[...]
— Caixa pesada do c*****o Scott, tem pedra aqui? Porra...
— Não fale essas palavras feias aqui.
— Ah vai pra p***a vai Scott Santinho Antonelli. Se fuder!
Ignorante como sempre é quando está estressado, meu amigo joga a primeira caixa em cima da minha cama, depois caindo nela e respirando fundo, quase sem ar. Esse é o melhor ator que eu já vi em toda a minha vida.
Talvez seja por isso que ele fez curso de teatro.
— Tome... — levei um copinho de Soju para ele, ver se assim ele se alegra pra gente terminar logo. — Beba, esquentará seu corpo.
Não tínhamos feito quase nada, apenas encaixotamos meus livros em caixas médias. Tinha livro de tudo, tipo tudo mesmo. Fazer o que se eu gosto de ler e ser inteligente?
Ainda faltava muita coisa, tipo encaixotar minhas roupas, tênis, decorações... se ele estava morrendo apenas pelos livros, imagina quando terminar tudo.
O resultado da faculdade havia saído hoje, segunda-feira, e eu tinha até sábado de manhã para entregar o dormitório. Eu já sabia que precisava me organizar antes e não ficar tudo em cima da hora. Por isso juntei dinheiro suficiente durante meu curso todo para não passar fome até arrumar um emprego, e também para alugar alguma casa pra morar.
Quero arrumar minhas coisas antes de ter um estabelecimento para morar, pois, economiza tempo e eu não preciso fazer tudo em cima da hora. E também, o site confiável para alugar casas está com lembretes para qualquer casa ou apartamento anunciados seja notificado para mim, assim não perco as melhores opções.
Passei meu curso todo me organizando para esse momento, não posso deixar nada dá errado. Preciso trabalhar e preciso de uma casa pra morar, senão terei que voltar para Ashes, e isso eu não quero por agora.
— Sabe que pode morar no meu apartamento não sabe?
Ele perguntou assim que terminou de beber a líquido transparente que eu havia lhe dado.
— Sei sim, Noh, obrigado... — agradeci sorrindo. — Quero arrumar um lugar por mim mesmo, sabe? Quero também um estabelecimento que seja próximo do ce-centro, assim quando eu arrumar um emprego não irei gastar dinheiro com transporte, e também seu apartamento é pe-pequeno para nós dois.
— Tudo bem, se precisar sabe que pode contar comigo.
— Sei sim, obrigado de novo...
Noah foi meu companheiro de quarto durante anos, foi meu único amigo, o único que estava no meu lado quando eu ficava nervoso com alguma apresentação da faculdade. Ele é o meu irmão.
Mas agora chegou o dia em que eu preciso agir por conta própria, sem ter ninguém me dizendo o que fazer ou dizendo que é errado, preciso aprender a me virar.
Noah havia alugado um pequeno apartamento na semana passada, já estava morando lá e tudo, passou a semana toda me enchendo para morar com ele, mas eu não queria. Não podia. Precisava me virar sozinho. Queria me virar sozinho.
O que é, de fato, um pouco irônico já que eu quero compartilhar uma casa ou apartamento com alguém totalmente desconhecido. Mas na minha cabeça é melhor assim, pois eu me viro sem ajuda de alguém que me conhece.
— Tudo bem... — ele levantou-se mais alegre, pulando para ter coragem. — Vamos terminar essa bagunça toda aqui que hoje eu quero beber até desmaiar.
Negando e sorrindo pequeno dele, pus as mãos na massa, ou melhor, nas roupas. Arrumamos as caixas com livros no lado que ele dormia, pois, já estava vazio, depois encaixotamos minhas roupas e tênis, deixando apenas alguns pares para eu poder usar ao decorrer da semana, encaixotamos todas os meus pôsteres das bandas e grupos que gosto e toda a minha decoração.
Deixando apenas minha cama quase sem vida, as paredes brancas sem nada de decoração e no mínimo, dez caixas de papelão espalhadas pelo quarto. Enfim... estava tudo pronto, agora era só arrumar um lugar para morar, um emprego para trabalhar e viver minha vida na República até onde der.
No fim de tudo, Noah já estava animadinho e sorrindo até para as paredes. Acabei tomando alguns golinhos da bebida alcoólica também, mas não muito para ocorrer de ficar bêbado, não podia dá outro deslize.
Caímos com tudo na cama, rindo das palhaçadas que meu amigo fazia quando estava bêbado. Ele realmente incorporava o palhaço quando estava com excesso de álcool no corpo.
Rimos alto até paramos e ficarmos olhando para o teto branco e sem vida daquele quarto de dormitório. Mesmo sempre querendo terminar meu curso logo, arrumar um emprego e ajudar meus pais, ainda assim sentiria falta daquilo. Da faculdade, do dormitório, da tia da cantina, de dormir tarde e acordar cedo porque tive que cuidar de Noah quando ele chegava bêbado no quarto. Tudo. Sentirei falta de tudo.
Mas meu tempo havia acabado e começado na mesma proporção. Agora eu era um “homem”, estava com uma idade boa, estava formado, com uma mente boa e com sonhos para o futuro. Então, mesmo com saudade e medo, eu precisava erguer minha cabeça e buscar o melhor para meus pais, para meu pai...
Do mesmo jeito que ele cuidou de mim, agora era minha vez de cuidar dele, na mesma proporção. Com o mesmo amor, cuidado e respeito. E por meus pais, eu faria de tudo. Tudo.
— Tô cansado.
— Eu me sinto tão... bêbado... — murmurou com a voz embolada.
Sorrindo irônico daquela cara passada dele, me sentei na cama e peguei meu celular afim de ligar para minha mãe, mesmo sendo quase de madrugada eu sabia que ela ainda estava acordada. Principalmente hoje que ela sabia que eu iria pegar meu resultado na faculdade.
No terceiro toque eu ouvi sua voz fina, e um tanto cansada soar pelo microfone do celular.
— Oh Scott... pensei que não ia me ligar hoje meu filho.
— Desculpa mãe, tava en-encaixotando minhas coisas.
— Entendo meu filho, já arrumou um lugar pra ficar? — Sempre preocupada.
— Ainda não mãe, mas tô procurando já, já aparece um lu-lugar legal para mim.
Noah levantou-se todo grogue de bebida e foi no outro lado do quarto, tomar um pouco de água. Depois ele pegou mais um pouco da bebida alcoólica e tomou, logo chupando limão com sal. O nível de bebida que aquele corpo aguenta eu nunca entenderei.
— Tem certeza que não quer voltar pra Ashes, Scott? — Falava com calma, talvez com medo da minha reação.
— Ainda não mãe, já conversamos sobre isso.
— Tudo bem.
Passamos alguns segundos sem falar nada, apenas ouvindo sua respiração, Noah mexendo nos copos de vidro e o barulho da televisão do outro lado da linha do celular.
— Como... c-omo meu pai tá?
Ela suspirou: — Dá última vez que fui vê-lo, ele estava melhor, perguntou por você e disse que era para ir visita-lo. Ele tá com saudades de você.
— Também tô com saudades dele.
— Quando vem visitar ele, nós?
— Ainda não sei mãe, vou me focar em arrumar um emprego p-pra ajudar vocês, quando eu já estiver estabilizado aqui na República vou visitar vocês, tudo bem?
— Tudo bem meu príncipe. Mas diga pra sua mãe, sim? Passou na faculdade?
— S-sim. — Sorrir orgulhoso de mim mesmo, e saber que minha família estava orgulhosa, fazia meu orgulho próprio ir nas alturas.
— Sabia que meu príncipe ia passar, meus filhos são muito inteligentes. Tô orgulhosa de você príncipe. Mas não esqueça de lutar por aquilo que você quer, não faça isso por nós, tudo bem?
— Faço isso por mim mãe, não se pre-preocupe. — Menti, mas ela não precisava saber disso, só precisava ficar bem e feliz.
Se eles estivessem felizes, eu também estaria. Meus sonhos não eram uma prioridade por agora.
— Dy tá por aí?
— Ah não príncipe, agora que ele começou a namorar aquele menino lá que eu sempre esqueço o nome, ele não para mais em casa.
— Eddie mãe, o nome dele é-é Eddie...
Bom... meu irmão namorava um garoto que era seu colega na empresa em que ele trabalhava. Meu irmão era mais velho, muito mais velho que eu, ele já estava chegando nos 30, e sempre, desde quando eu o conheço — ou seja, minha vida toda — ele era gay.
Minha família não ligava muito para isso, eles eram conservadores, mas nunca vi eles maltratarem meu irmão por conta disso, apenas minha mãe que não gostava muito dos seus ficantes. Tudo para ela é que, os namorados do meu irmão são ruins para o filho dela. Mas eu a entendo, mãe sempre quer o bem dos filhos, e com minha mãe não seria diferente, por isso ela sempre ficava com um pé atrás com os namorados dele.
Eddie ela até que gostava, mas sempre esquecia o nome dele e ficava com raiva quando meu irmão não ficava muito em casa por conta dele, ciúmes de mãe.
Dylan mesmo já sendo formado e com um emprego um tanto bom, não saiu de casa, principalmente devido à minha mãe depois que meu pai precisou sair de casa, então ele quem cuida dela e da casa. Até agora, já que eu começarei a mandar dinheiro para eles viverem melhor.
Meu pai, bom... meu pai já é um pouco complicado em relação ao seu filho mais velho ser homossexual, no começo ele não falava nada, o abraçou e disse que continuava o amando do mesmo jeito. Disse que ele com um homem ou mulher, continuaria sendo seu filho mais velho e isso não iria mudar.
Mas a uns anos atrás houve um negócio que mexeu muito com a cabeça do meu pai, acho que mexeu com a cabeça de todos dá minha família, por isso, ele repudia qualquer namorado do meu irmão.
Mas infelizmente eu não posso julgar meu pai por isso, ele tem seus motivos, e sei que mesmo Dylan sofrendo por nosso pai não o apoiar com seus namorados, ele também entende o velho.
Não podemos julgar.
— É isso mesmo, Eddie, ele saiu com o namorado, parece que foram em uma festa, não entendi direito.
— Tudo bem. Po-pode dizer a ele que mandei um abraço e tô com saudades?
— Claro que posso príncipe. Vou desligar agora tá bom? Se cuide, não arrume problema e quando arrumar um emprego faça tudo direitinho tá bem? Te amo.
— Tá bom mãe. Te amo.
Tendo o celular desligado e o olhar do meu amigo em cima de mim, me joguei na cama de novo e fechei meus olhos.
Só agora que a ficha de sair da faculdade caiu em cima de mim. Finalmente. Finalmente não precisarei mais acordar cedo e dormir tarde e não ganhar — dinheiro — com isso.
Agora sim terei a independência que eu tanto almejei e sonhei.
— Está feliz?
O lado livre da cama foi prensado, mostrando que Noah havia se deitado lá. Ele estava tão bêbado que eu sentia cheiro de álcool por toda sua roupa.
— Tô feliz. — Respondi sorrindo mínimo.
Tô feliz. Sim, tô feliz.
Dois segundos foi o que o ambiente ficou em silêncio antes do meu celular soltar o toque de notificação. Dois segundos foi o tempo em que ignorei a notificação, isso até lembrar que aquele toque coloquei justamente para as notificações do site.
O site para compartilhar casas e apartamentos.
Me levantei tão rápido que sentir minha cabeça girar em 360° graus. Noah se assustou tanto que caiu da cama. Medroso como é.
— c*****o JK, tu tá doido homi? Se fuder.
Eu nem ligava para ele, minha atenção estava toda no celular nas minhas mãos trêmulas. Fazia uma semana que eu estava cadastrando naquele site e até hoje eu não havia encontrado nada que me interessasse.
— O que foi hein?!
Senti sua aproximação enquanto eu esperava o site abrir, segundos depois ele estava com o lado do corpo encostado no meu, olhando para o meu celular.
— Alguém acabou de-de-de anunciar algum cômodo pra alugar, quero vê logo. — Se eu já era um pouquinho gaguinho, pelo nervoso do site que não abria eu já quase nem entendia minha própria fala.
— Calma piolho... aí ó, abriu.
Corri a página por todo o anunciado. Aquilo só podia ser brincadeira. Era um apartamento no centro, como eu sempre quis, o preço estava a metade do custo que realmente era para ser.
Só podia ser brincadeira.
Era tipo; o apartamento dos meus sonhos.
Não tinha fotos do cômodo, claro, mas quando o apartamento é no centro, com certeza não deve ser r**m, e o preço é melhor ainda. Quem aluga um estabelecimento por aquele preço merece até um beijo na b***a.
Que dizer... na testa.
Misericórdia...
— Aí zé mané, vai mandar mensagem não é? Vai esperar ele já ter alugado. Mas é um filho de urubu mesmo. — Eu escutava ele falar, mas ao menos tempo não entendia, meus olhos estavam arregalados pro site. — Aish, me dá isso aqui vai.
Demorei três segundos pra entender que meu celular não estava mais na minha mão, mas sim, nas mãos de Noah, meu amigo... bêbado.
— NOAH PELO AMOR DE DEUS... — foi isso que gritei pro bêbado que olhava meu celular com os olhos vesgo e teclava nas teclas rapidamente. — Não faça isso, venha aqui Noh... Tô sentindo minha pressão cair...
E quando vi, eu estava correndo atrás do meu amigo bêbado que tinha mais instabilidade que eu naquele momento, enquanto ele pulava na cama de um lado pro outro tentando fugir das minhas mãos.
Meu deus... meu deus... meu deus!
— Irmão, por favor... — tentei intervir aquilo pelo lado emocional, mas não rolou, ele continuou teclado tão rápido que eu desconhecia aquela agilidade.
Mesmo eu chamando ele de irmão, ele não me entregou o celular. Ele sempre reclamava que eu não o chamava assim, e quando chamei ele não deu a mínima.
Ingrato.
— Aqui, seu irmão fez todo o trabalho, pode ficar de boa.
Quando eu vi o que ele tinha feito, eu senti minha alma saindo do corpo, vagando o mundo todo, na velocidade da luz, e voltar pro quarto.
— Noah... — respirei fundo para não cometer um assassinato. — EU VOU TE MATARRRR....
Não aguentei, foi mais forte que eu, ele acabou com minhas chances de alugar um apartamento maravilhoso, fazendo eu me passar por um analfabeto. Só pode ser brincadeira. Passei uma semana esperando um apartamento legalzinho para eu morar, aí ele vai e responde com uma língua que nem os anjos de Deus saberiam ler. Que vergonha.
Em menos de segundos eu estava em cima dele, rolando na cama tentado ver quem conseguia ter mais forças pra ganhar aquela briga inútil.
— Você acabou com as minhas chances...
— Calma aí piolho, senão eu vomitar por tua culpa, na tua cara!
— Aaaaaaa que raiva Noh.
— O que foi que eu fiz? — Franziu o cenho.
— Você escreveu tudo errado... — choraminguei. Eu só queria uma casa pra morar.
— Então por que não tá consertando minha escritura maravilhosa em vez de tá aqui tentando me fazer vomitar...?
Ele perguntou, pensei, realmente eu não fazia ideia do que estava fazendo da minha vida. Meu deus eu tô ficando doido.
Empurrei seu corpo pro outro lado da cama, levantei e peguei meu celular, pedindo desculpa a mulher que vi se chamar Lina Bennett. Que ela já não tenha alugado, que ela já não tenha alugado.
Escrevi rápido, mas me certificando que não sairá errado e suspirei quando a mensagem foi enviada. Se eu não conseguir esse apartamento por conta de Noah, expulsarei ele do seu estabelecimento e pegarei ele para mim.
Esperei uns 10 minutos uma resposta, mas ela não veio, e minha mente como nem gosta de me sabotar, chegou a conclusão de que ela já havia alugado e eu ficarei aqui, mofando e esperando outro aparecer.
Me joguei na cama de novo, cansado. Estava tão cansado do dia que eu juro que se eu dormisse agora só me acordaria com três dias. Juro.
— Desculpa piolho...
Escutei meu amigo murmurar e logo em seguida ele estava apregado em meu corpo, abraçando minha cintura e com a cabeça, que com certeza está rodando, no meu b***o. Se aconchegando em mim.
— Não tem problema.
— Tem sim, qualquer coisa você vem morar comigo, tudo bem?
— Unhum...
Minha cabeça doía, meu corpo doía, minha mente doía... Estava acabado. Quando escutei meu amigo começar a ronronar, relaxei meu corpo e tentei descansar. O que não demorou muito, pois logo eu estava dormindo.
[...]
Acordei e não recomendo.
Principalmente se você estiver de ressaca.
Minha cabeça parecia que ia explodir e eu não sentia meu braço. Ainda de olhos fechados tentei encontrar o motivo da minha dormência momentânea e acabei tocando em uma cabeleira. Só agora me tocando ser o Noah que estava deitando em cima dele.
Respirando fundo e pedindo arrego aos deuses, me desviei do corpo adormecido ao meu lado e corri pro banheiro, vomitar. Vomitei tanto que quase sentir meu coração chegar na garganta. A pressão era tanto que eu sentir a morte de perto.
Eu nem bebi muito.
Depois daquele estrago, fiz minha limpeza matinal, tomei um banho com água gelada e em seguida tomei uma aspirina. Nunca mais eu bebo.
Misericórdia.
Quando voltei pro quarto, meu amigo estava sentado na cama, os cabelos espantados e o rosto amassado e inchado. Parecia tentar se situar de onde estava.
— Tá tudo bem piolho? Escutei o barulho do banheiro.
— Tô bem.
Andei até o guarda-roupa que ainda comportava algumas peças de roupas e vestir apenas uma boxer e umas calças moletom. Pretendia passar o dia todo vegetando na cama.
— Que horas são?
Ele perguntou. Rodei o quarto com os olhos a procura do meu celular, achando ele quase embaixo da cama, deve ter caído. Peguei para olhar as horas e já se passava das 14. Pelo menos dormir muito.
Mas o que realmente me chamou atenção não foi a hora, e sim a última notificação, bem lá no finalzinho, com a resposta que eu tanto queria e almejava.
lina.bennett8:
|Olá. Preciso fazer uma viagem agora e só volto daqui à 3 dias.
|Vou te mandar meu endereço e você pode vir amanhã, minha governanta te apresenta o apartamento, que tal?
|Caso se interesse ela vai resolver tudo contigo. Tenha um bom dia!
10:56a.m.
— Irmão...