6- Chegando no morro

1277 Words
Capítulo 6 Continuação : Simone narrando : Ele ficou quieto por uns segundos, mas eu sentia o olhar dele me acompanhando enquanto eu dirigia. Não dava sossego. – Doutora, sabe o que eu acho? – ele começou, e eu já sabia que vinha mais papo. – Lá vem você, Henrique... – falei, sem tirar os olhos da estrada. – Acho que você é muito fechada, tá ligado? Vive no trabalho, lidando com gente pesada, mas nunca relaxa. Tu merece dar uma respirada, viver um pouco. Soltei uma risada baixa, sem me virar pra ele. – E você acha que a solução pra minha vida é ir pra uma festa no morro? – Pode ser um começo – ele respondeu, sério, mas com um sorrisinho de lado. – Lá ninguém vai te julgar, todo mundo vai te tratar como rainha. – Como rainha? – perguntei, rindo. – Agora você tá exagerando. – Não tô, não – ele rebateu. – Tu merece ser tratada assim. Pelo menos uma vez, deixa eu te mostrar como é. Por um momento, fiquei em silêncio, pensando. Ele tinha razão sobre uma coisa: eu vivia mergulhada no trabalho e raramente fazia algo por mim. Mas aceitar esse convite? Era arriscado. – Olha, Henrique, eu entendo sua intenção, mas não sei se é o lugar certo pra mim – respondi, finalmente. Ele soltou um suspiro dramático, mas ainda estava sorrindo. – Beleza, doutora, eu não vou forçar. Só quero que cê saiba que, se colar, vai ser bem-vinda. E, se não colar... bom, vamoa marcar algum bagulho pra comemorar e eu agradecer por tudo que cê fez por mim. Aquelas palavras me pegaram de surpresa. Era raro ver o Henrique tão sincero e... respeitoso. Olhei pra ele rapidamente, antes de voltar a atenção pro trânsito. – Tá bom, Henrique. Eu vou pensar, de verdade. Ele não respondeu, mas o sorriso dele dizia tudo. E, mesmo que eu quisesse negar, uma parte de mim tava tentada a aceitar. Eu continuo dirigindo, tentando ignorar o fato de que Henrique não tira os olhos de mim. O caminho é cheio de ladeiras e curvas, mas não demora muito pra eu chegar na contenção. Assim que paro o carro, os menores já vêm correndo pra conferir quem tá chegando. Assim que eles veem o Henrique, começam a gritar e comemorar, tipo uma torcida organizada. – Aí, tá de volta, chefia! – um dos menores grita, enquanto bate no capô do meu carro com animação. Henrique solta uma gargalhada alta, já abrindo a porta e descendo. – Fala aí, menozada, tamo de volta! – ele responde, cumprimentando os moleques com aquele jeito marrento, mas carismático. Eu fico no carro, observando a cena. O jeito que eles tratam ele... como se fosse um herói que voltou pra casa. A energia deles é contagiante, mas também me faz lembrar o mundo de onde ele veio e pra onde eu, definitivamente, não pertenço. Henrique se vira pra mim, faz sinal pra eu descer. – Vem, doutora, deixa eu te apresentar pros menor. – Eu tô bem aqui, Henrique – respondo, um pouco sem graça. – Ah, para com isso, desce logo – ele insiste, abrindo a porta do meu lado. Com um suspiro, eu desço do carro. Os olhos de todo mundo se voltam pra mim, e eu sinto o peso dos olhares, misturados de curiosidade e respeito. Henrique coloca a mão no meu ombro, como se quisesse me proteger ou, talvez, me exibir. – Essa aqui é a doutora que resolveu minha vida, tá ligado? Respeita que é braba – ele diz, com aquele sorriso cheio de orgulho. – Valeu, doutora! – um dos menores fala, acenando com a cabeça. – Obrigada... – respondo, um pouco sem jeito, mas educada. Henrique me olha com aquele sorriso que ele sempre dá quando acha que conseguiu o que queria. – Bora lá dentro, doutora. Você merece pelo menos um brinde por tudo que fez. Eu hesito por um momento, mas acabo seguindo ele, sem saber direito no que tô me metendo. A gente volta pro carro, e eu tento me concentrar no volante enquanto Henrique vai me guiando. Ele também tá perdido, não conhece direito essa parte do morro. – Vai direto aqui, doutora... aí, vira ali na direita – ele fala, apontando com o dedo, e eu sigo o caminho. No meio disso, ele começa a contar sobre o irmão dele, que tava segurando o morro pra ele todo esse tempo. – Meu irmão é firmeza, tá ligado? Enquanto eu tava na jaula, ele tava na correria aqui, ajeitando tudo. Agora é minha vez de assumir – ele fala, e a voz dele ganha aquele tom sério, como se estivesse se preparando pra alguma guerra. Eu sinto um arrepio. Saber que ele vai tomar a direção desse lugar só me deixa ainda mais consciente de como ele é perigoso. Ele já era intenso, mas agora... com poder nas mãos? Isso só o torna ainda mais impossível pra mim. – E você acha que tá pronto pra isso, Henrique? – pergunto, tentando entender o que passa na cabeça dele. Ele dá aquela risada baixa, meio debochada. – Pronto? Tava esperando por isso, doutora. Eu nasci pra isso. Meu irmão segurou as pontas, mas aqui sempre foi meu. E agora é oficial. Meu coroa me passou esse morro, e eu quero que ele se orgulhe de mim. Tá ligado. – E o que você vai fazer com todo esse poder, hein? – pergunto, mais por curiosidade do que por provocação. Ele me olha, com aquele sorriso malandro. – Mudar as coisas. Fazer do meu jeito. E, se tudo der certo, nunca mais voltar pra aquele inferno. Eu desvio os olhos pra estrada, tentando disfarçar o aperto no peito. Por mais que ele diga isso, o mundo dele é um ciclo difícil de quebrar. E eu sei que não posso me deixar envolver. – Tá perto, vira ali naquela viela – ele fala, e eu obedeço, tentando me preparar pro que vem a seguir. Assim que eu estacionei o carro, Henrique desceu, e nem deu tempo de respirar. Um cara veio direto pra cima dele, abriu os braços e o abraçou com força. Logo em seguida, outro chegou, repetindo o gesto. Eles deviam ser os irmãos dele, dava pra ver a semelhança no jeito. A quadra tava lotada, parecia que o morro inteiro tava ali. A música alta fazia o chão vibrar, e o som das pessoas gritando e comemorando se misturava. Eu fiquei no carro por um segundo, só observando. Henrique tava no meio de todo mundo, rindo e trocando ideia. Ele parecia... em casa, sabe? Era estranho ver isso, porque na cadeia ele sempre tinha aquela marra, aquela tensão. Aqui, ele parecia leve, como se finalmente pudesse respirar. Depois de uns segundos, decidi descer também. Não sabia se eu me sentia à vontade, mas não queria ficar plantada no carro feito uma estranha. Assim que saí, Henrique me olhou e fez um gesto com a mão pra eu ir até ele. – Vem cá, doutora! Quero te apresentar o pessoal – ele gritou por cima da música, com aquele sorriso largo que fazia até esquecer o perigo que ele carregava. Eu respirei fundo e caminhei até ele, sentindo os olhares curiosos do pessoal ao redor. Continua ..... Gente, teve uma leitora nos comentários falando que não entendeu, eu vou explicar aqui. Ate o capítulo 3 foram 3 anos atrás, do 4 pra frente é o presente, então ela tirou ele da cadeia duas vezes, nos 3 primeiros capítulos contei o que aconteceu no outro livro, pra quem não leu o outro livro, entender 😘
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD