Ao Lado de um Quarto

1129 Words
— Ei. O que faz aqui até hoje? - Escuto a pergunta já feita com certa familiaridade. — Sofri um acidente, se lembra? - Respondo-a. — Acidente. Deve ter sido um dos grandes... - Ela observa meus hematomas. — E você? Foge, mas o hospital te sequestra de novo? — Como notou? Foi até meu quarto me procurar, é? - Ela arqueia as sobrancelhas. — Eu... Estava passando pelo corredor, acabei reparando em seu quarto. — Ah, sim. Passando pelo corredor. - Sorri novamente, porém agora de forma zombeteira, fingindo acreditar na minha mentira terrível. — Já reparou como o mundo é lindo lá fora? - Ela fita a janela, apreciando o céu. — Queria ser um avião. Um helicóptero! — Não, não é. É perigoso. — Disse que era bonito, não seguro. — Aí está você, garotinha! - O médico a aborda. — Se esqueceu de seu repouso, foi? — Dormi oito horas, Henry! Oito horas! - Cruza os braços, se retirando do quarto. — Minha alma está cansada de passear, meu corpo também precisa! - Escutamos sua voz ecoar pelo corredor, à medida que se distanciava. — Ei! Doutor! - Faço um sinal para que ele se aproxime. — Ela não vai morrer, não é? — O que? Não! Por quê?! - O médico solta algumas risadas em vista minha indagação aleatória. — Porque temo que situações inusitadas aconteçam o tempo todo levando a vida que levo. - Dr. Henry continua a me fitar, sem me compreender. — Enfim, eu... — Você gosta dela. — Não! Eu só... Parem de me pressionar! — Ah, ok. Como quiser. - Henry checa meu prontuário, segurando seus risos debochados. — Daqui a pouco retorno com seus medicamentos, certo? Deito mesmo já farto de estar deitado. E instantaneamente, a garota do quarto ao lado me vem à mente. De novo. Pergunto-me o que ela tem pra estar aqui por semanas e parecer tão bem. Nem aparência de doente ela tem. Sua pele rosada, sua unha recém pintada de azul-turquesa, sua risada contagiante. De qualquer modo, querer saber seu diagnóstico era só uma desculpa pra pensar nela. Como se eu precisasse de uma. Esbarrávamos-nos algumas vezes e sempre que conversávamos, ela nunca falava de enfermidades, mesmo que estivéssemos em um hospital. Nunca perguntou o que havia me acontecido a fundo, mesmo que eu aparentasse ter brigado com o rei do inferno e perdido, após ele me enfiar seu garfo em chamas centenas de vezes. Ela conversava comigo não por eu ser um detetive, salvador do mundo, o mais procurado pelos "criminosos". Conversava por eu ser o Tom. Só Tom. Nunca pensei que minha melhor folga seria num hospital. Chutaria uma praia, mas hospitais têm lá suas qualidades. Vejo-a passando pela porta. Deito novamente, tentando esquecer essa visão. Ok, tarde demais. [...] — O que faz aí? Não tem medo de cair? Venha, volte pra cá. - Peço-a. Ela estava no telhado do hospital. Havia subido numa área íngreme, impossível de ser habitada por mais de uma pessoa - ou por uma só pessoa em sã consciência. — "É perigoso!", "Não tem medo? Desça!" - Ela pula em minha frente, posso ouvir o barulho de seu all star amarelo se encontrar ao chão. — Deus! Você parece um pai. - Ela dá meia volta, andando até as escadas. — Espere, aonde vai? - Ela apenas me olha, sorrindo para mim. Estou alucinando? São as medicações? Já me aconteceu tanta coisa que não duvidaria. Ela era um anjo? Um demônio? Que diabos ela era? Olho a lua cheia que iluminava o telhado. Céus, como ela brilhava! Chegava a pulsar. Pra que pensar? Sem nem segurar meus instintos, vou aonde quero estar. [...] Seguindo seus passos, vejo que ela para num parque que por ali havia. De pé sobre um balanço de madeira, ela balança seu corpo para frente e para trás: — Me empurra? - Pede-me, depois de notar que eu vinha caminhando em passos lentos por detrás dela. Ao invés de empurrá-la, dou a volta pelo balanço, parando em sua frente. Gostaria de fazê-la tantas perguntas. Mas, no momento, só conseguia fitar seus lábios vermelhos pelo frio. — Quem é você? O que faz no hospital? - Indago. — Me consulto com o psiquiatra diariamente no intuito de não ser internada. Matei treze pessoas numa chacina. - Ela sorri. E meu espírito quase sai do corpo. — É brincadeira! Meu Deus, que expressão foi essa?! Achei que fosse desmaiar. — d***a. - Respiro fundo, ainda me recuperando ao som de suas gargalhadas. — Não faça isso mais, me assustou de verdade. - Sorrio entre disfarces, mais um pouco e ela me tacharia como um louco paranóico. Sinto seus lábios aos meus. Fecho meus olhos com força, depositando tudo o que ela me fazia sentir. Levo as mãos até sua cintura, com calma, como se eu tocasse um pássaro que pudesse voar a qualquer momento. — Não se preocupe. Tive pneumonia, mas já estou bem. - Ela respira fundo, soltando o ar calmamente. O que me faz ir até Plutão e voltar ao pensar como alguém poderia ser tão bonita. — O oxigênio é mágico. - Diz entre risadas. — Me faça viver como você. - Ela busca meus olhos, um pouco confusa. — Preciso dessa paz. Vejo que ela muda sua feição. Pela primeira vez, vejo um olhar assim, tão terno. Poucos postes de luz iluminam o parque, nunca fui fã do escuro, mas era como se o brilho de seus olhos clareasse o lugar. — Você já a tem. - Ela entrelaça sua mão à minha. A cor de sua unha havia se tornado um azul-marinho pela penumbra. Sinto-me bem por sentir o toque de sua palma. — Está me transmitindo agora. — Não, você é que está. — Já quer implicar comigo? - Ela ri, abraçando minha nuca e movendo seu corpo para que o balanço se movesse junto. — Somos a história clichê perfeita, não acha? - Ela fita minha expressão de dúvida. — Você é meu completo oposto. Mas no fim, somos o reflexo um do outro. O famoso reflexo invertido. - Ela tomba sua cabeça para trás, deixando-se levar pelo balanço. — É, somos diferentes. - Seguro seu corpo para que ela não caia. Percebo a confiança que ela deposita em mim, na forma em que se deixa levar pelos movimentos do balanço. Não consigo desviar minha atenção de seus cabelos se esvoaçando ao vento, sua silhueta moldada por um vestido branco unido à jaqueta que escorregava pelos seus ombros. Ela me transmitia serenidade, assim como adrenalina. Ficando de pé novamente, ela me permite voar no transe que seus olhos castanhos me proporcionavam. — Mas sinto que vamos descobrir que essa diferença é que me levou até você.
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