7- Resenha

1245 Words
Capítulo 7 Simone narrando : Eu tava me sentindo totalmente deslocada, com minha calça preta social e camisa branca. Enquanto isso, o pessoal ali parecia que tinha saído direto de um churrasco ou de uma festa na praia, bermuda, chinelo, vestidos leves, muita cor. Eu era o peixe fora d’água mais óbvio que podia existir. Henrique me puxou pro meio da resenha com aquele jeito dele, sem cerimônia. Primeiro, ele apontou pro cara que tinha corrido pra abraçar ele assim que a gente chegou. – Esse aqui é o Samuel, ele é enfermeiro, e comanda os bagulho no postinho, ele é o único que não curti o mundo do crime – ele diz, sorrindo. Samuel sorriu pra mim, um sorriso tranquilo, mas tinha um ar sério, dava pra perceber que ele era um dos pilares daquela família. – Satisfação, doutora. Obrigado por ajudar o Henrique – ele disse, apertando minha mão. – Não foi nada. Faz parte do meu trabalho – respondi com um sorriso educado. Logo depois, Henrique apontou pro outro irmão. – E esse aqui é o Luan, ele que tá na frente do morro. Luan tinha um jeito mais descontraído, sorridente. Ele também apertou minha mão, mas já soltou logo uma brincadeira. – E aí, doutora, conseguiu aguentar esse mala por três anos? Você é guerreira, viu? Henrique deu um empurrão de leve no Luan, rindo. – Vai tirando, vai. Depois, Henrique se virou pra uma mulher que tava do lado do Luan, segurando um copo e rindo das brincadeiras. – E essa aqui é a Maria, esposa do Luan. A dona do barraco dele, né, cunhada? Maria era simpática, tinha um sorriso fácil e uma energia boa. Ela me cumprimentou com um abraço rápido, o que me pegou de surpresa, mas foi acolhedor. – Bem-vinda, doutora. A gente já ouviu muito falar de você. Eu sorri, meio sem jeito, tentando me misturar naquele ambiente que era tão diferente da minha rotina. Mas dava pra sentir que ali, por mais tumultuado que fosse, tinha muita união. — Ouviu falar bem ou m*l? — perguntei com um sorriso meio brincalhão. — Bem pra c*****o! — ela respondeu, rindo, e eu não consegui segurar um sorriso também, olhando de canto pro Henrique. Ele retribuiu com aquele olhar cheio de marra e, sem perder tempo, me puxou pela mão. — Bora beber alguma coisa — ele falou, me guiando até o bar. — Henrique, ainda são três da tarde. Eu ainda tenho que trabalhar hoje — retruquei, tentando resistir. Ele balançou a cabeça e soltou uma risada curta, como se eu estivesse falando alguma besteira. — Hoje cê tá de folga, doutora. Fica de boa, bora beber. — Desde quando você manda na minha agenda? — rebati, arqueando uma sobrancelha. Ele deu aquele sorriso torto que só ele tinha. — Desde que tu aceitou ser minha advogada. Tá no contrato, hoje cê vai relaxar, beber e se misturar. Revirei os olhos, mas acabei rindo. Não tinha como levar Henrique a sério quando ele vinha com esse jeito. O barman nos serviu duas cervejas, e ele me entregou uma, encostando no balcão com aquele ar tranquilo, como se estivesse no comando de tudo. — Tá me olhando assim por quê? — perguntei, levando o copo à boca. — Nada. Só te observando. Cê é engraçada aqui no meio. Parece que não encaixa, mas encaixa. Meio peixe fora d’água, mas de um jeito bom. Franzi a testa, meio confusa. — Isso foi um elogio? — Foi, meio torto, mas foi — ele respondeu, rindo de leve. Eu respirei fundo, olhando ao redor. A quadra estava lotada, o som no último volume, e todo mundo parecia tão à vontade. Eu, por outro lado, estava ali totalmente deslocada. Mas, de alguma forma, a energia do lugar começava a me contagiar. Talvez fosse o Henrique. Talvez fosse o ambiente. Ou talvez fosse só cansaço mesmo. Eu ainda não sabia, mas, naquele momento, decidi que ia ficar mais um pouco. — Tu tem que conhecer o resto da minha família. Meus coroas tão viajando, mas eu tenho uma renca de sobrinhos — ele disse, sorrindo daquele jeito que parecia inocente, mas eu sabia que não era. — Renca? — perguntei, levantando a sobrancelha e tentando segurar a risada. — Ah, tu vai ver. É tanta criança correndo pra todo lado que parece um jardim de infância. O barraco do meu coroa virou parque. Eu ri, imaginando a cena. Apesar de tudo, dava pra ver que ele falava da família com carinho. — Mas se prepara, hein. Quando te verem, vão grudar em tu. Já vou avisando — ele disse, dando um gole na cerveja. — Grudar? Por quê? — Porque tu é novidade, doutora. E cê acha que eles não vão achar engraçado ver uma advogada metida aqui no meio? Revirei os olhos, rindo. — Não sou metida. — Não tô dizendo que é. Só que parece — ele provocou, piscando pra mim. – Eu perdi muita coisa da minha vida, estando naquele inferno, não vi meus sobrinhos nascerem e nem convivo com eles, mas sempre faço chamada de vídeo com todos, eu sou muito família, tá ligado. Eu só balancei a cabeça. Ali, no meio daquela bagunça toda, Henrique parecia outra pessoa. Ainda cheio de marra, mas com um lado que eu não esperava ver. — Tá vendo? Tu já tá gostando daqui né. Vai ter que ficar mais um pouco — ele disse, me puxando pela mão de novo. Eu suspirei. — Só mais um pouco, Henrique. Depois eu vou embora. — É o que tu acha — ele respondeu, com aquele sorriso provocador. E, mais uma vez, lá estava eu, deixando ele me convencer. Eu tava ali, com o copo na mão, bebendo devagar, tentando não parecer tão deslocada naquele ambiente. Henrique tava encostado no balcão, me olhando de um jeito que me deixou desconcertada. — Que foi? — perguntei, levantando a sobrancelha e tentando desviar daquele olhar. Ele deu aquele sorriso torto, se aproximando de mim devagar, com o corpo inclinado pra frente, como se fosse me contar um segredo. — Sabia que eu passei esses três anos doido pra te beijar? — ele disse, a voz rouca, o olhar fixo no meu. Eu engasguei com o que tava bebendo, tossindo enquanto ele dava uma risada baixa, como se estivesse se divertindo com a minha reação. — Tá maluco, Henrique? — perguntei, tentando recuperar o fôlego, mas meu rosto já devia estar vermelho. — Tô, sim. Maluco por tu, Simone — ele respondeu, direto, sem nem piscar. — Henrique, a gente já conversou sobre isso. Não tem como... — Tem, sim — ele me interrompeu, encostando a mão no balcão ao meu lado, me prendendo ali. — Tu só tá inventando desculpa. Eu respirei fundo, tentando ignorar o quanto ele tava perto. — Henrique, eu sou tua advogada. — E daí? Já tô livre, lembra? Acabou esse papo de cliente. Agora é só eu e tu — ele disse, o tom de voz mais baixo, como se ninguém mais precisasse ouvir aquilo. Eu tentei manter a compostura, mas ele era intenso demais, e eu sabia que, se não saísse dali, ia acabar cedendo. — Henrique, eu... — Não precisa dizer nada — ele falou, se inclinando ainda mais perto. Meu coração tava disparado, e por mais que minha cabeça gritasse que aquilo era uma má ideia, meu corpo parecia ter vontade própria. Continua .... Deixem bilhetinhos 📚
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