Capítulo 007: Norte e Sul
Alpen, ao norte, não era muito diferente de Nauruan, ao sul. Ambos eram grandes territórios fronteiriços do Reino de Xipil, amplamente evitados devido ao seu terreno perigoso e às suas paisagens implacáveis. Seus domínios eram vastos, porém poucos nobres estavam dispostos a se envolver em assuntos dessas regiões devido ao constante risco de conflitos nas fronteiras.
Embora compartilhassem muitas semelhanças geográficas, a maior diferença entre Alpen e Nauruan estava em seus governantes.
Alpen, de clima frio, era governado por um Grão-Duque conhecido por sua liderança firme e presença imponente. Sob seu comando, o território permanecia estável apesar de viver sob a constante ameaça de guerra.
Nauruan, por outro lado, possuía um clima tropical e terras férteis que deveriam ter trazido prosperidade. Em vez disso, enfrentava inúmeros problemas causados por seu governante arrogante e extravagante. Para o Conde Veraga, seu próprio luxo importava muito mais do que o bem-estar de seu povo.
O estilo de vida de seus habitantes também refletia essas diferenças.
O povo de Alpen era conhecido por ser calmo, disciplinado e bem adaptado ao ambiente impiedoso em que vivia. Enquanto isso, a vida em Nauruan era muito mais agitada e vibrante, porém seu povo estava muito atrás de Alpen em termos de prosperidade.
Uma das principais razões era a inveja interminável do Conde Veraga em relação a Xerces, a magnífica capital do Reino de Xipil. Tendo recebido a responsabilidade de governar Nauruan, ele buscava incansavelmente realizar grandes projetos de construção para tornar seu território rival de Xerces, apesar de a economia e a sociedade de seu povo serem incapazes de sustentar tais ambições.
Por outro lado, muitos nobres e aristocratas de Nauruan acreditavam que a corte real nunca os havia tratado de maneira justa. Como resultado, o governo acabou consumido por interesses conflitantes. Os oficiais estavam mais preocupados em aumentar suas próprias riquezas do que em desenvolver o território, enquanto a desconfiança mútua apenas tornava a administração cada vez mais caótica.
O próprio Alpen era muito maior — quase dezenas de vezes o tamanho da glamorosa cidade de Xerces. Entretanto, sua prosperidade não era construída sobre cidades luxuosas, mas sim sobre seus abundantes recursos naturais. As minas de carvão, ouro e diamantes formavam a base de sua economia.
Apesar de estar localizado na fronteira mais ao norte do reino, distante do centro do governo, Alpen jamais ficou para trás. Isso se devia principalmente à liderança do Clã Griffith, cuja extraordinária capacidade de governar havia se tornado amplamente conhecida. Sua aplicação inflexível da lei, combinada com políticas prudentes, mantinha Alpen estável mesmo vivendo sob a sombra da guerra.
Alpen possuía quase três vezes o território de Nauruan, mas também escondia perigos muito maiores. Fazia fronteira com três nações que ainda não haviam alcançado uma paz duradoura.
Junto com Skythia e Kargavs, Alpen permanecia uma das regiões disputadas por seis grandes reinos. A luta pelo controle daquele território continuava há mais de dois séculos.
Gerações atrás, o Clã Griffith garantiu Alpen ao conquistar Zorthen e Karzeth. Desde então, jamais perderam o controle daquele território, transformando Alpen na fortaleza do norte do Reino de Xipil e em um símbolo duradouro da autoridade do Clã Griffith.
Durante gerações, a hierarquia social profundamente enraizada dentro do governo e da sociedade tornou quase impossível para os plebeus escaparem dos desertos e savanas severos que definiam suas vidas.
No início, o sal e as peles de animais eram as principais mercadorias que sustentavam a economia de Caihina. Entretanto, após a descoberta de depósitos de ferro, muitos aldeões começaram a aprender a arte da ferraria. Seu modo de vida difícil os obrigava a dominar uma ampla variedade de habilidades simplesmente para sobreviver.
Graças à resiliência de seu povo, Caihina permaneceu autossuficiente apesar de seu isolamento e do frequente abandono do reino.
Na verdade, a maioria das pessoas de Caihina não era pobre. Porém, por terem origem plebeia e serem considerados uma tribo atrasada, eram constantemente desprezados. Ironicamente, o sal e as peles de animais de Caihina alcançavam preços excepcionalmente altos no mercado, embora poucos estrangeiros soubessem de onde realmente vinham.
No início, o comércio de sal e peles era monopolizado pelas elites governantes de Nauruan.
Isso mudou depois que Rowt recebeu o título de Barão.
Sua nova posição lhe concedeu autoridade para supervisionar as rotas comerciais, desmontando gradualmente o monopólio. Pela primeira vez, o povo de Caihina pôde desfrutar dos frutos do próprio trabalho, fosse através da mineração de sal ou do processamento de peles de animais.
Entretanto, esse mesmo sucesso transformou Rowt em alvo do ódio da aristocracia.
Para eles, um plebeu capaz de alterar a ordem comercial estabelecida representava um precedente perigoso.
Mesmo carregando o peso de impostos esmagadores, Rowt recusou-se a abandonar seu título, determinado a proteger o povo de Caihina.
O incidente tornou-se uma lição para a nobreza.
Eles passaram a considerar Rowt um exemplo perigoso — um plebeu que havia conquistado influência.
A partir daquele momento, quase todas as tentativas dele de avançar foram recebidas com obstáculos.
Apesar da pressão constante da aristocracia, Rowt e Ash jamais desistiram. Eles mantiveram as rotas comerciais de Caihina mesmo enquanto atravessavam fronteiras florestais cada vez mais perigosas. Sempre que uma caravana mercante partia, os dois cavalgavam na frente.
Agora, Atthy e Ay haviam começado a seguir seus passos.
A mineração de sal, a caça, a forja de ferro e o comércio faziam parte da vida diária da família de Rowt. Atthy participava de todas essas atividades.
Entretanto, nada disso era incomum em Caihina.
A maioria das mulheres daquela região era criada da mesma maneira.
Os meninos geralmente começavam a caçar sozinhos aos nove anos, enquanto as meninas começavam a aprender ao lado de seus pais ou irmãos mais velhos depois dos treze anos.
Essa tradição havia resistido por gerações.
O deserto e a savana não demonstravam misericórdia.
Sobreviver naquele lugar exigia força física e resistência mental.
Por isso, as mulheres de Caihina eram conhecidas por sua dignidade e resistência, permanecendo lado a lado com os homens.
Embora vivessem em uma terra impiedosa, haviam se tornado um povo de coração aberto, que valorizava ajudar uns aos outros.
Tendo vivido anteriormente entre a alta sociedade nobre, Rowt compreendia melhor do que qualquer pessoa a importância da educação.
Apesar de viver na pobreza, ele acreditava firmemente que o conhecimento era o único caminho para mudar o futuro de alguém.
Essa crença o motivou a educar seus filhos e netos da melhor maneira possível.
Ash chegou até mesmo a se formar na academia.
Essa educação não apenas o levou a se casar com Laura, como também lhe deu a capacidade de enfrentar a intimidação de nobres e oficiais que frequentemente oprimiam o povo de Caihina sob o pretexto de fazer cumprir a lei real.
Atthy, por outro lado, nunca recebeu uma educação formal.
Entretanto, sua mãe — que havia trabalhado como instrutora de etiqueta antes de se casar com Ash — ensinou-lhe os fundamentos da educação nobre.
Essas lições permitiram que Atthy mantivesse uma postura elegante, apesar de ter crescido longe da sociedade aristocrática.
Mesmo assim, Atthy nunca desejou se casar.
Sua atenção sempre esteve dedicada à família, especialmente a Gafy.
Porém, o sonho de sua irmã mais nova de conhecer o mundo exterior lentamente levou Atthy a pensar sobre seu próprio futuro.
Ela compreendia a realidade deles melhor do que qualquer pessoa.
Sua família era feliz apesar da vida simples que levavam.
Mas essa felicidade jamais apagou as duras realidades que enfrentavam todos os dias.
O que mais a preocupava era a saúde de Gafy.
Atthy frequentemente se pegava pensando...
Se ao menos sua família tivesse vivido uma vida melhor, talvez Gafy pudesse ter recebido o tratamento adequado.
Dimi, Gafy, até mesmo Ay...
Todos eles mereciam um futuro mais brilhante.
E, pela primeira vez, a proposta que havia chegado de um lugar tão distante fez Atthy se perguntar—
Será que esta... é a oportunidade que eu jamais imaginei?
Naquela manhã, a família Galina seguiu sua rotina habitual.
Atthy acordou antes de todos para limpar a casa e lavar as roupas.
Rowt começou a preparar o café da manhã, auxiliado por Gafy, que se ocupava organizando os ingredientes.
Dimi cuidava dos animais enquanto garantia que o suprimento de proteína animal da família permanecesse suficiente.
Enquanto isso, Ash e Ay processavam os resultados de sua última caçada — desde a carne e as peles até os pelos.
A caça era a maior especialidade de Caihina.
As peles e os pelos dos animais caçados na região eram mercadorias muito valorizadas entre os comerciantes, reconhecidas por sua qualidade superior em comparação aos produtos de muitas outras regiões.
Quando o café da manhã ficou pronto, toda a família se reuniu ao redor da mesa.
Por algum tempo, os únicos sons presentes eram o suave tilintar das colheres contra os pratos.
Atthy segurava firmemente a ponta de suas roupas.
Seu peito parecia pesado.
Ainda assim, ela sabia...
Precisava contar a eles agora.
Antes que sua coragem desaparecesse.
"Pai... Avô..."
ela chamou suavemente.
"Eu tomei minha decisão sobre a proposta de casamento."
Ash, que estava comendo seu café da manhã em silêncio, imediatamente levantou o olhar.
"Atthy, não se apresse em sua decisão", disse ele com preocupação.
"Nós apenas contamos sobre isso ontem à noite. Não há necessidade de responder tão rapidamente."
Atthy respirou profundamente.
"Eu sei, Pai."
Ela sorriu levemente.
"Não sei se minha decisão foi precipitada ou não."
"Mas..."
"Passei a noite inteira pensando sobre isso."
Ela fez uma breve pausa.
"Eu decidi aceitar a proposta."
Rowt, que havia permanecido em silêncio até aquele momento, finalmente levantou a cabeça.
Seu olhar penetrante analisou sua neta, como se estivesse testando a convicção por trás de suas palavras.
"Atthy..."
"Você tem certeza?"
"Mhm."
Atthy assentiu firmemente.
"Como Pai e Avô disseram, esta é uma oportunidade extremamente rara."
"Além disso..."
"...ele é um Grão-Duque que governa um território tão vasto quanto Alpen."
Suas palavras pareciam convincentes.
Porém, a inquietação em seus olhos permanecia impossível de esconder.
Rowt não respondeu imediatamente.
Ele continuou observando-a por um momento antes de perguntar novamente:
"Você realmente não deseja pensar mais uma vez sobre isso?"
"Ainda temos tempo antes de enviar nossa resposta."
Atthy olhou alternadamente para seu pai e seu avô.
"Vocês dois me pediram para pensar sobre isso."
"E eu pensei."
"A noite inteira."
Ela respirou lentamente antes de continuar.
"Mas..."
"Se, mais tarde, Pai e Avô descobrirem que ele não é o homem certo para mim..."
"...então simplesmente recusem a proposta."
"Eu aceitarei a decisão de vocês sem nenhuma objeção."
O silêncio preencheu o cômodo novamente.
Ninguém respondeu imediatamente.
Ash e Rowt trocaram um breve olhar.
Eles sabiam.
A decisão talvez tivesse sido tomada apenas na noite anterior.
Mas a determinação nos olhos de Atthy não vinha de pressão.
Ela vinha de alguém que havia escolhido carregar um peso que ainda não compreendia completamente.
Ash e Rowt olharam um para o outro mais uma vez.
O silêncio que pairava sobre o ambiente tornou-se ainda mais pesado.
Eles conheciam Atthy muito bem.
Se ela havia tomado uma decisão, então tinha pensado sobre aquilo com todo o coração.
Mesmo assim, aquela não era uma decisão simples.
Em meio àquele silêncio, Atthy retomou calmamente sua refeição.
Seus movimentos pareciam tranquilos, mas o peso pressionando seu peito apenas aumentava.
Ela sabia.
A decisão daquele dia mudaria sua vida para sempre.
"Muito bem..."
Ash finalmente falou.
"Se essa é a sua decisão."
Ele olhou para sua filha mais velha por um longo momento.
Seus olhos, normalmente determinados, agora estavam preenchidos por uma preocupação que ele já não conseguia esconder.
"Pai..."
Atthy murmurou suavemente.
Ash soltou um suspiro baixo.
"Espero que esta seja a melhor decisão para você."
"Atthy..."
Rowt também falou.
Ele ergueu sua mão envelhecida e acariciou suavemente a cabeça de sua neta.
"Eu também espero."
O toque era caloroso.
Ainda assim, apenas fez Atthy sentir o peso de sua decisão ainda mais.
"Obrigada, Vovô..."
ela respondeu com um sorriso discreto.
Ash levantou-se, quebrando o silêncio mais uma vez.
"Tudo bem."
Ele se virou para seu segundo filho.
"Ay, avise aos outros. Nós partiremos com a caravana."
"Sim, Pai."
Ay imediatamente se levantou e saiu.
"Irmã mais velha, eu vou ajudar!" Dimi exclamou animadamente enquanto corria em direção a Atthy.
Atthy soltou uma risada suave.
"Tudo bem."
"Então me ajude a preparar as mercadorias."
Em seguida, ela se virou para Rowt e Gafy.
"Estou indo agora, Vovô."
"Irmã mais velha, eu alcanço você daqui a pouco!" Gafy chamou enquanto ainda recolhia a mesa.
"Assim que eu terminar, vou ajudar você."
Atthy assentiu com um sorriso.
"Tudo bem."
Ver a animação de sua irmã mais nova aliviou seu coração, mesmo que apenas um pouco.
Mas apenas por um momento.
Por trás do sorriso que ela conseguiu manter, sua mente continuava cheia de perguntas.
Aquela decisão era muito mais do que simplesmente aceitar uma proposta de casamento.
Era o primeiro passo em direção a um mundo que ela não conhecia.
E, por alguma razão...
Quanto mais avançava, mais forte sua intuição lhe dizia que o caminho de volta ficaria cada vez mais distante.