eu não pertenço a este lugar

739 Words
Capítulo 3 Ponto de Vista de Maria Saio do hospital algumas horas depois. Ainda sinto meu corpo fraco. Minha cabeça parece pesada e meus olhos ardem de tanto chorar. Uma enfermeira me entrega os últimos documentos e algumas orientações médicas. Escuto tudo em silêncio, mas quase não consigo prestar atenção. Minha mente está longe. Presa em uma única pergunta. O que Ricardo vai fazer quando eu chegar em casa? Durante todo o caminho até a saída do hospital, olho para os lados. Espero encontrar alguém. Um funcionário. Um segurança. Talvez até mesmo Ricardo. Mas ninguém aparece. Por um instante, sinto alívio. Depois, o medo volta. Porque não sei o que é pior. Encontrá-lo... Ou não saber onde ele está. Pego meu celular. Ainda não existe nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Nada. Ricardo sabe que eu estava no hospital. Mesmo assim, não perguntou como estou. Não perguntou se estou viva. Não perguntou pelo bebê. Nada. Chamo um Uber. Enquanto espero, fico sentada em um banco próximo à entrada do hospital, abraçando minha bolsa contra o peito. O vento frio toca meu rosto. Olho para a rua. Quando o carro finalmente chega, levanto devagar. Entro no banco traseiro. — Boa tarde — o motorista diz. — Boa tarde. Minha voz quase não sai. Ele pergunta o endereço. Digo o nome da rua. Não preciso explicar mais nada. Durante o caminho, fico olhando pela janela. A cidade passa diante dos meus olhos. Pessoas caminhando. Carros. Lojas. Casais conversando. Uma mãe atravessando a rua segurando a mão de uma criança. Desvio o olhar. Não consigo olhar. Meu peito aperta. Eu deveria estar feliz. Deveria estar preparando o quarto do meu bebê. Deveria estar pensando no nome. Nas roupinhas. No primeiro sorriso. No primeiro choro. Mas estou voltando para casa sem meu filho. E ainda preciso enfrentar Ricardo. O motorista olha pelo retrovisor algumas vezes. Talvez perceba que estou chorando. Mas não pergunta nada. Agradeço silenciosamente. Não quero conversar. Não quero explicar minha vida para um desconhecido. Quero apenas chegar. O problema é que não sei se quero realmente chegar. Quando o carro entra na rua onde fica a mansão, meu coração começa a bater mais rápido. Conheço aquele lugar. Passei anos ali. Anos entrando e saindo daquela enorme propriedade. E, mesmo assim, nunca consegui sentir que aquela casa era minha. A mansão aparece no fim da rua. Grande. Imponente. Luxuosa. Muros altos. Jardins perfeitamente cuidados. Grandes janelas. Uma fachada que parecia pertencer a uma revista. Para qualquer pessoa, aquilo seria um sonho. Para mim... Era uma prisão bonita. O carro para diante do enorme portão. Pago a corrida e saio. Fico alguns segundos parada. Olho para a mansão. Minha casa. Pelo menos era isso que deveria ser. Sou esposa de Ricardo. Vivo ali há anos. Tenho roupas naquele quarto. Documentos naquela gaveta. Fotografias espalhadas. Conheço cada corredor. Cada escada. Cada cômodo. Mas ainda sinto como se fosse uma estranha. Como se alguém pudesse aparecer a qualquer momento e dizer: “Você não pertence aqui.” Talvez porque nunca tenha pertencido mesmo. Nunca me senti dona daquela casa. Nunca tive liberdade para decidir nada. Ricardo escolhia. Ricardo ordenava. Ricardo permitia. E eu obedecia. Durante anos, aprendi a caminhar silenciosamente. A fechar portas sem fazer barulho. A não falar alto. A não contrariá-lo. A desaparecer dentro da própria casa. Olho para a porta principal. Minha mão começa a tremer. Não quero entrar. Meu corpo inteiro pede para que eu vá embora. Mas para onde? Não tenho outro lugar. Não tenho família esperando por mim. Sou órfã. Ricardo sempre fez questão de me lembrar disso. Talvez por isso tenha sido tão fácil para ele controlar minha vida. Ele sabia que eu não tinha para onde correr. Respiro fundo. Subo os degraus. Minha mão toca a maçaneta. Fico alguns segundos parada. Então abro a grande porta. O silêncio me recebe. Dou o primeiro passo. Depois o segundo. Fecho a porta atrás de mim. Meu coração bate tão forte que consigo ouvi-lo. Olho para o enorme hall. Tudo está exatamente como sempre. Os móveis caros. Os quadros. O lustre gigantesco. O piso brilhando. Tudo perfeito. Tudo impecável. Tudo frio. Dou mais alguns passos. Então escuto uma voz vindo da sala. — Maria. Meu corpo congela. Reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Ricardo. Meu coração parece parar. — Venha cá. Minha respiração fica presa. Ele estava aqui. O tempo inteiro. Meu medo retorna com força. Minhas pernas começam a tremer.
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