Capítulo XI

992 Words
Depois de alguns dias, Dante não visitou Isadora. Era uma empregada quem levava tudo o que era necessário para ela. A garota vivia em crescente agonia tentando descobrir o que viria a seguir. Dante estava ao telefone com Katsu, conversando sobre as investigações confiadas a ele: — Você acredita nela? — Katsu perguntou, a pergunta surgindo de forma inesperada. Dante permaneceu em silêncio por alguns segundos, os dedos entrelaçados no colo. Ele não respondeu imediatamente. A raiva que sentia pelo assassinato do pai ainda queimava, mas havia uma nova sensação: dúvida. Curiosidade. Uma necessidade de descobrir uma verdade que talvez ele nunca tivesse considerado. — Não sei se acredito completamente. — murmurou, finalmente. — Mas não posso ignorar o que ouvi. A história dela é consistente, e há detalhes que não poderiam ser inventados. Preciso confirmar, mas… não posso simplesmente descartar. — Então você vai agir diferente com ela? — Katsu questionou, sabendo que o tom de Dante havia mudado. — Talvez. — Dante respondeu, os olhos fixos na escuridão fora da janela. — Não por compaixão, não por fraqueza. Mas por cálculo. Ela pode ser uma peça importante… ou apenas um eco do que realmente aconteceu. De qualquer forma, preciso que ela permaneça viva e se for como pensamos, ela ainda vai pagar pelo que fez. Mesmo assim, preciso descobrir se tinha algum maldito jogando o nome dos Moretti na lama pelas costas do meu pai. — Entendi. — A voz de Katsu era firme, sem pressa. — Então quer que eu continue, investigue todos os caminhos possíveis e mantenha você informado de cada descoberta. — Exatamente. — Dante respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade. — Cada detalhe pode ser crucial. E Katsu… seja discreto. Não quero que ninguém perceba o que estamos fazendo até que tenhamos certezas. O silêncio se alongou, preenchido apenas pelo som da respiração de Dante e pelo leve zumbido da cidade dormindo lá fora. Ele se recostou, os olhos fechados, e pensou sobre a criança que estava diante dele. Isadora. Tão frágil, mas ao mesmo tempo tão determinada a revelar a verdade, mesmo sem saber quem ele realmente era. Ela havia quebrado algo dentro dele que ele não queria admitir: a crença de que ele tinha controle absoluto sobre todas as peças. — Talvez… — murmurou baixinho para si mesmo — talvez a verdade seja mais complicada. Não apenas sobre meu pai… mas sobre tudo que aconteceu. Ele se levantou e caminhou até a cozinha, pegando um copo de água. Bebe lentamente, os pensamentos ainda correndo a mil por hora. Lembrou-se do rosto dela, das mãos trêmulas, da voz baixa, carregada de medo e determinação. Havia algo no modo como ela expôs tudo que não podia ser ignorado. — Ela não mentiu. — murmurou, a voz quase um sussurro. — Não posso ignorar isso. Dante se sentou novamente no sofá, apoiando o queixo nas mãos entrelaçadas. A raiva por seu pai assassinado ainda queimava, mas agora havia uma sombra de dúvida, uma percepção de que o que ele sabia podia não ser suficiente para entender o todo. Ele pegou o laptop e começou a digitar rapidamente, enviando e-mails para contatos antigos, criptografando mensagens, solicitando arquivos que poderiam ter sido apagados ou escondidos. Cada movimento era calculado, meticuloso, como sempre, mas desta vez havia um fio de ansiedade, um cuidado que antes não existia. — Preciso saber toda a verdade. — murmurou baixinho, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa. — Se meu pai foi traído, se a história dele foi manipulada… eu preciso saber antes de agir. Uma notificação apareceu no laptop. Katsu havia enviado uma mensagem curta: “Primeira leva de informações está chegando. Algumas conexões antigas e contatos ainda vivos. Pode haver arquivos confidenciais sobre empresas e redes internacionais. Prepare-se para o que pode encontrar.” Dante respirou fundo. A raiva ainda estava lá, sim, mas agora havia também um frio controle, uma determinação quase clínica de descobrir tudo. Ele sabia que cada detalhe, cada registro, cada pista poderia mudar completamente a percepção que tinha de seu passado, de seu pai, de Isadora, e de tudo o que os cercava. Ele fechou os olhos, lembrando-se do incêndio, da confissão dela, da força e do medo que coexistiam naquele corpo pequeno. Algo naqueles momentos havia mexido com ele de um jeito que ele não conseguia nomear. Não compaixão, não desejo. Mas atenção. Interesse. Uma necessidade de entender cada peça do quebra-cabeça, cada motivo, cada trauma. Ele se levantou novamente, caminhando pelo apartamento, os passos lentos e precisos. A cidade dormia, mas para Dante, a noite era apenas um palco de pensamentos e estratégias. Cada sombra, cada silêncio, cada detalhe que poderia ter passado despercebido era agora um ponto de atenção. — Katsu vai me trazer respostas. — disse para si mesmo, apoiando as mãos na borda da mesa. — E com isso, talvez finalmente consiga montar a história completa. O relógio marcava as primeiras horas da madrugada, mas Dante não sentia sono. Sentia apenas uma necessidade crescente de descobrir a verdade, de controlar o que podia, e de observar cada detalhe daquilo que antes acreditava conhecer. Ele olhou para o telefone mais uma vez, verificando mensagens de Katsu. Havia novas informações: registros antigos de viagens, contatos que haviam desaparecido, transações financeiras que poderiam indicar algo maior. Cada detalhe era como uma peça que precisava se encaixar, e cada peça que aparecia tornava o quebra-cabeça mais complexo. Ele se recostou na poltrona, olhando para o teto, e pela primeira vez em muito tempo, permitiu-se reconhecer a própria vulnerabilidade. Não física, não emocional, mas cognitiva: a necessidade de aceitar que a verdade que carregava podia estar incompleta. E, naquele silêncio, Dante percebeu que a confissão de Isadora havia feito algo que nenhuma ameaça, nenhum interrogatório físico ou psicológico, jamais conseguiu: havia plantado uma dúvida que, silenciosa e persistente, começava a mudar a forma como ele via o mundo — e a própria vingança.
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