as pernas enfraquecerem. Ricardo continua: — Eu não quero que meu filho nasça fora do casamento. Meu coração acelera. — Então vou me separar de você. Ele aponta para os papéis. — E vou me casar com Camila. Por alguns segundos, não consigo reagir. Depois... Uma sensação estranha toma conta de mim. Alívio. Um alívio tão intenso que quase começo a chorar novamente. Mas dessa vez não é apenas tristeza. É felicidade. Eu vou me livrar dele. Finalmente. Depois de tantos anos. Depois de tanto medo. Depois de tantas humilhações. Eu poderia respirar novamente. Poderia sair daquela casa. Poderia começar uma vida nova. Talvez eu pudesse finalmente descobrir quem sou sem Ricardo. Minhas mãos tremem enquanto me aproximo da mesa. Olho para os papéis. Pego a caneta. Minha mão treme tanto que quase não consigo segurá-la. Assino. Uma lágrima cai sobre o documento. Mas dessa vez é uma lágrima de alívio. Então Ricardo fala: — Mas existe uma condição. Minha mão para. Olho para ele. — Condição? Ele se aproxima calmamente. — Comprei um apartamento para você. Meu coração ainda está acelerado. — Um apartamento? — Sim. Ele pega os documentos. — Você vai morar lá. Por um instante, penso que talvez esteja tudo bem. Talvez ele esteja realmente me deixando ir. Então ele completa: — Mas não pense que isso significa que está livre. Meu sorriso desaparece. Ele se aproxima. — Você ainda pertence a mim. Sinto um arrepio percorrer meu corpo. — Ricardo... — Camila vai me dar um filho. Ele fala como se estivesse falando de um negócio. — Mas você continua sendo minha mulher. Meu estômago se revira. — Eu não entendo. Ele segura meu queixo. Sou obrigada a olhar para ele. — Não quero você conversando com ninguém. Meu corpo congela. — Não quero você falando com outro homem. Ele aperta meu queixo. — Não quero você saindo com ninguém. Minha respiração fica presa. — Entendeu? Assinto rapidamente. — Sim. Ele solta meu rosto. — Ótimo. Dá alguns passos para trás. — Você pode ter seu apartamento. Olho para os documentos do divórcio. A felicidade que senti poucos segundos antes desapareceu completamente. Eu pensei que estava sendo libertada. Mas não. Ricardo estava apenas mudando o lugar onde queria me controlar. Eu não seria mais sua esposa. Mas também não seria livre. Ele queria se casar com outra mulher enquanto continuava me tratando como propriedade. Como se eu fosse um objeto guardado em outro endereço. Como se meu corpo ainda pertencesse a ele. Como se minha vida continuasse sendo uma coisa que ele podia controlar. Sinto vontade de gritar. De dizer não. De pegar os documentos e rasgá-los. De correr pela porta. Mas então olho para o rosto dele. E lembro do tapa. Lembro das outras vezes. Meu corpo inteiro se contrai. Eu fico calada. Porque sei que, se contrariá-lo... Ele pode me bater novamente. E talvez da próxima vez seja ainda pior. Então apenas abaixo os olhos. — Entendi. Minha voz quase não sai. Ricardo sorri. Um sorriso pequeno. Vitorioso. E naquele instante compreendo uma coisa. O divórcio que eu imaginei ser minha liberdade... Pode ser apenas o começo de uma prisão ainda maior.
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