CAPÍTULO 2

1052 Words
S C O T T Aprovado. Era isso que aquele papel colocado na parede da Universidade dizia, ao lado do meu nome. Aprovado. Eu havia sido aprovado em administração. E isso só podia significar três coisas. Primeira: estou formado, posso então arrumar um emprego “digno” que meu curso oferece, e ajudar meus pais. Segundo: tô no olho da rua. Se estou aprovado significa que terei menos de uma semana para sair do dormitório da Universidade. Ou seja, estou, literalmente, morando no olho da rua. Terceira: terei que pintar meu cabelo. Resumindo tudo: ficarei louco. Sair do interior para prestar vestibular na República foi a pior e melhor coisa que eu poderia ter feito. Foi bom, porque me especializei na melhor faculdade do país, e foi r**m porque fiquei longe dos meus pais. Aí você me pergunta: agora que finalizou o curso, vai voltar para Ashes? E eu lhe respondo: tá doido?! Passei os últimos anos da minha vida vivendo na capital, estudando, trabalhando e convivendo com pessoas da capital. Foi difícil mas me acostumei com isso, com essa agitação toda. Então, por enquanto, tentarei a vida aqui, caso der errado, volto para Ashes e finjo o que nada aconteceu. Me acostumar com a capital não quer dizer que esqueci dos meus pais, a saudade ainda estar aqui e vai continuar, mas do mesmo jeito que me acostumei com a capital, também me acostumei com a saudade. Ela dói, mas não mata. Após me despedir da Universidade, fui embora com um sorriso no rosto, nem quis fazer a festa de formatura. Fui aquela pessoa que diz amar a escola, mas na primeira oportunidade vai embora sem ressentimento e ainda diz que fará macumba para a escola cair. (N/a: não julgo e nem quero julgar a religião de ninguém ok? Levem na ironia por favor.) Quando cheguei no portão daquela instituição vi meu amigo, melhor amigo e único amigo que tenho, me esperando enquanto lia algo em uma folha que estava em sua mão. — Ei... — anunciei minha chegada. — Passou? — Claro! — Revirou os olhos. — Não sou tão burro quanto você, passo de primeira. — Gabou-se. — Também passei de pri-primeira seu... galinha. — Retruquei. Tá legal, eu sei que sou r**m com xingamentos, mas o que posso fazer? É meu jeitinho... — Tem razão... — concordou depois de um tempo em silêncio. — Bom... isso significa que vamos comemorar... Gritou pondo os braços para cima e rodopiando no lugar. Os estudantes que passavam, apenas riam do meu amigo. Ele era assim, por onde passava, levava alegria consigo. Não existia ninguém naquela instituição que não gostasse dele. — Não irei be-beber de novo Noh... — deixei bem claro. Sua alegria caiu, me olhando com um biquinho nos lábios levemente carnudos. — Não venha com esse beicinho aqui, sim? Não vo-vou beber de novo, nunca mais! — Por quê? Tá com medo de querer me beijar de novo? — Sugestivo, ele veio se esgueirando pro meu lado. Preciso dizer que fiquei com vergonha? Céus! Sentia minhas bochechas pegarem fogo. Misericórdia. — N-não, só não quero mais beber. — Tento mentir, mas fico nervoso, talvez seja por isso que não consigo mentir para ninguém, sempre tento, mas a pessoa sempre descobre. Noah diz várias coisas: você gagueja mais do que o normal; não olha nos meus olhos; suas mãos ficam inquietas; ah!, Scott, pelo amor do santo deus, de longe percebe-se que você não sabe mentir!. Era isso que ele sempre me dizia quando eu lhe perguntava como ele sabia que eu estava mentindo. Talvez mentir não seja meu ponto forte. — Aaaa que isso, vamos, será legal — choramingou manhoso tentando me abraçar, corri para longe de seus braços. — Só um pouquinho? — Mostrou seu polegar e o indicador quase junto, mostrando o pouquinho. — Não. — Por favor? — Não. — Um golinho? — Não! — O olhei sério. — Não vou beber Noh, preciso me organizar, só tenho cinco dias pra arrumar um lugar pra morar e um trabalho. Não posso ficar cu-curtindo a vida. — Tudo bem — forçou uma cara triste. Como pode, eu, um cara legal, gente boa, arrumar amigos assim? Dramáticos. Misericórdia. — Vamos fazer assim, você me ajuda a encaixotar minhas coisas e aproveita pra beber, assim t-todo mundo ganha. — Propus tentando enganar meu amigo. — Vai encaixotar as coisas agora? Você nem arrumou um lugar pra ficar. — Indignou-se. — Assim já deixo alguns pertences arrumados, pra não ficar muita coisa acumulada né? — Tentei enganar de novo. — Não sei porquê, mas me sinto levemente enganado — olhou-me de perto, talvez procurando alguma mentira, seus olhos pareciam aqueles detectores de metal dos aeroportos. — O quê? — indaguei indignado. — Como pode pensar um negócio desses lo-logo de mim? Seu melhor amigo e fiel escudeiro? Sinto-me magoado. — Levei minha mão ao meu peito fingindo indignação. Boatos que a Globo chora até hoje por eu recusar o contrato. Na realidade, eu não queria beber perto dele porquê da última vez as coisas saíram do meu controle. Já estava um pouco bêbado quando me deu vontade de beija-lo, e beijei. Mas isso não afetou nossa amizade, isso afetou minha heterossexualidade. Noah foi o único amigo gay que convivi, não por preconceito mas sim porque minha adolescência foi em casa estudando para ter um futuro digno, não gastava meu tempo saindo para beber com amigos, até porque eu não tinha amigos. Vivi minha vida sem amigos, esse cargo que era ocupado apenas pelo meu irmão, apenas. Conheci Noah quando vim para capital, ele era meu amigo de quarto. E assim começou nossa amizade. Não tive problema algum por ele ser gay, ou seja lá o que ele for. Mas o problema começo dentro de mim quando eu o beijei e gostei. E isso não poderia acontecer, nunca. Considero Noah como meu irmão, nunca o olhei com outros olhos e tenho certeza que ele também não. Mas não posso negar que beijar ele me fez querer experimentar de novo, com outro homem claro. Misericórdia, preciso de mulher. — E então? Vai me aju-udar a arrumar minhas coisas e vai beber sozinho? — Perguntei quando sentamos no banco do ônibus. — Nunca, arrume sozinho! [...] — Até a próxima ♡
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