A Decisão

1741 Words
Capítulo 008: A Decisão Os preparativos para a viagem ao coração da Cidade de Nauruan foram realizados com uma eficiência adquirida pela experiência. A família Galina, há muito acostumada a viver de forma independente, já conhecia suas responsabilidades sem precisar receber ordens. Sempre que Ash e Ay partiam para negociar, o trabalho em casa se tornava muito mais pesado. Com os dois trabalhadores mais fortes da família ausentes, aqueles que permaneciam precisavam se esforçar em dobro. Se a viagem ocorresse sem problemas, Ash e Ay só retornariam depois de cerca de duas semanas, após venderem suas mercadorias e realizarem a longa viagem de volta para casa. Por esse motivo, todos se movimentavam mais rápido do que o habitual. Sempre que viajavam até o centro da cidade, os habitantes de Caihina sempre seguiam em caravanas. A estrada para Nauruan era conhecida por seus perigos. Bandos de foras da lei escondidos nas fronteiras das florestas frequentemente atacavam comerciantes que viajavam sozinhos. Há muito tempo era costume que os moradores dos nove vilarejos espalhados pelos desertos e savanas de Caihina coordenassem seus horários de partida. Viajando juntos em grandes grupos, eles aumentavam consideravelmente suas chances de chegar ao destino em segurança. Naquela manhã, Ash e Ay se juntaram novamente à caravana. Centro da Cidade de Nauruan Após uma longa viagem, a caravana finalmente chegou ao coração da Cidade de Nauruan. Como sempre, a cidade fervilhava com os sons do comércio. Mercadores gritavam anunciando suas mercadorias, os sinos das carruagens tocavam ocasionalmente pelas ruas principais, e o aroma das especiarias se misturava à poeira no ar. Mas, para Ash, aquela viagem significava muito mais do que vender carne de caça, peles de animais e ferro forjado. Ele tinha outro objetivo — um muito mais importante. Desde o momento em que chegaram, ele e Ay procuraram deliberadamente informações sobre o Grão-Duque Hugh Griffith — o homem que poderia se tornar o futuro marido de Atthy. Infelizmente, quanto mais descobriam, mais pesado o coração de Ash se tornava. "Grão-Duque Griffith?" murmurou um mercador idoso, abaixando a voz. "Nunca arrume uma briga com esse homem. O coração dele é feito de aço. Ele não demonstra misericórdia com ninguém que se coloque contra ele." Um comerciante de tecidos da barraca ao lado entrou na conversa. "Ouvi dizer que ele tomou Skythia através de um banho de sangue. Até mesmo a família real prefere cooperar com ele a ficar do lado oposto." Rumor após rumor continuava surgindo. Nenhum deles trazia qualquer conforto. Ay permaneceu em silêncio enquanto ouvia. A cada nova história, sua mandíbula ficava mais tensa. Ao meio-dia, eles pararam para descansar em uma pequena taverna escondida em uma esquina da cidade. Mal suas bebidas foram servidas, Ay colocou seu copo sobre a mesa com mais força do que o necessário. "Pai..." Sua voz estava pesada. "Alguém assim... realmente vai se tornar meu cunhado?" Ash soltou um longo suspiro. "Essas são apenas histórias, Ay. Ainda não sabemos a verdade." "Histórias?" Ay encarou o pai com um olhar afiado. "Nem você acredita que sejam apenas histórias." Ash ficou em silêncio. "Minha irmã não é uma mercadoria." A voz de Ay começou a se elevar. "Ela não é uma ferramenta política que pode ser entregue em troca de títulos e prestígio nobre." Vários clientes se viraram para olhar para eles. "Cuidado com sua língua, Ay!" repreendeu Ash. A atmosfera ao redor da mesa congelou instantaneamente. "Você acha que eu não pensei em tudo isso?" continuou Ash, sua voz mais baixa, porém muito mais pesada. "Antes de Atthy se tornar sua irmã... ela era minha filha." Seus olhos se encontraram. "Você acha que eu entregaria minha filha voluntariamente a um homem que nunca sequer conheci?" Ay mordeu o lábio. Sua raiva não havia desaparecido, mas ele sabia que seu pai carregava o mesmo peso. Após um longo silêncio, ele respirou profundamente. "Pai..." Sua voz suavizou. "Eu não me importo se ele é um Grão-Duque... ou até mesmo um rei." "Eu não quero que a Irmã Atthy se torne um sacrifício nos jogos políticos dos nobres." Ash baixou o olhar. "Recuse a proposta, Pai." O pedido era completamente sincero. Ash olhou para seu filho por um longo momento antes de suspirar. "Escute-me, Ay." Sua voz havia se tornado muito mais calma. "Eu não sou apenas seu pai." "Também sou o chefe da família Galina." Ele colocou uma mão sobre o ombro do filho. "Cada decisão que tomo precisa considerar o futuro de toda a nossa família." "Não apenas Atthy, mas também seu avô, sua falecida mãe, todos vocês... e até mesmo o povo de Caihina que depende da nossa família há tanto tempo." Ay abaixou a cabeça. "Eu não abandonarei minha família." Ash pronunciou as palavras em voz baixa. Mas justamente por ele falar com tanta calma, sua determinação parecia ainda mais forte. Ay assentiu lentamente. "Desculpe, Pai." Ele respirou fundo. "Deixei minhas emoções me dominarem." Ash sorriu levemente. "Não há necessidade de pedir desculpas por isso." Ele bagunçou gentilmente o cabelo do filho, como fazia quando Ay ainda era um menino pequeno. "Tenho orgulho de você." Ay ergueu o olhar. "Você ainda é jovem, mas sua coragem para proteger sua família já supera a de muitos homens adultos." Um leve sorriso permaneceu no rosto de Ash. "Seu avô ficaria orgulhoso ao ver você assim." O rosto de Ay ficou vermelho. "Obrigado, Pai." Ash assentiu silenciosamente. Mas depois que a conversa terminou, seu coração apenas ficou mais perturbado. Quanto mais informações reunia sobre Hugh Griffith, mais difícil se tornava acreditar que aquela proposta de casamento era apenas uma coincidência. E se alguém realmente estivesse manipulando a família Galina... Então o jogo estava apenas começando. Vários dias depois... Ash estava na modesta sala de estar de sua casa. Seu olhar permanecia além da janela, onde o orvalho da manhã cobria o vidro, enquanto a lenha crepitava suavemente na lareira — o único som que quebrava o silêncio. Ele acabara de terminar de explicar seus cálculos a Rowt. Quanto mais calculava, mais forte se tornava a suspeita que o atormentava desde que descobrira sobre o enviado de Alpen. "Pai... isso não faz sentido." Ash se virou para Rowt, que estava sentado calmamente em uma cadeira de madeira. "Se calcularmos o tempo de viagem tanto da carta quanto da jornada deles, o enviado não deveria ter conseguido chegar ainda." "Mas, na realidade, eles estão cerca de doze dias à frente da minha estimativa." Rowt acariciou sua barba grisalha. "Você está certo", murmurou. "Mas por que eles teriam tanta pressa?" "É exatamente isso que venho tentando descobrir!" respondeu Ash, frustrado. "Pai... isso parece uma armadilha." "É como se tudo tivesse sido planejado desde o começo." Rowt soltou um leve resmungo. "É claro que foi planejado." "É uma proposta de casamento, seu garoto tolo." "Você achou que fariam isso sem qualquer preparação?" "Pai!" Ash respondeu bruscamente. Seu rosto ficou vermelho de irritação. "Estou falando sério!" "Pare de brincar!" "Isso envolve o futuro da minha filha." Rowt apenas levantou uma sobrancelha. "E você acha que eu não estou falando sério?" perguntou calmamente. "Controle seu temperamento, Ashton Galina." "Uma espada balançada pela raiva perde o fio." Ash cerrou os punhos, forçando-se a permanecer calmo. "Parece que você está se divertindo com essa situação." "Eu não estou me divertindo." "Então o quê?" "Eu simplesmente não vejo motivo para entrar em pânico." Ash soltou um longo suspiro. "Precisamos decidir o que fazer agora." Rowt recostou-se confortavelmente. "E exatamente o que podemos fazer?" "Você mesmo não acabou de dizer que não podemos interceptar o enviado de um Grão-Duque no meio do caminho?" Ele olhou para o filho sem expressão. "Ou você pretende declarar guerra contra Hugh Griffith?" Ash apenas bufou. "Somos uma família pequena que praticamente foi esquecida pela nobreza", continuou Rowt. "Não há nada que possamos fazer além de recebê-los quando chegarem." Ash permaneceu em silêncio por algum tempo antes de falar novamente. "Pai..." "Você não acha que tudo isso é estranho demais?" "De que maneira?" "Não temos poder." "Não temos riqueza." "Até mesmo o título da nossa família perdeu quase todo o significado." Ash balançou lentamente a cabeça. "Então..." "O que exatamente eles querem de nós?" Rowt deu de ombros. "Talvez eles queiram descendentes." Ash imediatamente massageou as têmporas. "Pai..." "O quê?" "Esse Grão-Duque já tem quatro filhos e dois netos." Ash olhou para o pai sem expressão. "Se tudo o que ele queria eram descendentes, existem inúmeras nobres que aceitariam alegremente entrar na fila para se tornar sua esposa..." "...mesmo que ele tenha quase a mesma idade que você." Rowt apenas abriu um sorriso. "Então..." "Deve haver outro motivo." Ash estreitou os olhos. "Outro motivo?" Rowt inclinou-se para frente. "Tem certeza de que não existe nada do seu passado?" "O que quer dizer?" "Um inimigo." Ash franziu a testa. "Ou talvez..." Rowt encarou diretamente seus olhos. "...exista algo que você nunca me contou." Ash soltou um resmungo exagerado. "É claro que tenho inimigos." "Oh?" "Os bandidos que continuam atacando nossas caravanas." "Mais um." "Os arruaceiros do mercado que gostam de assediar Atthy." "Ainda não é suficiente." Ash sorriu levemente. "Algumas mulheres que tiveram seus corações partidos depois que eu as rejeitei." Rowt fechou os olhos por um momento. "Ashton Galina..." "O quê?" "Pare de se vangloriar." "Foi você quem perguntou." Rowt balançou lentamente a cabeça com um suspiro. "Eu fiz uma pergunta séria." O sorriso desapareceu do rosto de Ash. "Se quer a resposta séria..." "...eu realmente não sei." Ele olhou para o chão por um momento. "Não tenho nenhum inimigo poderoso o bastante para orquestrar algo assim." Ash ergueu novamente a cabeça. "E se o objetivo deles fosse destruir nossa família..." "...esse método não faria sentido." "Por quê?" "Porque se Atthy realmente se tornar esposa do Grão-Duque Griffith..." "...e conquistar um lugar ao lado dele..." Ash balançou lentamente a cabeça. "Isso elevaria nossa família." "Não a destruiria." Rowt permaneceu em silêncio. A lógica era difícil de contestar. Depois de algum tempo, ele soltou um longo suspiro. "Você tem razão." Ele olhou pela janela. "Mas mesmo assim..." "...isso ainda não explica por que tudo isso está acontecendo." O silêncio voltou a tomar conta da sala. Após alguns momentos, Ash finalmente o rompeu. "Daqui a dez dias, o enviado de Alpen chegará." Rowt assentiu silenciosamente. "Não temos escolha." "Devemos recebê-los com o respeito que merecem." Ash encarou as chamas dançando dentro da lareira. "Mesmo tendo certeza..." "...a chegada deles trará problemas muito maiores do que qualquer coisa que já enfrentamos antes."
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD