07 - Na Minha Casa

1602 Words
THIAGO NARRANDO Estava atendendo na UBS. Hoje é meu plantão, foi um dia bem cheio, mas agora finalmente tudo se acalmou. Estou sentado na minha sala, esperando caso algum paciente chegue. E então, ouvi batidas na porta. — Pode entrar. — Achei que fosse algum paciente... Mas não. Era Marcela e eu duvido muito que ela tenha vindo procurar atendimento. — Oi... Marcela? Esse é seu nome, não é? — Sim. E você é o Gringo. — Isso. Meu nome é Thiago, caso não saiba. — Ela sorriu. Me levantei e fui até ela. — Eu perguntei pelo doutor Thiago e eles não souberam dizer quem era. Só me mandaram para cá. — Ela riu. — Todo mundo me chama de Gringo. Deve ser o sotaque. — Falei de forma simpática. — Me fala... Por que está aqui? Está sentindo algo? — Não, eu precisava falar com você. — Ela disse e se sentou na maca de avaliação de pacientes. — Pode falar. — Cruzei meus braços e me encostei na mesa, em pé. — Eu queria te agradecer por... Ter feito aquilo. Mas eu queria te avisar pra não ser mais i****a desse jeito. O DJ é... Agressivo. Eu pedi pro meu pai pra você não morrer e ele disse que vai aquietar o DJ. Ele é o sub do morro, entende? É um cara importante. — Eu só estava preocupado com você. Desculpa. — Falei. — Não precisa pedir desculpa... Você não sabe como as coisas funcionam aqui. Eu sei mais do que ela imagina. — Tem razão. — O DJ... Já fez muita coisa comigo, Gringo. A gente já namora tem bastante tempo. Eu já fui espancada... Estuprada... Já levei surra de barra de ferro... Já quase morri de overdose umas quatro vezes depois das merdas que ele faz... — Ela suspirou. — Marcela... Você não merece isso. — Ela mexeu no longo cabelo preto ao me ouvir. — Eu não consigo sair dessa. Aquele dia que você... Bom, você dominou ele e tirou a arma dele... Pra me proteger... Eu fiquei tão aliviada. Me senti tão segura com você. — Eu sorri. Me aproximei dela, segurei sua mão e ela não se afastou. — Eu jamais deixaria esse cara machucar você. — Ela olhou pra baixo e sorriu. — Gostaria que mais homens pensassem assim. Inclusive meu pai. — Ele aceita as agressões contra você? — Ela concordou com a cabeça. — Que grande i*****l. — É... Ele é meio controverso. — Bom... Se você precisar de um ombro amigo, sei lá... Você disse que não posso enfrentar o cara porque ele vai me matar, então pelo menos me deixa acolher você. — Se acontecer algo comigo, sei quem procurar. — Ela se levantou da maca e continuou segurando minha mão. Marcela veio até mim e me abraçou, colocando os braços ao redor do meu pescoço. Eu passei os braços ao redor da cintura dela e a recebi, retribuindo o abraço. — Se cuida, Marcela. — Vou me cuidar. E você... Não faça bobagem. Marcela foi se afastar de mim, mas antes disso, apoiou a mão em meu peito e ficou parada como se não quisesse sair. Como se algo magnético estivesse a atraindo para mim. Ela saiu pela porta e eu sentei em minha cadeira, confesso que confuso. Essa mulher é uma incógnita. Talvez seja a mulher que inspirou a música "linda, louca e mimada" do Oriente. Eu continuei atendendo, mas todas as vezes que fechava meus olhos, lembrava de Marcela dançando com aquele vestido rosa completamente indecente. E eu adoro esse tipo de vestido. Acho que aquela bala que usei me fez hipervalorizar aquele momento. Não sei, mas a tatuagem, o vestido, o corpo dela... Eu estou enlouquecendo com essa memória. Eu quero f***r a Marcela até ela esquecer o próprio nome, e só lembrar do meu. — Doutor? Doutor! — Eu saí dos meus pensamentos. — Emergência! Saí correndo, e vi a loucura começar. Dois caras baleados, um brigou com o outro e resolveram na base da bala. Eu sou o único médico aqui hoje, então, tive que improvisar. É tão difícil cuidar de pessoas que se odeiam... Mas consegui remediar o caos. — p***a, tinha que atirar no seu irmão, c*****o? — Gritei com o paciente que estava acordado. O outro dormia, sedado, pois tive que extrair a bala de seu abdômen. — Ele comeu minha mulher! — E você deveria ter comido o cu dele, não ter atirado nele, p***a! — Ele girou os olhos. — O próximo tiro que o senhor levar, eu vou deixar você pra morrer, entendeu? Você veio aqui pela terceira vez em quinze dias por causa de facada, tiro e bebida alcoólica. É difícil passar o senhor na frente por emergência toda vez sacou? Tu tá dando muito trabalho! — Às vezes a gente tem que dar um coça no paciente, pra ver se acorda. Depois de uma noite cheia, fui para minha casa. Eu estava exausto. Tomei um banho e coloquei uma cueca e um short, me joguei na cama e fechei os olhos. Não sei quantos segundos passaram, até minha campainha tocar... E lá vou eu, descendo as escadas, em direção a porta. Juro que pensei em não atender, mas algo me disse que era importante. — Sim? Ah, nossa... Marcela. — Arregalei os olhos. Eu olhei para ela, e ela estava com um olho roxo e o lábio cortado. Chorava bastante. — Thiago... — Eu a puxei pelo braço para dentro da minha casa e fechei a porta. Olhei para ela, levei uma das mãos até o rosto dela e a fiz me olhar. — O que fizeram com você? Quem foi. — Foi o DJ. Eu não posso pedir ajuda de ninguém, Gringo. Ele vai me matar se souber que eu tô aqui. — Dizia chorando. Eu a abracei. A acolhi em meus braços e beijei sua testa. — Eu tô aqui, Marcela. Vou te ajudar, tá? — Ela encostou o rosto em meu peito e fechou os olhos. Parecia aliviada em encontrar refúgio. Se ela soubesse quem eu sou, ainda estaria aqui? Eu pensei em usá-la, pensei em me envolver com ela para chegar ao Montanha, mas... Eu estou disposto a fazer isso com ela pela minha vingança? — Vem, vou cuidar desse olho roxo. Eu a soltei do abraço e a levei até minha cozinha. Quando cheguei ali, a peguei pela cintura e a coloquei sentada na bancada de pedra. Peguei um saquinho e coloquei algumas pedras de gelo, depois, envolvi em um guardanapo. Fui até ela e entreguei. — Obrigada. Isso realmente funciona? Medicamente falando. — Funciona. É útil pra muita coisa, inclusive. — Nossa. Ela colocou o gelo em seu olho. Ainda estava bem nervosa, então fui até meu armário e tirei um saquinho de camomila e outro de melissa. — Vou te fazer um chá. Não é bem um remédio, mas vai te ajudar a relaxar. — Eu sorri e ela também. — Obrigada mais uma vez. Me encostei no balcão, do outro lado. Eu olhava pra ela e ela suspirou. — Quer conversar? — Eu já falei muito sobre mim... Mas não sei nada sobre você. — Eu cruzei os braços e olhei para baixo. — Bom, eu sou médico. — Ela riu. — Eu já sei disso. Me fala algo que não sei. — Tenho vinte e cinco anos. — Ela ergueu as sobrancelhas, como se tivesse ficado impressionada pela informação inútil que dei. — Uau! Que coisa mais profunda. — Riu mais uma vez. — Quem é você, Gringo? De onde você é? Me conta... Tem muita gente encantada por você, eu quero saber o motivo. — Eu não sei. Talvez eu seja um bom médico. — Não é só isso. — Bom... Eu sou argentino. Estudei alguns bons anos para poder trabalhar lá e aqui. Eu já pensava em vir pro Brasil muito antes de... Bom, de vir. — Eu pensava em vir pro Brasil ser médico aqui. Eles precisam. Por isso fiz o complemento há muito tempo. — Eu tenho uma mãe trabalhadora, maravilhosa. Meu pai morreu... E eu estou aqui. É isso. — Como seu pai morreu? — Foi assassinado. — Ela colocou a mão na boca, em surpresa. — Me desculpa. Não vamos falar disso, desculpa mesmo. — Não... Tá tudo bem. Faz mais de um ano. — Eu sinto muito, Gringo. Entreguei o chá para ela. Ela tirou o gelo do olho e começou a tomar. — Vai ficar tudo bem. Comigo e com você. — É, acho que sim. — Ela suspirou. — Eu queria pedir uma coisa... — Pode falar. — Se incomoda se eu dormir na sua casa hoje? Eu não tô me sentindo segura em lugar nenhum, e bom... Aqui... — Pode dormir. Eu deixo você ficar no meu quarto e durmo aqui embaixo. — Não! — Protestou, largando a xícara. — Eu não vou conseguir dormir. Eu tô com medo, Gringo. — E você quer que eu faça o que, Marcela? Quer que eu durma no chão? — Falei rindo. — Tipo isso. Eu não ligo de dividir a cama com você. — Ergui as sobrancelhas. — Se alguém invadir aqui e ver você na minha cama, eu tô morto. — Sinceramente, se eu deitar na mesma cama que essa mulher, não vou me controlar. — Não vão invadir. Ninguém sabe aonde eu estou. — Suspirei. — Fazemos por sua conta e risco. — Ela suspirou aliviada. Eu não sei porque Marcela se sente segura ao meu lado, mas eu gosto disso. Não devia, mas gosto.
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