E lá estava eu, em meio a um temporal dos grandes, com a roupa rasgada, sentada no meio-fio olhando para Tom e Cortland vagando feito baratas tontas.
— Alguém pode me emprestar uma blusa? - Pergunto pela segunda vez.
— Pelo o que posso ver, estamos num universo paralelo, certo? - Observa Tom. — Para nos mantermos seguros, parece que nos enviaram a uma realidade alternativa.
— Ok. E alguém pode me emprestar uma roupa?
— Eu posso, gatinha. Ou não. Você deve ficar ótima sem.
Louis? Quem disse isso?
Louis?
Louis?
Sério, a cena foi ótima. Hilária, eu diria.
Levanto-me de imediato e se antes Tom e Cortland pareciam baratas tontas, bom, agora ao menos encontraram um ponto.
— Não se levante. - Vejo Tom me avisar e na hora não compreendo. Agora ele vem tirando o casaco? Agora? Já até me acostumei com o estilo da minha vestimenta. Estava style.
Olho para baixo. Ok, agora entendo. Meu estado era crítico.
— Por que suas roupas estão intactas?! - Pergunto a Tom e Cortland em tom de repreensão à realidade que não foi com a minha cara desde o princípio.
— Porque Deus sabe o que faz, não? - E sou respondida por Louis.
Por Louis.
— Louis? Primeiro me canta e agora vem com blasfêmia? O que deu em você? - Dou risada, buscando o zíper do casaco de Tom. — A menos que...
— Quem é você? - Pergunta Tom prontamente.
— Stone.
— Stone? - Repetimos, cada um com uma expressão mais confusa e bizarra que a outra.
— Vocês são bem loucos, né? - Stone sorri. — Mas sabe, eu amo isso! - Ele nos abraça, gerando uma bela encarada de Cortland e uma saída de mansinho de Tom.
— Ok. É melhor irmos. - Avisa Tom, o que resulta em alguns passos já dados por nós.
— Qual é seu nome? - Indaga-me Stone.
Nós três olhamos para ele. Depois um para o outro. E novamente para ele.
Bom, claramente ele olhava para mim.
— Eu? - Aponto em minha própria direção.
— Você. - Ele responde, com o sorriso de lado mais s****o que já vi na vida. Sem exagero. Exagero nenhum. Deus, me ajude.
— Não importa. - Tom me vira de frente ao me abraçar. — Ela tem namorado. Não é, amor? - Ele me repreende, por eu ter encarado o sorriso s****o. Ora, eu nunca havia visto Louis assim, mereço um desconto.
— Sim, amor. - Repito com um sorriso f*****o no rosto, repreendo-o de volta com o olhar de pare, está bravinho à toa.
— Ok, quando terminarem de discutir por olhar, - Cortland diz calmamente. — podemos ir?! - E logo depois se altera. Alterações de humor em alterações no universo, nada incomum.
Assim que dispersamos Louis, quer dizer, Stone, o que for, um estranho - porém lógico - pensamento me aborda:
— Ei, garotos? Se estivermos num universo paralelo, assim como existe outro Stone, é possível que exista outros de nós. Se nos encontrarmos com nós mesmos temo não ser nada bom e causar um estrago dos grandes...
— Ei! Pedro! Hunter!
Um homem vem gritando e acenando.
Em nossa direção.
Ele não desviava, via em linha reta, num caminhar tão confiante.
Ah, não...
— A menos que... - Tom inicia a frase num balbucio.
— Vocês estão aí! Céus! Procurei por vocês em todo lugar! - O homem mira seu olhar sobre mim. — Quem é essa?
— Oi? - Encaro os meninos com o olhar mais mortal que consegui invocar na hora. — Vocês não me conhecem?! Juram?! Como podem viver sem mim?!
O homem continua a me encarar. Não o julgo. Parece que havíamos acabado de sair de um apocalipse zumbi e eles comeram minha roupa, mas tiveram piedade ao deixarem os meninos ilesos. Tirando minha fala, que protagoniza um surto psicótico.
— Ela é doidinha, não é? E incrivelmente linda. Mas Tom não quis me apresentar.
Ah, não.
— Você de novo?! - Diz Tom com frustração após ver Louis. Stone.
— Precisamos ter uma conversinha, amigo. - Stone o presenteia com um pequeno tapinha no ombro.
Tom sussurrava "amigo" com desdém, Cortland interrogava o homem que pelo visto os conhecia muito bem, e eu só queria entender meu azar de ter um Louis t****o na minha cola e nem uma almazinha pra fazer o favor de me conhecer e me contar como é meu outro eu.
Imersa nos meus pensamentos, jamais imaginaria que poderia ficar pior.
— O que estão cochichando aí? - Pergunto a Tom e Stone, não esperando o susto vindo de Tom. E muito menos a risada vinda de Stone. — O que foi, Tom? - Pergunto a ele, já que Stone não era nem um pouco normal.
— Nada, amor. - Tom dá um sorriso de desespero que pelo amor de Deus, eu já queria sentar no meio-fio de novo e rezar um terço enquanto chorava. Encaro Stone, que tentava não sorrir. Meu Deus, como ele gostava de sorrir.
Cortland dá o ar da graça, dizendo que pistas apareceram e que deveríamos investigar. Noto que Tom fica em silêncio e começo a me preocupar. Que fim dos tempos Stone havia comunicado a ele?!
— Antes, vamos sair. - Diz Stone de um jeito certeiro. Levo um pequeno susto, já que havia me esquecido de sua presença. Quer dizer, anos o vendo como Louis! É muita loucura pra se acostumar tão rápido com uma personalidade tão distinta.
— Vamos? - Ironizo, sabendo que os meninos não aceitariam.
— Bom, vamos! - Para minha surpresa, Tom aceita, sim. — Quer dizer, só você. - Ele olha para mim. O que d***o Tom estava fazendo?! Noto que ele se aproxima de mim, ficando próximo o suficiente para que pudesse falar sem que Stone escutasse-o. — Você vai investigar, ok? Enquanto isso eu e Cortland investigamos por aqui.
— Não faz sentido. Ele não me conhece! Vou investigar o que? Quantos sorrisos diabólicos ele tem?! - Levo meu olhar a ele, que aguardava nosso veredicto serenamente. — O que está havendo? - Olho novamente para Tom e encaro seus olhos. Se ele mentisse assim, seria o fim.
— Eu e Cortland vamos averiguar. Ligo-te depois. - Ele me puxa para um abraço.
— Você vai me deixar sozinha com um psicopata num universo onde não conheço ninguém?
— Não, não vai. Por isso já vou adiantar as coisas: Tom é casado. - Cortland dispara do seu jeito... Cortland. Meu choque não me deixa falar nada, então Cortland tem carta branca pra continuar. — Com alguém cujo ele nunca viu na nossa realidade. Não se preocupe. - Eu não estava preocupada com isso, mas, da forma que Cortland fala, espero que não seja minha mãe.
— Devo ficar aliviada?
— E Stone acha que Tom está traindo a esposa com você.
— Ótimo, sou uma v***a.
— E Stone o chantageou, pois deduziu que você não saberia.
— E ele um b****a. Legal. Cortland, sobrou você. Qual é seu podre? É meu amante também?
— Bem, é melhor nós arrumarmos uma roupa pra você.
— Calado, Cortland! - Caímos na gargalhada. — Roupas nunca querem dizer algo! Certo, vou indo com Stone. - Respiro fundo, dando ênfase em seu nome.
— Pare, vai nada. - Cortland tenta aliviar depois de ver a feição do irmão. — Ele não tem culpa. Brigar com ele por isso é o mesmo que brigar com ele por sonhar com algo que não goste. E se você fosse casada comigo?
— Não, não sou. Teriam me reconhecido. E seu amigo Stone não declararia suas vontades tão descaradamente.
— É só uma hipótese, você entendeu! Mas, falando sério em r*****o a essa realidade, Stone é legal com todos. Pelo o que ouvi, eu quem sou o b****a aqui.
— Stone, legal? Uau, eu tenho medo de você. Do Hunter. Ou do Frank. Eu sei lá mais quem. - Suspiro, tentando redobrar a sanidade. — Tem como descobrir seu endereço? Vamos para algum lugar? No momento, só quero um banho e um lugar pra dormir um pouco.
— Não estou incluso? - Escuto Tom perguntar, pois ainda não havia mantido um contato visual decente com ele.
— Quer que eu lhe peça que descubra seu endereço?
— Eu descobri meu endereço, sim. - Cortland interfere, sabendo que a esposa de Frank - ou Hunter - não desejava uma visitinha dessas. — Vamos?
[...]
Ao entrarmos no apartamento 507 de porta branca e tapete "welcome" de enfeite, deparamo-nos com o próprio Cortland em decoração.
— Esse definitivamente é meu apartamento! - Ele exclama para nossa não surpresa.
Uma sala de televisão - cinema - devidamente bem instalada com centenas de filmes em suas estantes. A parede inteiramente branca, mas lotada de posters e fotografias. Espadas de decoração, sacos de taco de golfe recostados. Diria que até mesmo a cozinha era incrível, com guloseimas recheando todas as prateleiras.
Vasculho seu possível quarto na procura de qualquer traje vestível:
— Cara, você não vai acreditar! Achei umas roupas iradas no seu armário! Sabe, não é bem meu estilo, mas pra quem ama moda e está num universo paralelo... - Noto que Cortland está calado demais. Seria minha roupa anos 90 que o havia deixado de queixo caído?
Ah, não.
Cortland me mostra uma foto.
Meu Deus.
— Pelo visto gosto de babacas. - Cortland posiciona o indicador sob seus lábios. Olho para os lados em busca de Tom, que abria a geladeira e tirava cervejas de lá. — Não fale que sou mesmo uma v***a senão quebro você ao meio. Você é solteiro. Espero que eu também. E somos quentes. Bem quentes. Só isso... - Observava a foto, quase contorcendo meu pescoço pra conseguir fitar cada detalhe. Cortland fazia o mesmo.
— Você já me quebra ao meio. - Debocha Cortland e o fito agora complemente incrédula.
— Nunca senti tanta v*****e de m***r vocês dois. - Ele gargalha, se segurando para não fazer muito barulho.
— Do que estão rindo? - Tom tenta se aproximar, já que eu estava o ignorando até então.
— Nada. - Pego a foto e escondo por detrás de mim. — Gostou de como estou vestida? Demais, não?
— Sim! Você é linda de qualquer...
Acabo por juntar as peças do quebra-cabeça e entendo que as peças de roupas, eram mesmo minhas. m***a.
— Não, são horríveis! Nunca ia gostar disso! Cor demais! Paparico demais! - Andava pelo cômodo.
— Não, na verdade, você só não se veste assim porque não temos oportunidades.
— Deus... - Minhas pernas cedem e eu me jogo no sofá. Logo me levanto ao imaginar o que aquele sofá já havia me proporcionado hipoteticamente.
— O que houve, amor? - Tom pergunta, e eu me sinto uma panela de pressão prestes a explodir.
— Eu e elas somos... - Cortland me olha em busca da nomenclatura mais meiga pra contá-lo que f@!&$ sua namorada em outro universo.
— Somos... - Eu faço o mesmo, olhando-o de volta.
— Namorados...?
— Sim! Namorados! Já que tenho até roupa no apartamento. Por aqui pareço ter mesmo ocasiões para usá-las. Sabe, não preciso ler livros repetitivos, investigar assassinos não humanos e esperar que fiquemos vivos... - Paro meu devaneio dito na tentativa de enrolar alguém, quando noto o olhar de Tom.
— Vocês gostam tanto daqui, não gostam? Por que não ficam?
— E você? Tem o que sempre quis, Tom. Uma esposa, uma casa. Deve ter até um cachorro.
— Chega! - Ele grita, suspirando logo em seguida para se acalmar. — Eu vou sair. Se divirtam.
Escutamos a porta bater. Cortland me encara:
— Isso não era pra estar acontecendo, você sabe disso. Viemos pra cá para sermos salvos e não para nos odiarmos.
— Eu sei. - Suspiro, levando os fios rebeldes do meu cabelo para trás da orelha. — Vou buscar um café, tudo bem? Eu já volto. - Saio pela tal porta 507.
— Incrível. - Cortland diz a si mesmo com ironia, diante à ladeira louca que nos metemos e só íamos descendo.
[...]
Ah, não.
— Oi, Stone.
— Gostei da roupa.
— Cale a boca. - Permito-me soltar uma risada. — Você só me meteu em encrenca.
— Eu? - Ele abre um sorriso depois de deixar seu cappuccino sobre a mesa. Que novidade.
— Ok, não só você. Mas não quero me meter em outra.
— Oi, um café, por favor. Pra viagem.
— Está me seguindo? - Encaro Cortland.
— Vim evitar que se meta em encrencas. - Lanço meu melhor olhar de "jura?" em meio às suas risadas. — Descobri algo sério sobre o caso. Vim te chamar. - Finaliza ele.
[...]
Caminhava com Cortland de forma eufórica pela areia - isso mesmo, areia - enquanto o lotava de perguntas. Ele estava me levando para algum lugar, era visível. Mas não sabia para onde. Estava sendo ignorada com maestria:
— O que estamos fazendo aqui? O que teria na praia, Cortland? Me adiante algo, poxa. Preciso achar o Tom!
— Não acho que precise.
Olho à diante, meio perdida, tentando entender do que Cortland falava. Avisto um quiosque bem iluminado, repleto de flores com suas demasiadas cores. Aproximo-me um pouco mais, não para enxergar melhor, mas pra ter certeza de que estava mesmo enxergando aquilo.
"Casa comigo?"
Estava em choque e sem imaginar o que dizer ou fazer. Percebo que o som das ondas dançando era a trilha sonora mais linda que eu já havia ouvido.
Até ouvir sua voz de acompanhante:
— Eu te amo. E não culpo Cortland por estar com você nesse universo, ele seria t**o senão o fizesse.
— Tom... - Abraço-o, sentindo seus beijos graciosos pelo meu rosto. — Adoraria ter um cachorro junto de você.
Escuto sua risada doce de novo, deixando registrado em minha memória a visão que em qualquer universo eu seria capaz de me lembrar.