No meu primeiro dia fazendo análise, fazia uma semana da primeira entrevista com o Thomas. Tinha sonhos desconcertantes e quentes.
_ O que foi que você sonhou com o seu chefe, Srta Passion? _ a psicóloga perguntou olhando para o papel. Era como se não estivesse ouvindo. Isso me incentivou a falar.
Eu sonho que estamos na sua sala... Ele me olha com os seus lindos olhos verdes e... Percebo que estou nua, usando somente a sua gravata, que não estava mais nele.
Neste momento, tomo consciência de que estive nua o tempo todo em que ele me olhava... e acordo excitada.
_ Teve outros sonhos?
_ Sim. Todos são igualmente constrangedores.
Eram sempre assim, as minhas sessões de análise se resumiram a minha infância interferindo no meu presente monótono e meus sonhos quentes com Thomas Dream.
Mas na manhã seguinte aquele noite na sala de tiros, eu sonhei diferente.
O cenário era o mesmo da noite passada, mas eu estava nua entre os seus braços o tempo todo.
Tudo aconteceu igual, mas na hora em que seus lábios beijaram a minha nuca, eu me voltei para ele, depois de largar a arma e tirei o protetor de ouvido e de olhos.
O Thomas Dream me abraçou segurando a minha b***a e a sentiu em suas mãos, acompanhando as minhas reações, me olhando com o nariz quase encostado no meu.
Depois me sentou sobre a mesa. Ficou entre as minhas pernas e me disse:
_ Olha para mim.
Acordei suada.
Meu Deus! Que calor é esse?
O meu celular vibrava e apitava feito louco, desliguei o alarme. Hoje era sábado e no sábado, eu acordo às dez. Fui direto para o chuveiro apagar o meu fogo. Um incêndio.
Socorro!! Se sonhar nua diante do seu olhar já me deixava em chamas, e agora?
O pensamento sempre nele me tirou de casa. Precisava me distrair da lembrança do seu olhar... do seu sorriso... do seu corpo alto e acolhedor contra o meu... das suas mãos e... dos seus lábios suaves e carinhosos.
Fui ao shopping, era só atravessar duas ruas e eu já estava nele.
Seu pedido no meu sonho foi estranho porque eu olhava para ele, difícil era não olhar. Então o que aquilo queria dizer?
"Você é muito distraída, Alana", foi o que ele me disse durante a nossa conversa.
Talvez eu esteja perdendo algo.
Carreguei a arma e descarreguei no alvo. A sua presença estava aqui, eu o sentia. O seu perfume era delicioso, único. Nunca senti aquela fragrância antes, mesmo trabalhando em uma fábrica de perfumes. Deveria ser um perfume exclusivo. Com certeza Thomas Dream mandou criar um perfume para si mesmo. Algo que não era comercializado. Eu faria o mesmo se eu fosse ele.
Aproximei o alvo e a lembrança foi tão forte que pareceu que havia ouvido a sua voz dizer "o seu inimigo está morto". Eu aprendi a atirar. Definitivamente, nunca mais erraria o alvo e devia isso ao meu chefe arrogante, snobe, frio, presunçoso. Ele era assim, com todo mundo. Eu via o seu jeito durante as reuniões, nas suas conversas de porta aberta, ele era assim com todos da sua classe social. Até com as mulheres que o procuravam. Mas não comigo. Jamais um chefe foi tão humano comigo.
Sequei as lágrimas do meu rosto. Lembrei de como me senti m*l com o meu último chefe. O Sr Sheldow me promoveu ao exato cargo que eu ocupo agora na empresa Dream, só para colocar as suas mãos pegajosas e senis sobre mim, na primeira oportunidade. Este era o motivo pessoal que me fez pedir demissão. Sei que o mesmo não aconteceria com Thomas Dream. Além do seu distânciamento afetivo que o faz parecer ser feito de ferro, havia essa gentileza que ele só demonstrava comigo. Algo fraterno, talvez.
Sei que eu sou a única pensando em romance aqui. O Thomas Dream nunca me olharia como mulher. Não sou boa o suficiente.
Troquei o alvo afastei e descarreguei a arma. Isso conseguia limpar a minha mente num passado bem próximo. Atirar no alvo visualizando o meu antigo chefe, ou a mim mesma por ter deixado acontecer. Mas desde ontem isso mudou. O meu pensamento no ruivo só piora.
Agora, noto que nunca falei sobre isso durante a análise. Eu deveria dizer, não é? Este deveria ter sido o meu primeiro assunto. Algo que precisava ser resolvido.
Desisti de tentar esquece-lo no lugar onde ele mais marcou presença. Devolvi os protetores e as armas. Guardei os pentes restantes no bolso frontal da blusa . Fui tomar um café com uma fatia de bolo na praça de alimentação. Ouvia lições de Israelense no mp3. Estava progredindo. Já sabia como soavam algumas palavras. Alguns diálogos comuns também.
Sei exatamente porque não falei sobre o Sr Sheldow. Porque eu não quero que isso seja um marco na minha vida. Não a quero nem como lembrança. Posso superar se ninguém mais souber, se ninguém me ver como vítima. Se eu não reforçar o acontecido. Muitas coisas acontecem. Coisas às quais não damos importância. Coisas que apenas aconteceram e passaram. Essa é só mais uma delas. Eu fico.
Levei um pedaço de bolo a boca e lembrei do seu jeito tímido, logo antes de dizer que eu não deveria comer tanto açúcar.
Será que não tem nada que eu consiga fazer sem lembrar deste ruivo?
Não tinha feito amigos ainda. Me mudei uma semana antes de começar neste trabalho. Também não fiz amigos no trabalho. Estou sempre no meu escritório, no escritório do meu chefe, ou na sala de reuniões. Nem visito os outros andares do prédio. Fui a fábrica algumas vezes. Acho lindo a linha de produção em ação.
Os meus vizinhos parecem ser muito ocupados. Até agora não vi nenhum entrar ou sair de casa. Nem os conheci nestes dois meses passados. Só me resta passar o meu tempo no shopping.
Voltei para casa depois de assistir um filme no cinema do shopping. Era quase meio noite quando atravessei a primeira rua e entrei na segunda, bem deserta. Peguei as chaves para abrir a porta e fui surpreendida por um cara usando uma touca que cobria todo o rosto, só os olhos ficavam fora, mas tinha óculos escuros cobrindo.
Ele me pegou por trás, tentando me imobilizar. A adrenalina tomou conta de mim. Foi mais forte do que eu. Quando vi, já o tinha lançado para longe com um golpe forte no seu abdômen. Estava pronta para me defender, quando ele desistiu e saiu correndo.
Neste momento, percebi a gravidade do que havia acontecido e comecei a tremer. Com as chaves na mão, foi difícil abrir a porta. Lá dentro, bebi a primeira coisa líquida que vi na porta da geladeira, desabei sobre a cadeira e esperei que o meu corpo voltasse ao normal.
Repassando na minha mente o que acabou de acontecer, notei que havia algo de famíliar no meu oponente, mas não sabia o que era.