Eu continuei a subida, cada passo era uma luta contra a gravidade que parecia ter dobrado de força. Meus calcanhares latejavam, mas eu não descia do salto nem por um decreto. Júlia me puxava, o rosto dela estava pálido sob a luz fraca dos postes tortos do morro, mas eu só sentia o calor do álcool circulando no meu sangue, me dando uma coragem que eu nunca deveria ter tido.
Quando chegamos na frente do portãozinho de ferro da minha casa, Júlia me soltou, respirando fundo como se tivesse acabado de atravessar um campo minado.
— Entra logo, Sara. Pelo amor de Deus, amanhã a gente se fala se você ainda estiver viva — ela sussurrou, já dando as costas e descendo a ruela em direção à casa dela, quase correndo.
Eu ri, uma risada anasalada e debochada. "Covarde", pensei.
Segurei no muro para não cair e tateei a bolsinha de strass atrás das chaves. Minhas mãos estavam bobas, os dedos não obedeciam. Quando finalmente pesquei o molho de chaves, deixei cair no chão. O som do metal batendo no cimento pareceu um tiro no silêncio da madrugada. Praguejei baixinho, agachei com tudo e a minha cabeça deu uma volta completa. O mundo girou. Me apoiei no chão úmido, peguei a chave e, depois de três tentativas erradas, consegui abrir a porta.
Entrei esbarrando no batente, o ombro batendo com força na madeira. A casa estava um breu, cheirando ao café que meu pai sempre deixava pronto para o dia seguinte. Eu tentei caminhar na ponta dos pés, mas o salto agulha martelava o piso de cerâmica. Toc. Toc. Toc. Atravessei a sala como um furacão desgovernado. Meu quadril bateu na quina da mesa de jantar, fazendo o vaso de flores de plástico da minha tia Zuleide balançar perigosamente.
— Droga... — resmunguei, soltando um soluço que veio direto do estômago.
Eu estava quase chegando no corredor quando o clique do interruptor ecoou como um chicote. A luz branca da sala estourou na minha visão, fazendo meus olhos arderem e minha cabeça latejar instantaneamente. Eu parei, protegendo o rosto com a mão, cambaleando para trás.
— Bonito, Sara. Muito bonito.
A voz do meu pai não estava alta. Ela estava baixa, pesada, vindo lá do canto do sofá onde ele estava sentado na escuridão, esperando. Ele se levantou devagar, a silhueta dele parecendo gigante contra a luz. Ele ainda estava com a roupa do trabalho, o rosto sujo de poeira de obra, os olhos vermelhos não de sono, mas de quem tinha passado horas imaginando o pior.
Eu tentei me emproar. Endireitei as costas, mas o meu vestido vermelho estava todo torto, uma alça caída, e eu sabia que meu cabelo estava um ninho de mafagafos.
— Que susto, pai! Quer me matar do coração? — disparei, tentando parecer indignada, mas a voz saiu arrastada, denunciando cada gota de tequila.
— Eu é que te pergunto, Sara. Você quer me matar? — Ele caminhou até o centro da sala. O olhar dele percorreu o meu corpo, do salto sujo de lama até o decote profundo do vestido. — Olha o seu estado. Você não consegue nem ficar em pé sozinha. Cheirando a bebida, a cigarro... cadê a minha filha? Cadê a menina que tinha orgulho de ser a melhor da turma?
Eu soltei uma risada cínica, jogando o cabelo para o lado com um movimento brusco que quase me fez cair.
— Ela tá aqui, pai! Só que ela cresceu, sabe? Ela quer viver! Eu não sou um dos seus sacos de cimento que você empilha e deixa onde quer. Eu sou uma mulher!
— Você é uma irresponsável! — ele rebateu, a voz subindo um tom, a mão calejada apontando para a porta. — Você subiu esse morro nesse estado? Gritando? O Marcos me ligou, Sara! Ele disse que você o humilhou na frente de todo mundo, que você o tratou como lixo só porque ele queria te trazer em segurança. Você tem noção de quem mora nesse morro? Você tem noção de que se o Golias ou os homens dele resolvem que você passou dos limites, nem eu consigo te salvar?
Ao ouvir o nome do dono do morro, eu perdi o resto de juízo que me sobrava. O álcool criou uma barreira de arrogância que me fazia sentir intocável.
— Ah, pronto! Agora vai virar segurança do "chifrudo"? — debochei, rindo na cara dele. — Me deixa em paz, pai! O Golias que se dane, você que se dane! Eu não aguento mais essa casa, esse cheiro de mofo, essa vigilância! Eu sou a futura doutora, eu vou sair daqui e nunca mais olhar pra trás!
Eu vi o exato momento em que a mão dele tremeu. Vi o brilho de dor nos olhos do homem que nunca tinha me dado um tapa, que tinha passado fome para me dar o melhor cursinho. Mas eu não liguei. O egoísmo da juventude misturado com a bebida era um veneno potente.
— Me deixa... em paz — repeti, cada palavra saindo como uma facada.
Girei nos calcanhares, quase caindo de novo, e rumei para o quarto. Entrei esbarrando na porta do corredor, bati no armário e finalmente entrei no meu refúgio. Bati a porta com tanta força que o som pareceu ecoar pelo morro inteiro.
Tranquei a porta. O quarto girava. Eu me sentei na beirada da cama, tentando tirar o salto, mas os nós dos dedos estavam dormentes. Desisti. Me joguei de costas no colchão, sentindo o teto descer e subir. Eu ainda conseguia ouvir os passos pesados do meu pai na sala, o suspiro longo dele, e depois o silêncio mortal.
"Eles não me entendem", pensei, as lágrimas de bêbada começando a escorrer e borrar o rímel. "Eu sou rainha aqui. Eu sou maior que tudo isso."
....
Acordei com a cabeça latejando, um gosto de ferro na boca e o sol queimando a minha cara através da janela. A primeira coisa que senti foi o nojo de mim mesma; o vestido vermelho estava colado no meu corpo, suado, imundo. Levantei num solavanco, a pressão caindo e fazendo tudo escurecer por um segundo.
— Pai? — chamei, mas a voz saiu um sussurro seco.
O silêncio na casa era um barulho ensurdecedor. Estranho. O rádio não estava ligado, não tinha cheiro de café, não tinha o som das botas dele batendo no chão antes de ir pra obra. Cambaleei pelo corredor, segurando nas paredes, o estômago embrulhando.
— Pai? Para com isso... eu sei que tô errada, tá? — gritei, tentando esconder o medo que já começava a subir pela minha garganta.
Passei pela cozinha. Vazia. A sala. Vazia. Fui em direção ao quarto dele, e a porta estava apenas encostada. O meu coração deu um solavanco, batendo contra as costelas como um bicho enjaulado. Empurrei a madeira com a ponta dos dedos.
— Pai...
O grito que saiu da minha boca não foi humano. Foi um urro, um som de animal sendo esfaqueado.
Ele estava caído no chão, ao lado da cama, com um dos braços dobrado debaixo do corpo e o outro esticado, os dedos encarquilhados como se estivessem tentando alcançar a porta. O rosto estava de lado, arroxeado, os olhos vidrados, sem brilho, encarando um ponto vazio no rodapé.
— NÃO! NÃO! NÃO! PAI, ACORDA! — Eu me joguei no chão, os joelhos batendo com força no piso frio, mas eu não senti nada.
Segurei os ombros dele, sacudindo o corpo pesado e rígido. A pele estava gelada. Uma frieza que parecia sugar o calor das minhas mãos.
— PAI, FALA COMIGO! SOU EU, A SARA! — Eu gritava até a minha garganta arder, até minhas cordas vocais parecerem que iam rasgar. — ME PERDOA! ME DESCULPA PELO QUE EU DISSE! EU SOU UM LIXO, PAI, MAS ACORDA! POR FAVOR, ACORDA!
Eu tentava levantar o tronco dele, mas ele era chumbo. Comecei a desferir murros no peito dele, uma tentativa desesperada e técnica de massagem cardíaca que eu tinha lido nos livros de medicina, mas a teoria é uma merda quando o morto é o seu sangue. Eu chorava tanto que a minha visão era um borrão de dor e remorso.
— SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDA! MEU PAI TÁ MORRENDO! — minha voz quebrou num soluço violento.
Nesse momento, a porta da frente voou. Ouvi os passos rápidos e o grito da Tia Zuleide ecoando pela casa. Ela entrou no quarto e parou na porta, as mãos voando para a boca, os olhos quase saltando da cara.
— MEU DEUS! ANTÔNIO! — Ela berrou, caindo de joelhos do outro lado do corpo. — O que houve, Sara? O que aconteceu?!
— Ele não acorda, tia! Ele não respira! Faz ele acordar, por favor! — Eu soluçava, abraçada ao pescoço dele, manchando a camisa gasta do meu pai com o meu rímel borrado e as minhas lágrimas de bêbada.
Zuleide tocou no pescoço dele e soltou um gemido de dor que cortou a alma. Ela olhou para mim, o rosto transfigurado de horror e mágoa.
— Ele estava passando m*l ontem, Sara! — Ela gritou, a voz carregada de acusação. — Ele sentiu uma dor forte no peito enquanto te esperava. Eu disse pra ele ir pro hospital, eu implorei! Mas ele não quis! Ele disse: "Eu não posso ir, Zuleide. Se eu sair daqui e a minha filha chegar e eu não estiver pra proteger ela desse morro, eu não me perdoo". Ele ficou aqui... ele ficou aqui morrendo por tua causa enquanto você estava lá fora dando show!
Aquelas palavras foram como balas de fuzil atravessando o meu peito. Eu olhei para o rosto sem vida do meu pai. A última lembrança dele era o olhar de nojo e dor que ele me deu na sala, enquanto eu o humilhava por ele ser "um santo sofredor". Eu matei o meu pai. O estresse, a mágoa, a espera... eu fui a mão que apertou o gatilho do infarto dele.
— Não... não... — eu balbuciava, sentindo o ar fugir dos meus pulmões. — Pai, volta... por favor...