O Cheiro do Meu Próprio Funeral
POV: ISOBEL
O ar aqui em cima tem cheiro de pólvora, asfalto quente e medo. Para a maioria das pessoas, esse é apenas o som do Complexo da Penha em uma tarde de sol de quinta-feira, mas para mim, cheira ao meu próprio funeral.
Enquanto subo a ladeira, o som de um funk proibidão ecoa de alguma caixa de som distante, misturando-se ao barulho das motos que cortam as ruelas. Nas esquinas, vejo os crias da favela, rapazes jovens com fuzis cruzados no peito e rádios comunicadores na cintura, me seguindo com olhares pesados. Eles estão em atividade, vigiando qualquer alma que ousa pisar no domínio do Carrasco sem ser convidada.
Eu nunca pensei que subiria o morro por vontade própria. Mas quando os cobradores de dívidas invadiram nossa casa nesta manhã, eles riram enquanto chutavam o cilindro de oxigênio do meu irmão.
O som do bip do monitor cardíaco dele falhando foi o gatilho que me trouxe até aqui. Eu sou enfermeira formada, estudei justamente para cuidar dele, para garantir que a síndrome neurológica que o mantém em suporte de vida não o levasse de mim. Olho para as minhas mãos e vejo que elas ainda estão tremendo, apesar de todo o meu treinamento técnico e da experiência que acumulei no último ano de profissão.
Meu pai é um fantasma que assombra cassinos clandestinos e bancas de bicho, e eu sou quem carrega o peso de cada erro que ele comete.
Apertei a alça da minha bolsa de couro contra o corpo, sentindo o tecido do meu vestido leve de verão marcar minhas curvas. Eu sou uma mulher plus size, com pernas grossas que agora parecem feitas de chumbo, e s***s fartos que atraem olhares indesejados por onde passo.
Minha pele é extremamente branca, salpicada por uma constelação de sardinhas que cobrem meus ombros e o topo do meu nariz, denunciando minha ascendência ruiva. Meu cabelo acobreado, que vai até o meio das costas em ondas pesadas, parece fogo sob o sol forte do Rio.
Cheguei ao Casarão, o QG onde o Barão opera. É uma construção imponente e rústica, onde o cheiro de cigarro barato se mistura ao narguilé. Aqui dentro, o som das máquinas de caça-níquel preenche o silêncio tenso.
É o lugar onde dizem que o tribunal do tráfico resolve as pendências. Só de imaginar um bisturi sujo extraindo um rim meu para ser negociado em algum leilão, meu estômago revira.
— Respira, Isobel... respira. Você consegue — digo baixinho, um mantra para impedir que o medo me derrube.
Eu estava esperando a resposta do Barão, o bicheiro que manda nas dívidas e nos puteiros da área. Ele voltou da sala dos fundos e se sentou na cadeira à minha frente de forma relaxada.
Ele é um homem gordo, com o pescoço sumindo entre os ombros largos e mãos calejadas de quem já fez muita força na vida. Seus olhos castanhos escuros estão vidrados em mim, percorrendo meu corpo com uma lascívia que me faz querer tomar um banho de álcool.
— Sem desenrolo, ruiva. Ou você paga a dívida de 30 mil do seu velho, ou ele vira saudade até domingo — ele sentenciou, batendo a mão gorda na mesa de madeira.
— Se vocês o matarem, nunca vão receber o dinheiro — argumentei, a voz falhando enquanto meus olhos verdes buscam algum pingo de humanidade naquele rosto bruto.
O Barão soltou uma risada seca.
— Às vezes, o lucro de vender as peças de um homem por aí vale muito mais do que o dinheiro vivo, boneca. — Ele se levantou, rodeando a mesa como um predador. — Você tem até o fim de semana. Se o dinheiro não cair na conta até domingo, seu pai já era.
— Eu vou trabalhar mais! Sou formada, vou dobrar plantão no hospital, dou meus pulos e pago cada centavo... mas vocês têm que barrar ele! O velho é viciado, é doente! — Implorei, sentindo as lágrimas arderem.
Senti um calafrio quando ele parou atrás de mim. A mão dele, pesada e áspera, apertou meu pescoço, me travando enquanto ele chegava o rosto perto do meu.
— Ou... — ele sussurrou, estalando a língua de um jeito nojento. — Pega a visão, que eu só vou falar uma vez.
— O quê? — perguntei, com o coração na boca.
— Você é jeitosa. Aposto que tem um corpo nota dez e que os pelos da sua b****a lá embaixo são da cor desse cabelo, não é?
Engoli em seco. O silêncio é minha única defesa contra o asco que sinto. Ele riu do meu desconforto e passou a mão calejada pelo meu braço, sentindo a textura da minha pele.
— Veio negociar, não veio? Então tenho uma contraproposta. É pegar ou largar. Trabalha pra gente no lupanar por seis meses e a dívida do seu pai morre. Ninguém vai pro micro-ondas.
— Não! Nunca! — respondi, tentando me afastar, mas ele me enforcou com uma mão só, me obrigando a encarar seus olhos viciados.
Com a outra mão, ele subiu lentamente pelas minhas costas, sentindo a largura do meu quadril, passou pelo meu ombro e desceu até apertar meu peito direito com tanta força que soltei um grito de dor.
— E aí? Fechou o trato? Posso até ser o seu primeiro cliente. Vou te pagar bem e você ainda vai gostar. Ninguém nunca vai te f***r como eu.
Meus olhos se encheram de lágrimas e bati na mão dele, tentando me libertar do seu toque imundo.
— Não!
— Qual foi? Todas as outras aceitam de boa, é só sexo. Se encarar mais de um por vez, ganha o triplo. Você é ruiva, pô, todo homem sonha em comer uma ruiva de verdade.
— Não... eu sou... eu sou virgem — confessei, rezando para que aquela pureza técnica que eu ainda mantinha servisse de escudo. — Eu vou dar um jeito, volto com uma parte do dinheiro no fim de semana.
Mas o sorriso dele se tornou macabro.
— Caô! Melhor ainda! Uma ruivinha virgem... que relíquia. — Ele olhou para os capangas armados na entrada. — Vamos fazer um bolão da sua virgindade. Quem der mais, leva. Numa noite só você quita a dívida de 30 mil e garante que o aparelho do seu irmão continue ligado. E aí, enfermeira? É pegar ou largar?
— Não — foi a única coisa que consegui botar para fora, enquanto o cheiro de suor dele e de fumaça de narguilé me sufoca.
Eu sou a Isobel Alencastro, uma enfermeira de 22 anos que deveria estar em um hospital particular cuidando de vidas, mas agora sou apenas uma moeda de troca no meio de um mercado de carne. O som dos bips e o cheiro de desinfetante eram meu porto seguro, mas aqui, nesse ar saturado de violência, eu percebi que o meu funeral já começou.