Capitulo 4 apresentação Golias

2234 Words
Papo de visão, se liga no meu proceder. Eu sou o Gabriel Rocha, mas se tu preza pela tua vida, me chama pelo vulgo que faz n**o tremer até a alma no estado todo: Golias. Eu não sou apenas o dono do Complexo da Muralha, eu sou a p***a do sistema nervoso dessa favela. Nada se move aqui sem o meu aval. Nada respira sem eu sentir o ar passando. Eu comando esse império de concreto e ferro com tecnologia de ponta e um fuzil na mão, monitorando cada beco e cada ruela através da minha rede de câmeras. Eu sou o gigante que nunca dorme e que vê até o que as sombras tentam esconder. Olha bem pra esse shape blindado e pras marcas no meu corpo. Cada tatuagem é um capítulo de guerra, e cada cicatriz é um lembrete de que eu sou indestrutível. Eu não tenho coração, tenho uma pedra de gelo no lugar porque o amor foi uma fraqueza que eu enterrei junto com os traidores que ousaram talaricar o meu nome. Aqui na Muralha, a lei é a minha vontade e a sentença é o aço. Eu sou frio, calculista e não conheço a palavra piedade. Se tu tá na minha mira, já era. Eu não brinco de ser brabo, eu sou a própria tempestade que limpa o que é podre. Papo de visão, tu quer saber do dia que o Gabriel morreu e o Golias tomou o lugar de vez? Então encosta, mas segura o estômago, porque o que eu fiz naquela noite não é pra qualquer um. O bagulho foi sinistro, sem massagem. O DIA EM QUE O GELO TOMOU O LUGAR DO SANGUE Eu tava voltando de uma missão na Baixada, bagulho de carga pesada, fuzil novo chegando pra reforçar a contenção da Muralha. Eu tava cansado, a mente a mil, mas o que me mantinha firme era o pensamento de chegar em casa e encontrar a Monalisa. Naquela época, eu ainda era o****o. Eu achava que o amor era um porto seguro, saca? m*l sabia eu que tava alimentando uma cobra no meu próprio lençol. Cheguei na minha fortaleza por volta das três da manhã. O morro tava naquele silêncio tenso, só o som dos rádios dos vapores na atividade. Subi pro meu quarto no sapatinho, queria fazer uma surpresa pra fiel. Mas a surpresa quem levou fui eu, e foi a pior da minha vida. Quando eu encostei a mão na maçaneta, ouvi um risinho. Uma risada que eu conhecia bem, mas que não era pra mim. E logo em seguida, a voz de um cara. Não era qualquer cara. Era o Tico. Meu primo, meu sangue, o moleque que eu tirei da lama e dei a chave da minha confiança. Eu parei. O ar fugiu do meu pulmão por um segundo e o mundo ficou mudo. Abri a porta devagar, sem fazer barulho. O que eu vi ali, na minha cama, no santuário que eu paguei com sangue e suor, foi o fim de tudo. Os dois tavam lá, enrolados no meu lençol de fios egípcios, rindo da minha cara. — O Gabriel é muito o****o, Tico — a Monalisa falou, passando a mão no rosto dele. — Ele acha que manda em tudo, mas não manda nem na própria mulher. Ele tá lá embaixo contando bala e a gente tá aqui aproveitando o luxo dele. — Logo menos a Muralha vai ter um dono de verdade, pretinha — o Tico respondeu, com aquela voz de talarico imundo. — O Gabriel tá ficando mole, tá pensando muito em paz. Paz não dá dinheiro, o que dá dinheiro é o caos. Naquele momento, algo dentro de mim quebrou. Não foi uma dor de chifre, foi o estalo de uma engrenagem parando pra nunca mais voltar. O calor do meu corpo sumiu. Eu virei gelo. Saquei a minha Glock e chutei a porta com o coturno de uma vez. O estrondo foi como um trovão. O Tico saltou da cama, tropeçando nas próprias pernas, com a cara pálida de quem já sentiu o bafo da morte. A Monalisa deu um grito que quase rachou o teto, tentando se cobrir. — Gabriel! Não é o que você tá pensando! — ela começou a latir. — Não é o que eu tô pensando, Monalisa? Então o meu primo caiu de maduro dentro de você? O Tico tentou alcançar a peça dele. Eu não pensei duas vezes. O primeiro disparo foi no ombro dele. BUM. O sangue espirrou no meu papel de parede importado. — Tu foi talarico com o cara que te deu tudo, Tico? Te dei fuzil, te dei nome, te dei vida. E tu retribuiu me cravando a faca nas costas? Apontei pro joelho dele e apertei o gatilho de novo. BUM. Ele urrou de dor, um som de animal sendo sacrificado. Me virei pra Monalisa. Ela tava num canto da cama, encolhida, soluçando. — E você, minha rainha? — Apontei a arma pro rosto dela. — Gostou de brincar de ser dona da Muralha pelas minhas costas? Encostei o cano quente da Glock na testa dela. Ela fechou os olhos, tremendo como uma folha. — Olha pra mim — eu ordenei. Ela viu o fim dela. — Tu disse que eu era o****o? O o****o morreu agora. Só sobrou o carrasco. Dei um tiro na barriga dela, só pra ela sentir o fogo queimando por dentro. O Tico tentava rastejar até ela, mesmo com o joelho estraçalhado. — Fica aí, talarico. Tu vai ver a tua amante ir primeiro. Fiquei ali, parado, vendo os dois agonizarem. Quando vi que a luz tava sumindo dos olhos dela, sussurrei no ouvido dela: — No meu morro, traição se paga com a vida. BUM. Fim de papo pra Monalisa. O Tico me olhou com um terror que eu nunca vi. — Gabriel... a gente é sangue... — ele balbuciou. — Sangue que apodreceu, Tico. E carne podre a gente joga pro bicho. Descarreguei o resto do pente no peito dele. Um por um. Quando a Glock travou, o silêncio foi a coisa mais f**a que eu já senti. Saí do quarto e encontrei o Tubarão no corredor. — Limpa tudo, Tubarão. Manda os restos pro micro-ondas. Não quero que sobre nem DNA desses vermes na minha casa. Quem manda nessa p***a agora é o Golias. Papo de visão, o passado é uma cicatriz que não para de coçar, mas o agora é o que mantém o meu império de pé. Saí do transe daquela memória maldita sentindo o gosto amargo do ódio, aquele mesmo que me batizou como Golias. O AGORA: O TRONO DE GELO O som do grave do baile ainda ecoava longe, um zumbido que subia o morro misturado com o cheiro de pólvora e suor. Eu tava jogado numa poltrona de couro num quartinho isolado, longe do luxo da minha casa principal. Aqui é onde eu trago o descarte, onde a carne é só carne e o sentimento não entra nem pela fresta da porta. Uma dessas vadias que se amontoam no camarote tentando uma migalha de poder tava entre as minhas pernas. Uma loira oxigenada, com o corpo todo montado no silicone e um olhar de quem achava que tinha ganhado na loteria por estar ali. Ela se esforçava, rebolava, tentava me arrancar um gemido, mas a minha mente tava em outro lugar. Ela parou o serviço, subiu o corpo e tentou colar os lábios nos meus. Um beijo. A c****a queria um beijo. Segurei o rosto dela com uma mão só, meus dedos apertando a bochecha dela até ela soltar um gemido de dor. Olhei bem no fundo daqueles olhos cheios de rímel barato. — Tu tá maluca, p***a? — Minha voz saiu como um trovão baixo, carregada de nojo. — Eu não beijo boca de quem eu não conheço. Tu tá aqui pra serviço, não pra romance. Não viaja na maionese, senão o próximo lugar que tu vai visitar é a vala. Ela tremeu, o medo estampando o rosto que antes tentava ser sedutor. — Desculpa, chefe... eu só... — ela gaguejou, tentando se afastar. — "Só" o c*****o. Pega as tuas coisas e vaza daqui. Agora! — Rosnei, apontando pra porta. — Tubarão! Tira esse lixo da minha frente! Ela não esperou a segunda ordem. Catou o vestido do chão, os sapatos na mão e saiu quase tropeçando, chorando de pavor. Eu odeio fragilidade. Odeio essa tentativa barata de i********e. Pra mim, mulher é peça de xadrez ou ferramenta de alívio. Nada mais. Me levantei da poltrona sentindo o asfalto do meu coração ficar ainda mais frio. Aquela cena patética da loira tentando me beijar só serviu pra me lembrar por que eu não deixo ninguém encostar na minha alma. Puxei a cueca, vesti a calça jeans escura e fechei o cinto com um estalo seco, o som da autoridade ecoando nas paredes descascadas daquele quartinho de descarte. Eu tava terminando de abotoar a camisa quando o Tubarão meteu o pé na porta. Ele não entrava assim se o papo não fosse reto. O bicho tava com aquela cara de quem tinha acabado de ver o circo pegar fogo. — O que foi, Tubarão? — Perguntei, sem nem olhar pra ele, catando o meu relógio de ouro em cima da mesa. — Os canas tão tentando subir a ladeira ou tu veio aqui pra pedir benção? Tubarão deu um passo pra dentro, encostou o fuzil na parede e cruzou os braços, soltando uma respiração pesada. — Nada disso, chefe. O bagulho é lá embaixo, na rua daquela garota... a Sara. Sabe de quem eu tô falando? Aquela que quer ser doutora, a que olha pra todo mundo aqui do morro como se a gente fosse bicho? Parei o que tava fazendo. O nome dela na boca dele soou como um gatilho. Sara. A mimada. A garota que desfilava pelo morro com o nariz tão empinado que eu me perguntava como ela não tropeçava nas nuvens. — Tô ligado. A arrogante que se acha diamante no meio do cascalho — respondi, minha voz saindo num tom baixo, mas carregada de uma curiosidade que eu não queria admitir. — O que que tem ela? O pai dela deu algum cansaço? — O pai dela morreu agora há pouco, patrão — Tubarão soltou a bomba, sem anestesia. — O coroa, o tal do Antônio, esticou o canal. Infarto fulminante. Dizem que a garota chegou em casa virada no Jiraiya, bêbada de tudo, humilhando o velho. O coroa não aguentou o rojão. Morreu sozinho no quarto enquanto ela dormia o sono dos justos. Eu senti um canto da minha boca subir num sorriso sombrio. A ironia da vida é a minha melhor diversão. A garota que se achava superior a tudo e a todos, que tinha o futuro traçado nos livros de medicina, acabou de ser a mão que apertou o gatilho do coração do próprio pai. — Morreu, é? — Dei uma tragada no charuto que eu tinha acabado de acender, a fumaça inundando meus pulmões. — Que coisa feia... A doutorinha agora tá órfã de pai e de moral. — O clima tá tenso, chefe — Tubarão continuou. — Ela tá lá embaixo em surto total. O tal do Marcos, aquele médico que mora ali e se acha o protetor dela, teve que sedar a garota. Ela queria se jogar na frente dos carros, gritando que matou o pai. O morro inteiro tá comentando a vergonha. Caminhei até a pequena mesa onde meu tablet tava conectado ao sistema de segurança. Comecei a passar os dedos na tela, mudando as câmeras até focar na ruela onde a Sara morava. Mesmo de longe, pela lente de visão noturna, dava pra ver a movimentação. Ambulância, gente chorando, o corpo sendo levado. — Ela sempre foi preconceituosa, né Tubarão? — Falei, os olhos fixos na imagem granulada. — Olha pra nós como se a gente fosse lixo, como se a Muralha fosse um câncer. Ela se acha melhor que todo mundo aqui porque lê uns livros e usa um perfume caro que o pai pagava com suor de obra. Agora o escudo dela virou pó. Senti uma satisfação doentia crescendo no meu peito. Eu gosto de ver o orgulho sendo quebrado. Eu gosto de ver quem se acha intocável descobrindo que o chão é duro pra todo mundo. — Ela é arrogante demais, chefe. Acha que o mundo gira em torno do umbigo dela — comentou o Tubarão, limpando o suor da testa. — É... ela acha — soprei a fumaça direto na tela do tablet, em cima do rosto dela que aparecia num flash de memória. — Mas agora o jogo mudou. Sem o pai pra passar a mão na cabeça, ela vai ter que aprender a nadar nesse esgoto que ela tanto despreza. E eu vou estar aqui, de camarote, assistindo cada braçada dela rumo ao fundo. Puxei o ar com força, sentindo o poder correr nas minhas veias. A Sara agora era uma presa ferida no meu território. E no Complexo da Muralha, o que tá ferido ou se cura sob as minhas ordens, ou é devorado pelo meu sistema. — Fica na atividade, Tubarão. Quero saber até o que ela respira a partir de agora. A doutorinha vai descobrir que o inferno dela tá só começando. E o d***o aqui... sou eu.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD