Capítulo 5
Simone narrando :
Gente do céu, o Henrique é um caso perdido, viu. Ele não presta e, pelo visto, também não cansa. Minha vida virou uma verdadeira bagunça desde que eu aceitei esse caso. Ele não me deu paz, mas vou confessar, bem no fundo, eu até gosto disso.
Meu ex, graças a Deus, finalmente aceitou o divórcio. Cada um seguiu seu rumo, e foi o melhor pra mim. Continuo morando com minha amiga porque, sinceramente, não sei viver sozinha. Eu preciso de gente por perto, sabe? Alguém pra conversar, pra dividir o dia a dia, senão parece que a solidão me engole.
Três anos que o Henrique tá preso, e ele fazia questão de me chamar lá toda semana. Acreditem ou não, eu até curtia. Sei que ele tava fazendo marra só pra me ver, mas eu nem ligava. O problema é que entre a gente nunca vai rolar nada, isso eu sei. Ele é o completo oposto do que eu quero pra minha vida.
Eu quero alguém que me ame de verdade, que seja fiel, que tenha uma vida tranquila. Não quero me envolver com alguém cheio de confusão, que vive no caos como o Henrique. Mas, mesmo sabendo disso, ele mexe comigo de um jeito que eu não consigo explicar. É um perigo que, por mais que eu tente evitar, sempre acaba me puxando pra perto.
Às vezes, saio com alguns caras, mas não passa de uma noite, sempre é nada sério. Tem um colega de trabalho, o Everton, que sempre me dá umas cantadas e me convida pra sair. Ele é um gato, mas não gosto de misturar as coisas. Além disso, falta algo nele que me atraia de verdade.
Hoje era o dia tão esperado, o Henrique ia finalmente sair da cadeia. E, olha, acho que eu tava mais ansiosa que ele. Liguei pro irmão dele, o Luan, pra avisar e ele já veio com aquela empolgação, dizendo que iam fazer uma festa pra recepcionar o Henrique. Não sei como eles conseguem, mas essa galera do morro sabe mesmo transformar qualquer momento em celebração.
Fico pensando nisso às vezes. Parece que, mesmo com todas as dificuldades, eles conseguem ser mais unidos, mais felizes. É como se cada pequena vitória fosse um motivo pra reunir todo mundo, dançar, rir e esquecer os problemas, nem que seja por algumas horas. Dá até uma pontinha de inveja, porque, no meu mundo, as coisas são tão formais, tão frias.
Enquanto dirigia pro fórum pra resolver os últimos detalhes da soltura, fiquei pensando em como o Henrique ia reagir. Ele sempre foi intenso, cheio de marra, mas nesses três anos preso, percebi outro lado dele. Não vou mentir, ele mexe comigo. Só que, ao mesmo tempo, é tudo o que eu não quero pra minha vida, caos, perigo, adrenalina. Eu quero paz, estabilidade, um amor tranquilo... Mas, com ele, parece que tudo é um furacão.
Sai do fórum depois de tudo pronto e fui direto pra delegacia. Cheguei lá e cinversei com o delegado mostrando o alvará e logo trouxeram o Henrique, ele assinou tudo que tinha que assinar e então saímos dali.
Assim que saímos da delegacia, fui direto acertar os últimos detalhes. Tudo resolvido, finalmente era hora de ir embora. Dessa vez, eu tinha vindo de carro. Henrique me acompanhou até lá e entrou no banco do carona com aquele jeito dele, todo confiante.
Antes de dar partida, olhei pra ele e falei:
– Coloca o cinto.
Ele riu, aquele riso meio debochado, mas obedeceu sem dizer nada. Dei partida no carro e segui dirigindo. Só que, enquanto eu focava na estrada, sentia o olhar dele queimando em mim. Não disfarçava, não piscava. Era como se estivesse me estudando, tentando descobrir algo que eu mesma não sabia.
Aquilo começou a me incomodar. Respirei fundo, tirei os olhos por um instante da entrada e encarei ele.
– O que foi, Henrique? Tá me olhando assim por quê? – perguntei, meio séria, tentando entender o que se passava na cabeça dele.
Ele inclinou um pouco o corpo pra frente, apoiando o braço no painel, e abriu aquele sorriso safado de sempre.
– Sei lá, doutora... Tô tentando entender por que tu ainda me aguenta. Três anos indo me ver toda semana. Tu devia tá cansada de mim, mas tá aqui, me levando pro meu barraco. Tá ligado que não é qualquer uma que faz isso, né?
Aquilo me pegou de surpresa, confesso. Porque, por mais que ele fosse marrento, nunca tinha falado comigo desse jeito, tão direto. Dei uma risadinha nervosa, mas voltei minha atenção pra estrada.
– Faz parte do meu trabalho, Henrique. Só tô cumprindo meu papel.
Ele riu de novo, mais alto dessa vez, como se não acreditasse.
– É... Pode ser. Mas sei que não é só isso. Vai dizer que não vai sentir falta das minhas histórias, hein?
Balancei a cabeça, tentando não deixar transparecer nada. Henrique tinha esse dom de me tirar do sério e me deixar sem palavras ao mesmo tempo.
Enquanto eu dirigia, ele continuava me olhando daquele jeito, com aquele sorriso de canto. Sabia que ia vir alguma coisa.
– Ô, doutora, por que tu não cola lá na resenha? Vai ser da hora, te juro. O povo já deve tá se organizando. Só de boa, uma cervejinha, uma música... Te garanto que cê vai curtir.
Revirei os olhos, tentando não rir, porque já era típico dele querer me arrastar pra essas coisas.
– Henrique, sabe que eu não curto essas paradas. Resenha no morro? Não é muito meu estilo, não.
Ele soltou uma risada, relaxando no banco, mas não desistiu.
– Ah, para, Simone. Vai me dizer que nunca ficou curiosa pra saber como é? Te garanto que o pessoal vai te tratar bem. Eu mesmo faço questão de ser seu anfitrião.
– Meu anfitrião? – perguntei, rindo de leve, enquanto fazia uma curva. – Cê tá é querendo me arrumar problema.
Ele balançou a cabeça, sério agora, mas com aquele brilho provocador nos olhos.
– Nunca, doutora. Ninguém vai mexer contigo, ainda mais lá. Tu é minha advogada, tá comigo. É só colar, se divertir um pouco. Tá sempre tão séria...
Suspirei, sem responder de imediato, porque sabia que ele ia continuar insistindo. Henrique tinha esse jeito de dobrar qualquer pessoa na conversa. E, no fundo, admito que a curiosidade batia mesmo. Mas eu não ia dar esse gostinho fácil.
– Vou pensar – respondi, tentando encerrar o assunto.
Mas ele riu, como se já tivesse certeza da minha resposta.
– Beleza, pensa aí.
Balancei a cabeça, tentando disfarçar o sorriso. Esse Henrique... sempre com essas ideias.
Continua .....